quarta-feira, 30 de setembro de 2015

N@ CAPA: A Arte de Nina Boesch


A capa do mês de setembro foi uma junção de obras da artista plástica Nina Boesch, que resolveu parar de jogar fora os tickets do metrô de Nova York e criar belos mosaicos com eles. Ela não cria obras somente com celebridades, mas com paisagens urbanas também. Para conhecer mais o trabalho da artista você pode acessar metrocardcollages.com. Abaixo, um pouco do trabalho de Nina:

Andy Warhol

Audrey Hepburn

Bruce Lee

James Dean

John Lennon

Martin Scorsese

Bob Milk Robert DeNiro

Woody Allen

Nina Boesch

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Pódio: Faye Dunaway

Bronze: a misteriosa.
3º Chinatown (1974)
Nascida  na Flórida em 1941, Dorothy Faye Dunaway foi uma das atrizes mais prestigiadas das décadas de 1960 e 1970, em sua encarnação como a  femme fatale desse filme de Roman Polanski, podemos entender bem o motivo de seu sucesso. Pela forma ambígua como compõe a sua personagem, nunca deixando claras as suas intenções, a atriz torna-se fundamental para o desenvolvimento desse film noir  sobre a contratação de um detetive para investigar um empresário adúltero. Nada é o que parece nesse filme, que garantiu à Faye sua segunda indicação ao Oscar de Melhor Atriz.


Prata: a fora da lei.
Bonnie & Clyde (1967)
Dunaway se tornou símbolo sexual conhecido mundialmente em sua atuação como a ladra de bancos Bonnie Parker, uma garçonete que se apaixonou pelo bandido Clyde Barrow (Warren Beatty). Os dois passam a roubar bancos em várias cidades do sul dos EUA e, quando tem tempo, discutem a relação. O filme de Arthur Penn marcou época pela sua mistura de violência crua, humor ácido e sensualidade numa edição vertiginosa que revolucionou a forma como se filmava em Hollywood. Muitos consideram que no roteiro Bonnie não recebe o destaque merecido, mas Faye a interpreta de forma radiante (o que lhe valeu sua primeira indicação ao Oscar).

Ouro: a ambiciosa.
Rede de Intrigas (1976)
Para consolidar o período mais icônico da carreira, não poderia faltar o reconhecimento da Academia ao seu talento. O Oscar de Melhor Atriz veio com esse filme sensacional de Sidney Lumet sobre um canal de televisão que não vê limites na guerra pela audiência. Dos profissionais cheios de ideais, passando pelo fanatismo do público e à manipulação comportamental promovida pela mídia, Rede de Intrigas é um primor de execução, ao ponto de sua história ser atual até os dias de hoje. Coube à atriz encarnar tudo o que a televisão tem de mais assustador, mas que revela bastante sobre as responsabilidades que temos sobre a selvageria que vai ao ar. 

KLÁSSIQO: Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas

Faye e Warren: dupla antológica. 

Lançado em 1967,  Bonnie & Clyde é um filme que nunca envelhece. Se levarmos em consideração que ele era moderno até mesmo para sua época, fica fácil entender o fascínio que ele causa até hoje em quem o assiste. O motivo para isso está para além da violência estilizadamente crua que apresenta, mas na forma como o diretor Arthur Penn conta sua história sem seguir os padrões estabelecidos por Hollywood na década em que foi lançado. Tanto que a história se passa durante a Grande Depressão dos EUA, mais precisamente no ano de 1934, mas foi abraçado pelo movimento de contracultura pela forma como os personagens são apresentados. Ao utilizar o ponto de vista de um casal de assaltantes e seus comparsas, Penn romantiza a história do casal protagonista apresentando alguns de seus dilemas morais e problemas no relacionamento. O filme não gasta muito tempo apresentando Clyde Barrow (Warren Beatty) e Bonnie Parker (Faye Dunaway, belíssima), mas sabemos que a atração perigosa existente entre os dois foi fulminante. Os dois assaltam bancos pelo sul dos Estados Unidos e enfrentam problemas com a polícia local. Entre as discussões dos dois (até Clyde reconhece não ser bom amante) e a saudade que Bonnie sente da família, os dois colecionam contravenções no currículo vasto. Entre os comparsas do casal está o irmão de Clyde, Buck (Gene Hackman) e sua esposa histérica Blanche (Estelle Parsons) - que logo desenvolve atritos com Bonnie - ou o desconhecido C.W. (Michael J. Pollard). Ainda hoje o filme pode despertar polêmicas pela forma como apresenta os personagens foras da lei, tanto que, nem o estúdio confiava no sucesso do filme, causando surpresa diante do seu desempenho nas bilheterias e premiações (se você acha que a Academia é conservadora hoje, imagine em 1967 um filme desses conseguir dez indicações ao Oscar! Ganhou o de atriz coadjuvante para Parsons e melhor fotografia). Bonnnie & Clyde causou uma revolução em Hollywood com sua montagem ágil e a quantidade de locações externas, especialmente para as perseguições de carro em meio a tiroteios.  Considerados por muitos a obra-prima de Arthur Penn, um diretor famoso por arrancar atuações memoráveis de seu elenco (aqui todos os citados foram indicados ao Oscar por suas performances), Penn não desafina em momento algum, num ritmo em constante contraste entre o humor, a violência e o romance (outro aspecto bastante inovador para a época). A história do casal bandido apaixonado já  foi filmada outras vezes, mas nenhuma outra versão conseguiu um resultado tão emblemático e  sintonizado com o seu tempo. Suas qualidades cinematográficas, que permanecem intactas, comprovam que o filme sempre esteve à frente do seu tempo.  

Bonnie & Clyde (EUA-1967) de Arthur Penn com Warren Beatty, Faye Dunaway, Gene Hackman, Michael J. Pollard, Gene Wilder e Estelle Parsons. ☻☻☻

domingo, 27 de setembro de 2015

PL►Y: Stretch

Patrick: pé frio em um dia daqueles. 

Ainda que não seja muito conhecido, Patrick Wilson é um dos meus atores favoritos. Pena que nem sempre ele consegue um papel à altura do que já vimos do que ele é capaz de fazer (procurem  o aclamado Pecados Íntimos/2006 para lembrar). Além disso, tem um pé frio descomunal por se meter em produções que não recebem muita atenção, nem mesmo quando se mistura com diretores espertos como Joe Carnahan. Carnahan é responsável pelo celebrado Narc (2002) e pelo sensacional A Última Cartada (2006), onde sempre demonstrou controle absoluto sobre a tensão estilosa de suas histórias. Se em alguns momentos, sua carreira flertava com a comédia de humor negro, Stretch se assume como tal, embora demore um pouco para engrenar. O título se refere ao motorista de limusine de Holywood (vivido por Patrick Wilson) naquele que poderia ser apenas mais um dia de trabalho com figuras estranhas da terra do cinema, mas as coisas pioram cada vez mais numa noite interminável. Stretch tem uma dívida de seis mil dólares para quitar, ainda tem problemas por Ray Liotta ter esquecido uma arma e um distintivo de seu novo personagem dentro da limusine - como se não bastasse isso, ainda sofre com o pé na bunda que recebeu da namorada. Para dar uma piorada em seu inferno astral, ele é encarregado de passar o dia com o excêntrico Roger Caros (Chris Pine, em participação não creditada num personagem ainda mais estranho do que o que fez em A Última Cartada), que irá colocar o motorista em enrascadas ainda mais perigosas por conta de uma gorda gorjeta que o levará a ser até perseguido pelo FBI. Patrick Wilson consegue viver o protagonista com seu carisma habitual, carregando o filme nas costas e nos faz até esquecer os clichês abundantes da história (que ele é um ator em busca de reconhecimento, que toda celebridade é excêntrica, que existe um submundo regado a sexo e drogas em Los Angeles...), mas existem muitas ideias bem sacadas, seja pela forma como se complica com o FBI ou do aplicativo usado para marcar um encontro (que nunca se concretiza, mas que pontua o quanto seu trabalho se distancia da realidade que gostaria de ter). É verdade que Carnahan tenta abraçar mais ideias do que é capaz de alinhavar, como por exemplo o amigo imaginário (vivido por Ed Helms) que é curioso, mas está subaproveitado, mas o pior de tudo foi escolher a decepcionante Jessica Alba para o papel feminino de maior destaque (para variar ela está péssima em cena). Porém, Carnahan consegue manter começa devagar até chegar ao ritmo frenético que mantém da metade para o final com grande energia. Stretch é um filme bem humorado e encaixa-se perfeitamente no universo dos melhores filmes do diretor, pena que os produtores não confiaram na produção é a lançaram diretamente em DVD no Brasil e no exterior. Parece que imaginaram que o filme tinha força para figurar nas premiações de fim de ano, mas depois viram que o diretor queria apenas se divertir. Não deixa de ser mais um sintoma do pé frio de seu ator, que poderia, facilmente, ter figurado em alguns prêmios como melhor ator de comédia, já que apresenta sua versatilidade habitual com grande desenvoltura. 

Stretch (EUA/2014) de Joe Carnahan com Patrick Wilson, Ed Helms, James Badge Dale, Brooklyn Decker, Ray Liotta e Jessica Alba. ☻☻☻

sábado, 26 de setembro de 2015

PL►Y: Tem Alguém Aí?

Caine e Bill: olhar da infância sobre a solidão da velhice. 

Aos 82 anos Michael Caine não para de trabalhar. Desde que colocou a carreira nos eixos com A Voz de Uma Estrela/1998 e Regras da Vida/1999 (que lhe rendeu o segundo Oscar de sua carreira, sendo o primeiro por Hanna e Suas Irmãs/1986 de Woody Allen), Caine conseguiu afastar o fantasma que rondava sua carreira - que rendeu-lhe a pecha de ser um dos atores que faziam qualquer filme por dinheiro (ficou célebre aquela frase em que o filho lhe perguntava o motivo dele fazer tantos filmes ruins e o ator respondia "Para comprar sapatos novos para você!" e o filho disse: "Eu não preciso tanto assim de sapatos!"). Lá se vão quase vinte anos em que o ator tornou-se o mais produtivo de sua geração. Mesmo quando as premiações não dão muita atenção para os seus filmes, ele rende bem em filmes de pequeno porte como esse Is Anybody There? que conseguiu distribuição nas telas de meia dúzia de países. De fato é um filme modesto, discreto, mas tão bem feito que é impossível não ter simpatia por ele. O filme conta a história do menino  Edward (Bill Milner), que ainda tenta se acostumar com a nova rotina da casa em que mora com os pais, afinal, em busca de sustento, seus pais (Anne-Marie Duff e David Morrissey) passaram a alugar os quartos da casa (inclusive o de Edward) para idosos cujas famílias não podem tomar conta. Com a casa transformada em asilo, Edward passa a ver a morte sempre de perto e começa a desenvolver um interesse incomum pelo sobrenatural (ao ponto de sempre colocar gravadores perto dos idosos que estão mais perto de se despedir, ou deixar o aparelho no quarto já vazio, afinal, afinal, ele pode estar assombrado pela alma penada que insiste em ficar ali). Percebe-se que com tantos afazeres, os laços familiares acabam ficando mais enfraquecidos, deixando todos da família um tanto à deriva. Os dias de Edward começam a ficar mais alegres com a chegada do mágico aposentado Clarence (Michael Caine), que depois dos atritos iniciais, revela-se bastante atencioso, sendo o melhor candidato ao posto do amigo que o menino tanto precisava. A direção de John Crowley (que dirigiu dois dos melhores episódios da horrenda segunda temporada de True Detective da HBO) consegue ser precisa nessa mistura de humor e melancolia que surge da mistura do olhar do menino sobre a velhice e a morte - sem desafinar quando a fantasia surge sempre em choque com a realidade. Assim, momentos como as manifestações sobrenaturais no quarto ou o desastroso show de mágica no aniversário, sempre dão uma leveza inusitada para o filme. O elenco é bastante eficiente, deixando em destaque as atuações de Caine (amargo e carismático na pele de um homem que largou a fantasia para remoer as próprias mágoas) e do então menino Bill Milner que estava com doze anos no lançamento do filme!  Milner mostra-se bastante talentoso na pele de um personagem infantil cheio de camadas, onde apresenta uma atuação bastante espirituosa e segura. Vale dizer que Milner interpretou o Magneto adolescente em X-Men Primeira Classe (2011). Is Anybody There? é um desses filmes desconhecidos que pode se tornar uma bela surpresa para o espectador. 

Is Anybody There? (Reino Unido/2008) de John Crowley com Bill Milner, Michael Caine, Anne-Marie Duff, David Morrissey e Rosemary Harris. ☻☻☻

PL►Y: Mundos Opostos

Sturgess: no meio do caminho. 

Depois dos elogios com o intimista Nordeste (2005), o argentino Juan Solanas partiu para fazer filme em inglês com o ambicioso Mundos Opostos. O filme estrelado por Kirsten Dunst e Jim Sturgess foi aguardado com muita expectativa, mas quando chegou aos cinemas passou praticamente em branco. Um dos motivos para a decepção deve-se para a desigualdade entre os dois pólos do roteiro, que tinha tudo para ser uma ficção científica fascinante, cheia de camadas e comentários sociais, mas que revela-se apenas um romance entre classes de forma bastante trivial. Ainda assim, o filme vale ser visto por conta se seu apelo visual que realmente impressiona. A história se passa em uma realidade paralela,  Adam (Sturgess) e Eden (Dunst) vivem em mundos gêmeos de gravidades opostas, ou seja, quando alguém de um mundo olha para cima, enxerga o outro. O efeito é semelhante ao que vimos na antológica cena da cidade dobrada sobre si mesma em A Origem/2010 só que estendida por cem minutos. Esse cenário surrealista serve para uma metáfora, onde quem vive no mundo de baixo, não pode nunca viver no mundo de cima (e a gravidade oposta já é um impeditivo para isso). Eis que a descoberta de um novo produto de beleza criado por Adam demonstra seu potencial perante os do mundo de cima, mas ele não quer apenas ser reconhecido pelo seu trabalho, ele ainda quer reencontrar seu amor de infância, Eden. Essa fantasia amorosa fará com que Adam desobedeça algumas regras e consiga encontrar meios para enganar as autoridades (e a gravidade, o que rende alguns dos momentos mais interessantes do filme), poderia ser ótimo, mas o filme segue, ironicamente, um contraste que incomoda. Por um lado está o visual arrebatador, valorizado pela fotografia reluzente, os ângulos inovadores, os enquadramentos criativos e os efeitos especiais de encher os olhos, do outro está um romance burocrático, sem sal, que enfrenta o obstáculo de autoridades que nunca deixam claro o problema em deixar os dois mundos se misturarem. Será que na inevitável interação espelhada dos dois mundos, Adam e Eden são os únicos que tentaram driblar as regras por qualquer motivo que fosse?  Tive a sensação que a história do filme era outra e que inventaram o romance para atrair o público que acabou rejeitando esse lado da história. Ao chegar ao seu final óbvio e apressado, Mundos Opostos mostra que tinha o visual ideal e algumas ideias que poderiam fazer dele um cult instantâneo, mas soa como o desperdício de uma ideia genial. Tive a impressão que o roteiro de Solanas foi tão remexido que seus maiores trunfos acabaram perdendo força para um romance água com açúcar. Assim, de nada serve ter atores esforçados no elenco se o roteiro oferece tão pouco para o desenvolvimento dos personagens, que parecem esquemáticos demais para empolgarem. Resta ficar na lembrança as imagens impactantes junto a tudo que o filme poderia ser. 

Mundos Opostos (Upside Down/Canadá-França/2012) de Juan Solanas com Jim Sturgess, Kirsten Dunst, Timothy Spall e Nicholas Rose. ☻☻☻

NªTV: Hannibal - 3ª Temporada

O elenco: Réquiem para um canibal. 

Foi ao ar nesta quinta-feira, pelo canal AXN no Brasil,  o 13º episódio episódio da terceira temporada de Hannibal  -  ou o trigésimo nono e derradeiro capítulo de uma das séries mais perturbadoras que a TV já ousou produzir. Um labirinto psicológico cheio de personagens complexos calcados no universo que o escritor Thomas Harris criou para seu personagem mais famoso, o canibal Hannibal Lecter. Com seus litros de sangue, fotografia escura, requintes de crueldade e jogos repletos de manipulações, transtornos e morbidez, a série foi cancelada por seus baixos índices de audiência. É verdade que a série melhorou muito em sua segunda temporada, onde aprofundou o relacionamento obsessivo entre o psicanalista Hannibal Lecter (Mads Mikkelsen) e o comportamentalista Will Graham (Hugh Dancy). Foi na segunda temporada que a série entrou nos eixos, com a medida certa entre ousadias na profundidade de seus personagens que se sentiam cada vez mais atraídos pelo mal encarnado no personagem. Pena que na terceira temporada os cinco primeiros episódios tenham se arrastado demais sobre o tempo em que Hannibal viveu escondido na Itália - após promover um verdadeiro massacre com os outros personagens no final da temporada anterior. Depois das vertigens do episódio anterior, a repetição de climas contemplativos no início da temporada pesou na audiência. Imagino que nesse período que o criador da série para a TV, Bryan Fuller, sofreu ainda mais críticas de quem percebia que ele cozinhava demais a história do livro Dragão Vermelho em que se baseia. Foi neste livro de Thomas Harris que Hannibal apareceu pela primeira vez, ainda como coadjuvante, para somente depois ser aprofundado em O Silêncio dos Inocentes e cair no exagero ao ser promovido a protagonista em Hannibal e Hannibal Rising. Nota-se que durante boa parte da série, Fuller criou uma estrutura para a história que acontece antes da trama do livro. A história do Dragão Branco ficou restrita aos seis últimos episódios do programa, mas não comprometeu a série de ter identidade própria. Diante da mudança brusca que a terceira temporada sofreu a partir do sexto episódio, fica evidente que tentaram salvar o programa quando as ameaças de cancelamento tornaram-se mais concretas e a trama do serial killer conhecido como Fada do Dente nem dava sinais no desenvolvimento da série. 

Rutina e Richard: a química entre a Bela e a Fera. 

Antes de abordar a história do Dragão, Fuller ainda percebeu a necessidade de amarrar algumas pontas soltas da temporada anterior, como as estranhezas dos irmãos Verger (abordados em dois episódios concisos, mas eficientes). Sorte que quando dedicou-se ao livro de forma efetiva, o programa contou com as atuações inspiradas do britânico Richard Armitage e Rutina Wesley para dar conta da abordagem um tanto apressada dos personagens. Armitage soube criar um discípulo perfeito de Hannibal, conseguindo ser tão sedutor quanto assustador em suas nuances (mais e menos) sombrias, ao mesmo tempo, o programa se beneficiou muito em bancar um relacionamento inter-racial de química tão certeira que nem parecia uma dessas adaptações étnicas feitas para ser politicamente correta. Nos capítulos em que dividiam a cena, Armitage e Rutina Wesley (que viveu sua amada deficiente visual) garantiam uma energia em cena tão grande que rivalizava com a tensão entre Hannibal (que estava preso) e Will (que relutava em voltar a colaborar com o FBI). O casal garantiram a integridade do programa depois da guinada necessária após os sonolentos capítulos iniciais. Com o fim do programa, por mais que Fuller alardeasse que procurava uma nova casa para seu programa, torna-se óbvio que, ao ser baseado em Dragão Vermelho, o material do seu criador termina exatamente aqui - ainda que o final deixe uma conclusão em aberto sobre a tensão sexual crescente entre Will e Hannibal (seria uma metáfora a cena do abismo ou seria real? Diante de tudo que a série fez eu nem sei dizer, mas funcionou!). A partir daqui o que segue é a história de outro livro (O magistral O Silêncio dos Inocentes), ainda que elementos dos outros livros estivessem presentes na série, algo me diz que direitos autorais pesaram nessa hora. Resta dizer que enquanto foi ao ar, Hannibal cumpriu seu papel, ainda que a temporada conclusiva tenha demorado para engrenar, a segunda fase foi salutar para o programa e apenas ressaltou suas qualidades. Enquanto a série não encontra uma nova casa, resta-nos celebrar a coragem e o talento do dinamarquês Mads Mikkelsen que em momento algum pareceu intimidado em devorar o personagem imortalizado por Anthony Hopkins nos cinemas. Seu Hannibal tinha personalidade própria e era infinitamente mais sedutor perante mulheres e homens. Penso que a série possa ser retomada em breve e, com seu hábito de ler nas entrelinhas, possa buscar explicação para o fim de Will, que desaparece na saga ao final do livro que serviu de base para a série. Na nova temporada poderia aparecer Clarice (a personagem vivida por Jodie Foster no cinema) pela primeira vez? Ou serviria para desenvolver ainda mais as marcas deixadas na gélida Drª Bedelia Du Maurier (Gillian Anderson) ou em Frederick Chilton (Raúl Esparza)? O fato é que a partir daqui, resta ao espectador esperar alguém disposto a bancar as ousadias do programa e retomar a série que limpou o nome do canibal mais famoso de todos os tempos de mancharem seu nome no cinema. 

Hannibal e Will: abraçados para sempre?

Hannibal - Terceira Temporada (EUA/2015) criado por Brian Fuller com Mads Mikkelsen, Hugh Dancy, Richard Armitage, Rutina Wesley, Gillian Anderson, Lawrence Fishburne e Katharine Isabelle. ☻☻☻

terça-feira, 22 de setembro de 2015

§8^) Fac Simile: Mark Duplass

Mark: workaholic cheio de graça.
Mark David Duplass parecia apenas mais um expectador no Festival de Toronto, até que nosso repórter imaginário o reconheceu e conseguiu uma entrevista com o diretor, ator, produtor e roteirista. Mark é considerado um dos maiores workaholics de Hollywood dos últimos dez anos! Parecendo um sujeito comum de 38 anos, Mark concedeu essa entrevista que nunca aconteceu.  

§8^) Só em 2015 você está envolvido com dois filmes e três seriados (se somarmos todos os capítulos que participou são vinte e três episódios). Além disso está filmando os novos episódios para 2016 de Togetherness, sua série na HBO. além disso é casado com (atriz, produtora, diretora) Katie Aselton e cuidam de dois filhos! Como você consegue dar conta de tantos projetos e ainda ter uma vida familiar?

Mark: Na verdade eu tenho uns clones de fazem parte do trabalho para mim. Eu tentei ser onipresente, mas dá muito trabalho e costuma ser bastante cansativo. Mas produzir junto com Jay (Duplass, irmão de Mark) também ajuda a dar conta da vida profissional. Aí sobra um tempinho para fazer o dever de casa... 

§8^) Apesar de ser comum vê-lo em comédias você tem um currículo muito variado, com alguns romances e dramas. No entanto, seus dois filmes para 2015, Renascida do Inferno e Creep, investem no terror. Algum motivo para essa mudança de interesse?

Mark: Sim, eu acho filmes de terror muito divertidos! Achei interessante trabalhar com David (Gelb, diretor de Renascida do Inferno, uma história sobre um grupo de pessoas que desenvolve uma forma de ressuscitar os mortos) em seu primeiro longa de ficção foi bastante significativo. Já em Creep, a ideia era fazer uma comédia de humor negro sobre um rapaz que se mete numa grande encrenca, mas o clima foi ficando mais e mais sombrio e fiquei muito satisfeito com essa mudança de tom. O bom de fazer filmes independentes é que podemos deixar fluir a criatividade e ela às vezes nos leva para caminhos estranhos. 

§8^) Ainda assim, Creep parece muito com os seus outros filmes, é um tanto calmo, paciente e tenso... a diferença é que você cria um sujeito realmente assustador...

Mark: Eu meio que misturei todos os problemas dos meus personagens e extravasei naquele cara, foi como seu meu personagem de Togetherness tivesse numa vida paralela naquela cabana! KKKKKK você não faz ideia de como foi divertido!  E aquela cabeça de lobo ajudou muito, eu realmente me apeguei à ela. Levei até para casa depois das filmagens... mas minha esposa não sabe disso...

§8^) Sério? Bem... é... você já demonstrou que não tem medo de se arriscar, pode posar de nerd, galã, chamou a atenção num flerte com Joshua Leonard em Humpday (2009) e apareceu peladão em Togetherness, agora faz um doido...

Mark: Onde mais eu poderia aparecer sem roupa sem ter um corpo de modelo da Calvin Klein? além disso, ser ator tem algo de esquizofrênico que eu gosto muito... fazer esse tipo de coisa é a minha terapia. 

§8^) Estou começando a ficar com medo de você...

Mark: Ah, que isso... eu gosto de você! Com batatas você deve ser uma delícia... 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

PL►Y: Tammy

Melissa e Susan: para rir e esquecer. 

Antes que comecem a ler é bom esclarecer que não se trata de um filme sobre a filha da Gretchen! Trata-se de uma comédia estrelada pela comediante Melissa McCarthy. McCarthy tem uma indicação ao Oscar de coadjuvante por sua atuação no besteirol Missão: Madrinha de Casamento (2011). Muita gente pensava que a carreira da atriz seguiria um caminho mais diversificado depois das críticas positivas que recebeu, mas não é isso o que acontece. Melissa está se tornando especialista em fazer comédias grosseiras em que, na maioria dos casos, as indicadas ao maior prêmio do cinema americano correriam para bem longe. Embora suas atuações sejam cada vez mais repetitivas, há de se reconhecer a coragem da atriz em viver sempre a mulher gordinha divertida e, um tanto, insana. Tammy é um belo exemplo dos prós e contras da carreira de Melissa, o mais engraçado é que o filme é dirigido pelo esposo da estrela (Ben Falcone que interpreta o patrão da protagonista). O roteiro não faz muito sentido, trata-se de um road movie onde Tammy é demitida do trabalho numa numa lanchonete fast food e no mesmo dia em que é demitida, descobre que seu esposo (Nat Faxon) tem um caso com a vizinha (Toni Collette). Um tanto triste com os rumos de sua vida, ela parte numa viagem junto à avó (Susan Sarandon?!?), que é infinitamente mais esperta  e descolada que a neta. Segue então uma trama cheia de gracinhas para fazer a plateia rir a qualquer custo. Nem sempre as situações são tão engraçadas quanto pretendem, mas até que conseguem render algumas risadas. Entre um desastre pessoal e outro, descobrimos que Tammy não prima pelo amor próprio e tem algumas atitudes completamente sem noção. O filme tem várias participações especiais para manter o interesse da plateia (Kathy Bates, Sandra Oh, Dan Aykroyd e Mark Duplass numa química impressionante com Melissa) mas tropeça no ritmo desmiolado - mas por cenas como a do assalto à lanchonete ou o susto derradeiro que vovó provoca à beira da piscina - pode até valer a o programa. O filme faz o favor de nunca mergulhar na baixaria completa (o que acabou virando uma marca da comédia de Melissa), mas peca por não fazer nada muito diferente do que já se tornou a especialidade de sua estrela - o que já está começando a ficar cansativo. Com o custo baixo de produção, o filme tornou-se um sucesso nos EUA apesar das críticas mornas, mas no Brasil saiu direto em DVD. 

Tammy (EUA-2015) de Ben Falcone, com Melissa McCarthy, Susan Sarandon, Mark Duplass, Gary Cole, Alisson Janney, Nat Faxon e Toni Collette. ☻☻

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

FILMED+: Garota Sombria Caminha pela Noite

Vand: vampira antenada. 

Previsto para ser lançado em agosto aqui no Brasil, Garota Sombria Caminha pela Noite foi adiado por tempo indeterminado, mas alguns sortudos podem esbarrar com ele em algumas pré-estreias que de vez em quando aparecem sem muita divulgação. Tanto descaso é uma pena, já que o longa metragem de estreia da iraniana Ana Lily Amirpour é forte candidato a mais cult dos últimos anos. Aclamado em Sundance e indicado ao Independent Spirit, o filme conta a história de uma jovem vampira iraniana (Sheila Vand que dia desses a reencontrei em Argo/2012), que vive numa cidade quase fantasma chamada Bad City (muito parecido com a cidade de Detroit apresentada por Jim Jamursh no também vampiresco Amantes Eternos/2014). Entre seus habitantes existem traficantes, mendigos, prostitutas e viciados, o que só ressalta o tom decadente da cidade onde ela caminha à caça de suas refeições. Mas antes de conhecermos a protagonista, somos apresentados à Arash (Arash Marandi), um rapaz com pose de rebelde, mas de bom coração, cujo caminho irá cruzar com o dela após a moça mostrar o que é capaz de fazer com o traficante local. Contar mais estraga a surpresa de acompanhar um filme bem diferente do que nos acostumamos a ver. Lily Amirpour cria um filme repleto de atmosfera dark e temperado com muita cultura pop. A vampira aterroriza uma criança, anda de skate pela noite como se a burca fosse a capa do Batman, seu quarto é decorado com a capa de um álbum da Madonna e ela escuta a banda White Lies quando desfruta da cena mais sutilmente romântica do filme (e além disso cai se apaixona por Arash quando ele está fantasiado de Drácula). Mas não se engane, Amirpour faz um filme de terror em grande estilo, elegante em suas mordidas e momentos arrepiantes, mas ao mesmo tempo contemplativo e econômico como o cinema iraniano sempre demonstrou ser. O mais interessante  é que a cineasta mostra enxergar para fora da caixa, criando o primeiro filme de vampiro iraniano da história. Os mais afoitos irão lembrar que o filme foi rodado na Califórnia, mas toda a estética do filme é calcada no país natal de Lily, os atores tem origem iraniana e falam em persa durante todo o filme e a cultura do país perpassa toda a trama no olhar dos homens sobre as mulheres da história. Amirpour conta a trama sem pressa, explorando belos enquadramentos em preto e branco, sonoridades diversas e demonstra um ótimo trabalho com os atores, especialmente por parte de Sheila Vand, que consegue ser enigmática e assustadora na medida certa. O filme fica ainda melhor quando descobrimos que é a adaptação da HQ escrita pela própria diretora, a mesma que inspirou seu curta premiado no Festival de Cinema de Teerã. Embora a moça apresente várias fontes de inspiração em seu filme, existe uma unidade que surpreende pela originalidade em contar uma história sobre uma das criaturas mais clássicas do cinema.

Garota Sombria Caminha pela Noite (A Girl Walks Home Alone At Night/EUA-Irã/2014) de Ana Lily Amirpour com Sheila Vand, Arash Marandi, Mozhan Marnò, Marshall Manesh e  Dominic Rains. ☻☻☻☻☻

BREVE: Vozes

Bosco, Ryan e Whiskers: totalmente esquizofrênico.

Lançado em abril nos EUA, Vozes ainda aguarda um espaço nas salas brasileiras - mas no Chile já foi lançado até o DVD, acredito que em breve seu destino por aqui será o mesmo. Ainda que conte com a presença de Ryan Reynolds (num momento de limpar a carreira), o filme é um tanto bizarro demais para convencer os distribuidores nacionais de que pode conseguir algum sucesso nas salas. O filme acompanha Jerry (Reynolds), rapaz que sofre de graves problemas psiquiátricos e faz acompanhamentos constantes com a Drª Warren (Jackie Weaver). Porém, Jerry gasta a maior parte do tempo conversando com Bosco e Mr Whiskers, respectivamente seu cão e seu gato. Se o cão serve de bom conselheiro para o moço, o gato é o contrário, alimentando o comportamento estranho do dono, o tornando numa ameaça ambulante. As coisas complicam quando Jerry convida uma colega do trabalho para sair, a esnobe Fiona (Gemma Aterton), e por conta de um acidente passa a conviver com a cabeça falante dela em sua casa. Isso mesmo que você acabou de ler, uma cabeça falante (e ela não será a única durante a história). Vozes é um filme bizarro, flerta com o trash, a comédia de humor negro, com filme de serial killer e terror, conseguindo em alguns momentos ser realmente assustador (principalmente quando a personagem de Anna Kendrick percebe que o seu príncipe encantado é completamente pirado). O filme é a primeira produção americana dirigida por Marjane Satrapi (Persépolis/2007) e apesar de alguns tropeços ela tem algumas ideias bem sacadas, para não dizer... perturbadoras, o que só beneficia a proposta do filme. Ryan Reynolds não era a melhor escolha para o papel, mas consegue construir um sujeito muito estranho, a transição de seu olhar patético para ameaçador consegue ser arrepiante na maioria das vezes, isso além do fato dele fazer a voz do cão, do gato e de outros dois personagens, ressalta ainda mais como sua mente é fracturada e confusa, fato que também fica evidente no contraste de sua casa real e a imaginária. O que mais me incomodou no filme foram as mudanças bruscas da narrativa, mas, ainda assim, Vozes acerta na sensação de vermos o mundo pelos olhos de seu protagonista. É através dele que captamos as imagens e sons do mundo, numa visão distorcida de como deve agir. Talvez Marjane não tenha acertado no tom cômico do filme, mas ele confere um riso nervoso na plateia bastante semelhante ao de Jerry - que pode até parecer um bom rapaz, se você não perceber que alguns parafusos estão fora do lugar. Prova de que tudo no filme é uma grande e proposital sandice é a cena final, que flerta com um musical alto astral, totalmente esquizofrênico como seu protagonista com pinta de galã. 

Vozes (The Voices/EUA-Alemanha/2014) de Marjane Satrapi com Ryan Reynolds, Gemma Aterton, Anna Kendrick e Jackie Weaver. ☻☻☻

PL►Y: A Gangue dos Jotas

Roche, Satrapi e Ripa: brincando de fazer um filme.  

Lembro quando Marjane Satrapi fez a versão para as telas de sua HQ Persépolis virei seu fã imediatamente. Após ver o filme, comprei a HQ e li outros trabalhos da iraniana radicada na França. Lembro que na época ela era assediada pela mídia e uma revista feminina editada no Brasil conseguiu uma entrevista. Marjane deve ter ficado tão decepcionada com as perguntas quanto eu (perguntavam de sua vida amorosa, se ela usava biquíni na praia... entre outras pérolas de sabedoria), no entanto, a moça mereceu ainda mais minha admiração pela forma como desviava das idiotices que eram direcionadas a ela. Notava-se que Marjane Satrapi não era uma mulherzinha dessas que aparecem preocupadas somente com a aparência e o sexo oposto, tão pouco posava de politizada intelectual para atrair a tribo mais cabeça. Marjane é Marjane, ponto. Vendo seu terceiro longa metragem essa frase ecoava na minha cabeça, já que ela juntou um grupo de amigos, pegou uma câmera na mão com um fiapo de roteiro e criou A Gangue dos Jotas, um filme tão despojado que pode provocar certa insatisfação. Jotas é o primeiro filme que Marjane dirige sozinha (os anteriores eram co-dirigidos por Vincent Paronnaud) e ela opta por fazer um road movie a partir das confusões geradas da troca de malas num aeroporto, onde uma mulher (Satrapi sempre vestida como se estivesse disfarçada) entra em contato com dois homens que levaram sua bagagem por engano. Assim ela conhece Nils (Mattias Ripa, esposo da diretora) e Didier (Stéphane Roche, que também é o montador do filme), dois atletas amadores de peteca badminton  e que durante um almoço com a misteriosa mulher acabam se metendo em encrenca, afinal, ela é perseguida por uma espécie de máfia de sósias cujos nomes começam com a letra jota. Ela diz que por terem sido vistos com ela, provavelmente eles serão perseguidos também, já que ela é o alvo deles desde que mataram sua irmã de forma cruel. Assim, os três se unem, deixando o serviço sujo para os dois homens que começam a eliminar Juan, José, Joaquin, Jesus... (todos vividos pelo ator Ali Mafhakeri) em cenas que parecem improvisadas. O resultado é um tanto irregular, mas pode gerar risadas com o seu tom de humor negro e alguns detalhes que chamam a atenção no desenrolar da história (os tais mafiosos sempre parecem inofensivos e desarmados e a mulher sempre hesita dizer sua origem). A Gangue dos Jotas é uma brincadeira entre amigos e a cena final (uma festa onde a amiga Maria de Medeiros aparece) deixa essa a impressão ainda mais forte. Parece que depois dos holofotes de Persépolis (2007) e o flerte com a fantasia em Frango com Ameixas (2011), Marjane quis relaxar criando um filme mais despretensioso que melhora muito quando flerta com o absurdo, mas, ainda assim, é bem menos interessante que suas obras anteriores. 

A Gangue dos Jotas (Le Bande des Jotas/França-Bélgica-2012) de Marjane Satrapi com Marjani Satrapi, Stéphane Roche, Mattias Ripa, Maria de Medeiros e Ali Mafhakeri. ☻☻

terça-feira, 15 de setembro de 2015

PL►Y: No Olho do Tornado

O elenco: o roteiro é a maior catástrofe. 

Em 1996, o diretor Jan de Bont lançou uma aventura com personagens que perseguiam tornados para estudá-los e evitar que maiores catástrofes acontecessem. O elenco era liderado por Helen Hunt (no auge por seu trabalho na série Mad About You) e tendo como coadjuvantes rostos conhecidos como Phillip Seymour Hoffman e Bill Paxton, o que ajudava a manter a credibilidade durante o filme mesmo quando vacas eram vistas voando na tela (de acordo com a cartilha dos filmes catástrofe, o elenco precisa ter rostos conhecidos para causar identificação imediata da plateia para não gastar tempo apresentando os personagens - afinal, os fãs do gênero querem ver o mundo pegar fogo o mais rápido possível). Com duas indicações ao Oscar (Efeitos Especiais e Melhor Som) Twister se tornou um dos maiores sucessos daquele verão americano, ao lado do filme que inaugurou a franquia Missão Impossível e o, também catastrófico, Independence Day (do especialista no gênero Roland Emmerich). Demorou para lembrarem do apelo que os tornados podem exercer sobre o público e lançaram no ano passado No Olho do Tornado, versão piorada do longa de 1996. Apesar dos efeitos serem eficientes, o filme peca em alguns excessos típicos do gênero: os dramas são sempre exagerados (e a ausência de rostos conhecidos as tornam tão necessárias quanto chatas), atores desamparados em cena, discursos de despedida são extensos demais... e, para completar, ainda padece dessa mania tosca de Hollywood criar cenas trêmulas em primeira pessoa fingindo ser documental (o mais engraçado é que no filme todo mundo tem uma câmera, mas a montagem final quase não aproveitou esse artifício "moderninho" - o que não deixa de ser um bom sinal). Já escrevi que antes aqui no blog que esse recurso, na maioria das vezes, serve para disfarçar a falta de criatividade na elaboração das cenas e trato com os diálogos, o resultado é propositalmente mais tosco - porque consideram que "a vida é assim". Perde a estética e o público. Sempre acho engraçado como inventam todas as desculpas possíveis e imaginárias para justificar alguém segurando uma câmera nesse tipo de filme (festa de formatura, trabalho para escola, câmera nos corredores, maníacos youtubers...) quando bastaria somente o do documentarista Pete (Matt Walsh da série Veep). Depois do grupo de estudantes vítimas de um tornado, o filme se perde com desentendimentos de Pete com sua equipe e do vice-diretor da escola, Gary, com os filhos. Gary é interpretado por Richard Armitage, que é um bom ator, mas tem um papel que lhe pede apenas que use seu porte de herói bem vestido. Os efeitos especiais são eficientes, mas o filme opta por nem sempre mostrar o que está acontecendo sob a desculpa de criar tensão com uma câmera "amadora"que insiste em falhar justo na hora que mais precisamos dela. O resultado é quase uma sucessão de trapalhadas, até que a coisa fica séria e todos parecem que serão varridos do mapa. Os diálogos são péssimos, os personagens mal delineados e depois do arraso final, as últimas cenas são um tanto patéticas com personagens que não deram liga durante toda a projeção (além de ter mais do que um furo, uma cratera ao revelar quem sobreviveu de forma inacreditável ao final). Por tantos tropeços, o filme nem alcançou o sucesso desejado, se fosse um pouco mais bem tratado, poderia ter repetido o sucesso do filme estrelado por Helen Hunt e, talvez, até gerar uma franquia nos tempos atuais. 

No Olho do Tornado (Into the Storm/EUA-2014) de Steven Quale, com Richard Armitage, Matt Walsh, Sarah Wayne Callies, Max Deacon, Nathan Cress e Jeremy Sumpter.

PL►Y: Os Boxtrolls

Ovo e seus amigos: ele nem imagina que é um menino. 

Acho engraçado como as animações voltadas para as crianças andam flertando cada vez mais com tramas de terror e suspense, o que devo dizer que não é uma tarefa fácil. Parte disso se deve ao estúdio Laika, responsável pelos sombrios Coraline (2009) e Paranorman (2012), ambos indicados ao Oscar, ainda que com pouco sucesso nas bilheterias. No entanto, com o lançamento de Boxtrolls o estúdio obteve mais êxito, talvez por sua sua história ser mais divertida, repleta de boas intenções e protagonizada por monstrinhos simpáticos. Indicado ao Oscar de melhor animação, o filme conta a história de um menino criado por Trolls, ou melhor, Boxtrolls, já que eles se vestem com caixas (box em inglês) e recebem o nome do que está na embalagem (assim, o menino é chamado de Ovo pelos seus cuidadores). Os Boxtrolls vivem no subsolo, gostam de inventar coisas e são pacíficos, ainda que tenham a má fama de serem monstros cruéis (tudo por conta da acusação de terem sequestrado um bebê e assassinado o pai da criança). A partir daí, o horroroso Arquibaldo Surrupião diz ser capaz de eliminar todos os monstrinhos para receber um famigerado chapéu branco, que confere nobreza a quem o usa (nem que seja para apenas comer queijos junto com a elite da cidade - vale ressaltar que Surrupião é alérgico a queijo). Sendo assim, Ovo passa a ver seus amigos sendo caçados até que sobrem poucos para contar história. Disposto a mudar essa realidade, ele irá enfrentar Arquibaldo e mostrar quem é o verdadeiro vilão da história. A história simples é contada com segredos sendo revelados aos poucos, especialmente a descoberta de Ovo de que ele não é um boxtroll como imagina (a cena em que ele justifica as diferenças com seus amigos monstrinhos é de rolar de rir). Além do tom de aventura, o filme dá conta de uma história de disputa de classes que garante mais complexidade para a história. Além do roteiro bem cuidado, Boxtrolls mantem a marca do estúdio em realizar animações em stop-motion - um trabalhoso processo artesanal realizado com bonecos manipulados quadro a quadro durante as filmagens, o que só ressalta o valor artístico do longa. Desta vez, o trabalho dos envolvidos mostrou-se ainda mais ambicioso, não apenas pelo texto alegórico, mas pelos personagens repletos de detalhes a serem trabalhados diante das câmeras. O resultado é sofisticado e divertido, garantindo o interesse de adultos e crianças que poderão fazer leituras diferenciadas de uma mesma história criada a partir dos textos de Adam Snow em A Gente é Monstro! (vale a pena procurar as obras do autor). 

Os Boxtrolls (EUA/) de Graham Annable e Anthony Stacchi, com vozes de Jared Harris, Ben Kinsley e Nick Frost. ☻☻☻☻

domingo, 13 de setembro de 2015

GANHADORES FESTIVAL DE VENEZA 2015

Anomalisa: Rumo ao Oscar?

Ontem chegou ao fim o Festival de Cinema mais antigo do mundo, com 72 anos o Festival de Veneza anunciou ontem os seus ganhadores perante o júri presidido pelo mexicano Alfonso Cuarón. Se ano passado Veneza dava sinais de que Birdman faria bonito no Oscar, esse ano apesar de Eddie Redmayne ter chamado a atenção de todos com The Danish Girl, a maioria dos prêmios principais passaram longe do cinema de língua inglesa - mas o Festival apontou para ficarmos de olho em Anomalisa de Charlie Kauffman, Beasts of no Nation estrelado por Idris Elba, o neozelandês Free in Deed e o longa de estreia do ator Brady Corbett na direção: "The Childhood of a Leader". O grande ganhador foi o venezuelado Desde Allá onde um senhor homossexual sai à noite procurando rapazes para lhe fazer companhia. O Brasil se beneficiou da tendência latina e viu seu Boi Neón ser premiado por participar de uma mostra paralela. A seguir os ganhadores:

LEÃO DE OURO - MELHOR FILME
Desde Allá

PRÊMIO DO JURI
Anomalisa

MELHOR DIRETOR
Pablo Trapero (El Clan)

MELHOR ATOR 
Fabrice Luchini (L'Hermine)

MELHOR ATRIZ
Valeria Golino (Per Amor Vostro)

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI
Abluka

PRÊMIO REVELAÇÃO
Abraham Attah (Beasts of no Nation)

MELHOR FILME - MOSTRA ORIZZONTI
Free in Deed

MELHOR DIRETOR - MOSTRA ORIZZONTI
The Childhood of a Leader

MELHOR ATOR - MOSTRA ORIZZONTI
Dominique Lebornein (Tempête)

PRÊMIO DO JÚRI - MOSTRA ORIZZONTI
Boi Neón

MELHOR CURTA METRAGEM - MOSTRA ORIZZONTI
Belladona

CICLO VERDE E AMARELO / 10+ FILMES BRASILEIROS QUE VOCÊ AINDA NÃO VIU

Nos últimos sete dias lancei a proposta de comentar somente filmes na nacionais aqui no blog. Apesar disso, foi uma semana bastante diversificada entre os filmes que assisti e comentei. A iniciativa também serviu para que eu finalmente assistisse alguns longas brasileiros que eu queria ver há tempos e sempre deixava para depois. O resultado você pôde acompanhar por aqui desde o dia da independência (07/09), feriado que quase batizou o ciclo proposto para esse ano. Entre dramas, horrores e romances, foram nove filmes comentados ao longa da semana. Para terminar preparei essa lista com dez dicas para você conhecer outros dez filmes interessantes que já foram comentados aqui no blog. Por motivos de organização, não inclui documentários - pois pretendo listá-los em outro momento (ou ciclo?). Talvez você já tenha assistido alguns dos mencionados abaixo, mas não custa lembrar que eles existem aos cinéfilos que podem vê-los para primeira vez. A lista está em ordem alfabética e com algumas palavras-chave (escolhidas por mim) para cada produção: 

Amélia (1999) de Ana Carolina 
(Roça. Sarah Bernhardt x Juca Pirama)

Apenas o Fim (2009) de Matheus Souza
(Faculdade. Cultura Pop. Separação) 

Durval Discos (2002) de Anna Muylaert
(MPB. Lado A. Lado B)

Hoje eu Quero Voltar Sozinho (2014) de Daniel Ribeiro
(Cegueira. Adolescência. Romance)

Natimorto (2010) de Paulo Machline 
(Verde. Isolamento. Vermelho)

O Lobo Atrás da Porta (2014) de Fernando Coimbra
(Depoimentos. Adultério. Penha)

Os Matadores (1997) de Beto Brant
(Fronteira. Serviço. Quem?)

O Som ao Redor (2013) de Kleber Mendonça Filho 
(Pesadelo. Urbano. Acerto)

Reflexões de um Liquidificador (2010) de André Klotzel
(Eletrodoméstico. Dona de Casa. Investigação)

Trabalhar Cansa (2011) de Juliana Rojas e Marcos Dutra
(Desemprego. Patroa. Monstro)

CICLO VERDE E AMARELO: A História da Eternidade

Iandhir e Débora: poesia na aridez do sertão. 

Ganhador de vários prêmios em festivais brasileiros, o pernambucano A História da Eternidade era um dos fortes candidatos a conseguir a vaga para representar o Brasil no Oscar do ano que vem (A Que Horas Ela Volta de Anna Muylaert foi o escolhido para a disputa). O primeiro longa de ficção de Camilo Cavalcante chama a atenção pela forma como insere poesia na aridez do sertão - o que o torna bem distante do estilo de Claúdio Assis e sua visão sórdida sobre a região nordeste. Ainda que Camilo invista em histórias ásperas de se assistir, ele busca um equilíbrio dosado na esperança de seus protagonistas. Suas histórias se passam num vilarejo com poucos habitantes e alguns acontecimentos que prometem mudar suas vidas pela via, nem sempre segura, do desejo. Assim, conhecemos João (Irandhir Santos), um ator que se contenta em fazer apresentações nas ruas, embora seu trabalho seja incompreendido pela maioria dos habitantes  - incluindo seu irmão Nataniel (Claudio Jaborandy), que matuto que só, não consegue diferenciar o trabalho do irmão da função de um palhaço. João vive próximo ao irmão e dos cinco sobrinhos, quatro rapazes (que não recebem muito destaque na história) e Alfonsina (Débora Ingrid), a única mulher do clã que precisa dar conta dos afazeres da casa enquanto sonha em ver o mar. Alfonsina é a fã número um de seu tio e, percebe nele, uma forma de encontrar um pouco de alento na secura que existe por ali. O filme acompanha ainda duas outras personagens femininas às voltas com a chegada de homens em suas vidas. Uma é Querência (Marcélia Cartaxo), que aparece devastada depois que a morte carregou sua única companhia. Endurecida pela vida, Querência começa a receber atenção do sanfoneiro cego (Leonardo França) que vive na cidade. No início ela fica desconfiada, mas depois começa a sentir-se envaidecida por ser desejada novamente. A outra ponta da narrativa é dedicada à Dona das Dores (Zezita Matos) uma idosa, viúva que recebe a visita do neto Geraldo (Maxwell Nascimento), que resolve visitá-la depois de anos vivendo em São Paulo. Embora ela estranhe o estilo do moço (brincos, tatuagem, revistas impróprias...) é notável como ela canaliza todo o seu afeto para o rapaz. O filme é contado dividido em três partes de nomes um tanto irônicos (Pé de galinha; Pé de Bode; Pé de Urubu), que tem mais relação com as partes que nomeias do que você imagina. No entanto, a história das três personagens femininas são contadas quase de forma independente, de forma lenta e contemplativa, até que seja interrompida por algumas cenas viscerais na vida de cada uma.  Os mais cínicos irão achar um tanto ingênua a forma simples como Camilo Cavalcante aborda os dramas de seus personagens, mas ainda assim, devem concordar, que existem alguns momentos memoráveis, seja com João cantando Secos e Molhados em meio ao sol escaldante ou com Alfonsina fechando os olhos para sentir conforto no som do mar na última bela cena do filme. Composto por personagens que tentam sobreviver a um deserto não apenas geográfico, mas, também, emocional, A História da Eternidade consegue ser bastante sensível em seu desenvolvimento.  

A História da Eternidade (Brasil/2014) de Camilo Cavalcante com Débora Ingrid, Irandhir Santos, Marcélia Cartaxo, Zezita Matos, Maxwell Nascimento, Claudio Jaborandy e Leonardo França. ☻☻☻

CICLO VERDE E AMARELO: Quando Eu Era Vivo

Descartes: Júnior macabro. 

Quem conhece sabe que o cineasta Marco Dutra sempre teve uma queda pelo terror - e ao lado de Juliana Rojas assinou o ótimo Trabalhar Cansa (2011) com tintas de horror social - mas em Quando Eu Era Vivo ele investe num terror psicológico mais clássico, mas nem por isso menos interessante. Não lembro de ter sentido tantos calafrios há muito tempo! O grande motivo para isso é que acompanhamos os estranhos fatos que afetam a mente de Júnior (um Marat Descartes cabeludo) após o divórcio e a chegada à casa do pai (Antônio Fagundes). Calado e introspectivo podemos até compreender a sua melancolia, especialmente quando descobre que seu antigo quarto foi alugado para Bruna, uma jovem estudante de música (vivida pela cantora Sandy). Trata-se de uma convivência estranha entre os três personagens, já que a casa traz muitas lembranças ao hóspede, mas que nunca são ditas para o anfitrião. Seu irmão e sua mãe parecem estar apenas em sua memória. No entanto, desde a primeira cena imaginamos o motivo disso, já que havia algo de sinistro nos gostos da família. Dormindo no sofá e com a impressão cada vez maior de que está incomodando, Júnior resolve se mudar para o quartinho que está cheio de entulho, ou melhor, cheio das coisas velhas que fazem seu pai lembrar de uma vida que ele pretendia manter esquecida e trancada no passado. Mas o filho abre aquele quarto e espalha os objetos de louça, quadros e outros objetos de sua mãe novamente pela casa. O lugar que era claro e límpido, passa a se tornar mais escuro e entulhado de coisas. O problema maior é que Júnior começa a lembrar da ligação de sua mãe com práticas de ocultismo, que somado ao seu comportamento cada vez mais estranho - e a menção ao destino de seu irmão Pedro (Kiko Bertholini em uma única e arrepiante cena) - torna tudo ainda mais sinistro. Marco Dutra realiza aqui uma espécie de inventário de coisas mórbidas (cabeças de cera, rabiscos macabros, mensagens cifradas, vitrolas que tocam ao contrário, bibelôs esquisitos...) que constroem a história daquela família que tenta ser normal depois de um período conturbado. Ocultismo não costuma ser uma temática abordada no cinema brasileiro, ainda mais num cenário tão urbano como São Paulo, mas Dutra faz um trabalho que merece atenção por sua grande atenção aos detalhes, prova disso é a escalação de Sandy, a famosa boa moça da música pop brasileira. A presença de Sandy serve não apenas para comprovar o talento do diretor (que lhe concede uma boa interpretação), como também compõe alguns dos momentos mais sinistros do filme. Os duetos da cantora com Júnior (Sandy e Júnior, sacaram?), na sinistra canção que perpassa os mistérios do filme, são realmente de arrepiar, especialmente pela sobreposição de seu timbre angelical com a voz cavernosa de Marat Descartes (que parece ter se inspirado em Nick Cave). Baseado no livro "A Arte de Produzir Efeito sem Causa" do cult Lourenço Mutarelli,  Quando Eu Era Vivo provoca arrepios, mesmo quando o desfecho tange para o final (feliz?) de um drama familiar. 

Quando eu Era Vivo (Brasil/2014) de Marco Dutra com Marat Descartes, Antonio Fagundes, Sandy Leah e Gilda Nomacce. ☻☻☻

sábado, 12 de setembro de 2015

CICLO VERDE E AMARELO: Tatuagem

Jesuíta e Irandhir: sem tabus ou moralismo.  

Tatuagem é um tipo de filme raro, não apenas nos lançamentos brasileiros, mas no mundo mesmo. Tem uma alma incendiária que pode causar incômodo na maioria dos espectadores que estão acostumados a filmes comportados, ou que lida com a afetividade entre dois homens, política ou com a própria arte de forma mais pudica. Existe muita nudez em Tatuagem, mas também uma inventividade que nos faz até esquecer que o roteiro poderia ser mais enxuto e sua duração um pouco mais curta. Independente disso, o diretor Hilton Lacerda cumpre sua proposta com bastante coragem num cenário em que o cinema ousa cada vez menos. A trama é ambientada em Recife no ano de 1978, em plena ditadura militar, seguimos a trajetória da trupe teatral Chão de Estrelas liderada por Clécio Wanderley (o sempre competente Irandhir Santos). Os espetáculos do grupo são cheio de deboche sobre o sistema político, o moralismo e as convenções. As apresentações são de uma criatividade de encher os olhos com o uso de materiais dos mais variados, o que torna o visual do filme ainda mais colorido e vibrante (auxiliado pela trilha sonora de primeiríssima qualidade). Paralelo a esse mundo, acompanhamos a trajetória do jovem militar Fininha (o então novato Jesuíta Barbosa), que namora a irmã de um dos atores da trupe, o elétrico Paulete (o ótimo Rodrigo Garcia). Eis que o caminho de Fininha e Clécio se cruzam quase que por acaso e começa um romance entre os dois personagens -  cujo o desfecho já podemos imaginar qual será. O filme de estreia de Lacerda se inspira em várias histórias de trupes teatrais que realizavam espetáculos anárquicos contra o sistema, tendo a maior inspiração na trajetória do argentino Túlio Carella, que viveu no Recife nos anos 1960 e em meados da década seguinte fundou o grupo Vivencial, cujo trabalho era bastante semelhante ao que aparece no filme. Para além dessa parte verídica, o filme investe numa abordagem bastante diferente das relações de gênero (afinal, Clécio tem um filho e a mãe dele não vê problema algum em Clécio se envolver com outros homens - o maior problema é que Fininha é militar) e da postura artística na época da ditadura. Pela naturalidade com que filma o exagero, a nudez e duas cenas de sexo entre os protagonistas, Tatuagem não é para todos os gostos (e nem quer ser), mas quem embarcar na atmosfera do filme verá uma obra com atuações marcantes e grande plasticidade visual. 

Tatuagem (Brasil/2013) de Hilton Lacerda com Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa e Rodrigo Carcia. ☻☻☻

CICLO VERDE E AMARELO: Estação Liberdade

Cauê: conflito de identidade. 

Lançado no ano passado, o filme de Caíto Ortiz teve que lidar com críticas severas quanto à estética de seu filme, que muitas vezes, chama mais atenção do que a história em si. No entanto, eu considerei bastante interessante o rigor técnico do diretor ao lidar com uma história tão intimista. Acho que conteúdo e forma ajudam na construção de um universo bastante particular para a trama -  ora emulando uma atmosfera David Lynch ou os cortes secos de Darren Aronofsky no início de carreira. Quem resistir aos primeiros minutos (quase experimentais) poderá ficar hipnotizado com a trajetória do nissei Mário Kubo (Cauê Ito), um morador de São Paulo do qual sabe-se muito pouco. Apenas que trabalha com pedras preciosas e é casado com uma mulher que ainda não se acostumou com seu estilo reservado. Entre dias de trabalho, viagens de metrô e tensão domiciliar mostradas em uma montagem descontínua, a vida de Mário muda quando ele recebe uma carta escrita em japonês (a qual não consegue ler) com uma foto que ele parece não identificar de quem é. A partir daí o personagem começa a pensar sobre a sua rotina e um tanto sobre sua própria identidade. Ele acaba buscando respostas no bairro Liberdade, conhecido bairro turístico de São Paulo com seus balões de luz orientais e sua população de descendentes japoneses. Embora critiquem o filme pela forma fragmentada como a história é apresentada, percebi um sentido pleno em tudo o que é mostrado, caminhando de forma bastante coerente para os significados da foto e da tal carta recebida. Caíto Ortiz filma a Liberdade como se fosse o Japão de outra dimensão, com seus moradores falando japonês (ou português com sotaque carregado), com tipos bastante brasileiros vestidos como orientais, com karaokês onde pessoas cantam em japonês para pouco depois apresentarem uma canção de Roberto Carlos, tudo muito distante do que vemos na primeira parte do filme. Explorando ao máximo os traços de Cauê Ito (que parece esculpido com laser) o filme revela como os dias naquele bairro o aproxima de referências que até então estavam escondidas em sua própria história - ainda que tudo seja uma realidade distorcida do Japão. Com poucos diálogos e alguns toques de humor inteligentes, Estação Liberdade é um filme muito diferente do que estamos acostumados a ver. Possui alguns excessos estilísticos, mas consegue manter sua narrativa dentro de uma atmosfera original bastante particular na cinematografia brasileiro. O resultado pode não agradar a quem procura entretenimento fácil, mas quem conseguir desvendar o labirinto imagético criado por Ortiz poderá ter uma grata surpresa ao final do desafio proposto ao protagonista.  

Estação Liberdade (Brasil/2014) de Caíto Ortiz com Cauê Ito, Fabíula Nascimento, Kentaro Inoue e Carolina Sudati. ☻☻☻☻

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

CICLO VERDE E AMARELO: Entre Vales

Ângelo: do luxo ao lixo. 

O cineasta Phillippe Barcinski é responsável por um dos filmes mais interessantes que assisti nos últimos anos, trata-se de Não Por Acaso (2007), filme que mostra a essência urbana de São Paulo sob um prisma quase metafísico - sem ser chato ou pesado por conta disso. Entre Vales, seu filme seguinte demorou tempo demais para chegar às salas de cinema, tornou-se famoso no circuito de festivais, mas quando lançado, dividiu a opinião de público e crítica sobre a história calcada nas duas fases da vida de um homem. Vicente (Ângelo Antônio) é um economista bem empregado, que atua há anos na construção de aterros sanitários. Casado com uma dentista, com quem tem um filho,  a vida do personagem é bastante confortável. No entanto, o filme mescla essa vida comum com cenas onde Vicente vasculha um lixão. O que teria acontecido do conforto de sua vida domiciliar e profissional para ele mudar totalmente de vida? Isso é o que faz o espectador acompanhar o filme, mas quando chega ao fim, deixa a sensação de que faltou algo para ligar as duas partes. É verdade que o filme apresenta duas grandes perdas na vida de Vicente e que parecem determinantes na mudança que o personagem atravessa, mas ainda assim, elas são mostradas de forma tão breve em comparação aos vários minutos que se repetem com o protagonista no meio do lixo, que tive a impressão que todo o drama do personagem foi mal construído. Outro exemplo dessa economia da abordagem de aspectos fundamentais na vida de Vicente é o relacionamento com a esposa, que praticamente não é mostrado até o momento em que dão uma notícia devastadora para o menino que não entende muito bem o que está acontecendo (e eu me senti como ele), mas mal um assunto é desenvolvido, outro fato crucial acontece subitamente. Entendo que Barcinski não queria ser apelativo ou melodramático, preferindo mostrar Vicente revirando toneladas de lixo a maior parte do tempo, mas não sei se a coisa saiu como o pensado. O resultado é um filme frio e distante, que investe mais no apelo dramático do aterro do que na dissolução do protagonista, afinal, da forma como é mostrada (sendo quase acidental) tudo é apressado e sucinto demais para que Entre Vales se tornasse o belo filme que almeja ser. Da forma como a história é apresentada, tudo parece um tanto inverossímil demais. De belo, o filme tem somente a fotografia cuidadosa de Walter Carvalho (que torna aquele monte de entulho quase numa pintura), mas essa glamourização era mesmo a intenção do cineasta?

Entre Vales (Brasil/2012) de Phillippe Barcisnki com Ângelo Antonio, Fabiana Weneck, Inês Peixoto e Daniel Hendler. ☻☻

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

CICLO VERDE E AMARELO: Gata Velha Ainda Mia


Regina e Bárbara: deliciosamente esquisito. 

Regina Duarte é uma das atrizes mais conhecidas do Brasil, principalmente por seus trabalhos na televisão. No entanto, o público de acostumou a vê-la dentro de um determinado padrão de personagens, todos bem distantes do que ela encarna em Gata Velha Ainda Mia, longa de estreia do ator e dramaturgo Rafael Primot, integrante do Grupo Tapa desde 2001. Além de render à Regina um papel bastante diferente do que estamos habituados a vê-la, o filme mostra-se bastante engenhoso na construção de sua narrativa cheia de camadas e possibilidades, parecendo um parente de dois filmes brasileiros dramáticos que flertam com o horror (e dos quais eu gosto muito): Reflexões de Um Liquidificador/2010 e Trabalhar Cansa/2012. No filme de Primot a renomada atriz vive a escritora Gloria Polk, um ícone da literatura feminista, mas que não lança um único livro há dezessete anos. Prestes a resgatar sua personagem mais famosa em uma novo lançamento, Gloria aceita conceder uma entrevista à uma jornalista, Carolina (Bárbara Paz), que vê na oportunidade a chance de ser promovida. Porém, o que poderia ser uma entrevista trivial começa a mostrar-se um tanto complicada, já que Glória enfrenta uma crise para escrever o final de sua nova obra e surge Carol para realizar a entrevista. Gloria parece um tanto fora do eixo, alternando simpatia e mau humor nos primeiros minutos do encontro entre as duas. Esse é o ponto de partida para a tensão que se instaura entre as duas, já que a escritora não se contenta em dizer o que as leitoras e a jornalista gostariam de ouvir. Aos poucos a admiração de Carol torna-se estranhamento e as palavras de Carol se tornam mais ásperas, revelando uma pessoa difícil e amarga, ainda que repleta de tiradas certeiramente cortantes. Gloria parece de mal com o que as mulheres da geração seguinte fizeram com os ideais feministas  em preocupações com a aparência, hidratantes e casamentos confortáveis - enquanto Gloria teve que fazer quentinhas para fora e preparar banquetes exóticos para chefes de Estado para conseguir viver. Na pele da escritora, Regina Duarte está magistral descascando as várias camadas de sua personagem, indo da antipatia a um gestual mais sedutor em poucos segundos, revelando uma hostilidade cujos motivos são revelados aos poucos. Primot consegue conduzir a dinâmica entre as duas personagens de forma hipnótica, envolvendo o expectador nas várias nuances da entrevistada. Se o espectador ficar atento, perceberá os cortes que mudam a relação entre as duas e revelam um pouco do que se passa em cena - mesmo quando o filme se arrisca descambando para a crueldade trash envolta em segredos revelados em maquiagem pesada e papel laminado (mudando até a elegância apresentada por Carol de forma brusca). Com muitos planos fechados, trilha sonora densa, cenografia bem cuidada e atmosfera claustrofóbica, Gata Velha Ainda Mia surpreende pela desenvoltura como abraça a estranheza e revela as possibilidades de uma ideia na mente de um escritor (ou seria: nas entranhas sombrias de uma escritora?) - e com a ajuda de duas atrizes competentes o programa fica ainda mais interessante.  

Gata Velha Ainda Mia (Brasil/2014) de Rafael Primot com Regina Duarte, Rafael Primot e Gilda Nomacce. ☻☻☻☻