segunda-feira, 25 de setembro de 2017

.Doc: David Lynch - A Vida de Um Artista

Lynch: enfrentando os temores do passado. 

O primeiro filme que vi de David Lynch foi Coração Selvagem (1990) e tive a impressão de que não entendia nada do que estava acontecendo, mas não conseguia parar de assistir. A partir dali percebi que Lynch era um sujeito diferente. Infelizmente ele andava sumido até aparecem em Cannes neste ano para divulgar a terceira temporada da série Twin Peaks depois de um hiato de vinte e seis anos sem episódios. Lynch foi tão aplaudido quando exibiu os dois primeiros episódios da série que dava gosto de ver o seu sorriso. Desde o viajandão Império dos Sonhos (2006) que ele não lança um filme, no entanto, não parou de trabalhar. Dirigiu vídeos, curtas, clipes (para Moby, Interpol, Nine Inch Nails...), produziu algumas músicas e dedicou-se ainda mais às artes plásticas. Este documentário de Jon Nguyen destaca o envolvimento do artista com esta sua carreira paralela, ressaltando este seu gosto desde a infância quando a mãe deixava que ele desenhasse o que bem entendesse ao invés de pintar livros de gravuras. Se por um lado os fãs podem sentir falta de maiores comentários sobre seus filmes (e todo mundo sabe que Lynch não curte falar muito sobre seu cinema cheio de mistérios), por outro, poderão entender muito sobre o estilo peculiar do celebrado cineasta. Na entrevista que perpassa todo o filme, conhecemos a sua história de típico menino americano de um lar confortável ao lado da família no estado de Montana. Desta criação que surgiu o seu lado mais cavaleiro, educado de fala calma e inofensiva. No entanto, desde pequeno, Lynch precisou acompanhar sua família por várias cidades americanas e não há como não perceber o tom sombrio com que pinta Filadélfia ou alguns vizinhos cujas imagens o assombram até hoje (sobre um deles ele sequer consegue contar o que houve de tão chocante). As coisas não estavam muito bem com as pessoas que conhecia pelo caminho, mas  ao conhecer o pai pintor de um amigo que Lynch percebeu uma forma de extravasar seu olhar peculiar sobre o mundo. Foi através dos desenhos que o adolescente começou a construir sua identidade artística - e o gosto pelo que a maioria das pessoas consideraria sombrio, bizarro e até grotesco. Nos comentários de Lynch podemos perceber os pontos de onde nasceram vários traços de seus filmes, as estradas perdidas, as trocas de identidade, os mundos paralelos, os personagens pesadelescos, as narrativas sombrias com a presença do desconhecido sempre à espreita. É curioso como o filme fala pouco da atual vida particular do artista (no máximo percebemos que ele tem uma filha pequena, hoje com cinco anos). O filme concentra-se especialmente na vida de David ao lado dos pais e dos irmãos. Não deixa de ser tocante quando na adolescência ele percebe que a mãe está decepcionada pelos caminhos que seguiu, ou o pai chocado perante o que ele guarda em seu ateliê particular - com frutas em decomposição e outras coisas que estavam ali apenas para ser observadas em sua destruição. Ali, fica claro que Lynch não tem pudores em enfrentar o que causa medo na maioria das pessoas, ele enfrenta esses elementos e os transforma na matéria prima de seus trabalhos surrealistas. Nos seus primeiros curtas, percebe-se como a transição das telas de pintura para as telas de cinema ocorreu de forma bastante natural, tendo em sua cultuada estreia em Eraserhead (1977) como o retrato em movimento do seu mundo particular. O filme termina neste ponto e se você considera a obra de Lynch perturbadora é melhor nem assistir, mas se você quer conhecer um pouco mais da história por trás de suas referências, torna-se um programa imperdível. 

David Lynch: A Vida de Um Artista (David Lynch - The Art Life/EUA-Dinamarca/2016) de Jon Nguyen com David Lynch. ☻☻☻

domingo, 24 de setembro de 2017

Na Tela: Mãe!

Bardem e Jennifer: prepare-se para a maior viagem do ano. 

Quando vi pela primeira vez o trailer de Mãe! de Darren Aronofsky tive a impressão de ver uma versão do clássico O Bebê de Rosemary/1968 para o século XXI. Acho que foi proposital fazer pensar que a história de um casal que começa a ter a casa invadida por um bando de adoradores em clima maligno tivesse relação com o clássico de Roman Polanski. Na verdade até tem, mas o que o diretor novaiorquino faz em sua nova provocação vai muito além disso. Na verdade, Darren subverte o que fazia o longa de Polanski assustador, já que aqui as referências vão de encontro ao divino, um divino estranho, mas, ainda assim, divino. Desde sua estreia em Pi (1998) até o sucesso absoluto com Cisne Negro (2010), Aronofsky demonstra interesse em personagens obsessivos, tão obsessivos que percebem a realidade de uma forma distorcida. Não importa se são matemáticos, bailarinas, lutadores, cientistas ou, até mesmo, uma mãe que deseja perder peso mais do que tudo na vida. Não foi por acaso que o diretor foi quase o responsável por repaginar os filmes de Batman antes que Christopher Nolan topasse a empreitada e criasse a trilogia do Cavaleiro das Trevas.  No entanto, depois que Darren se aventurou pelas águas bíblicas em Noé (2014), algo novo foi agregado ao seu estilo particular, já que o cineasta mostra-se mais preocupado com a responsabilidade humana com o planeta em que vivemos. Prometo que a partir daqui não vou revelar muito mais sobre o controverso Mãe! até a segunda parte desta postagem. Depois de um início mais revelador do que parece, conhecemos um escritor, na verdade um poeta (Javier Bardem) que convenceu a nova esposa (Jennifer Lawrence) a morar na antiga casa onde vivenciou uma tragédia no passado. Ela é bem mais jovem que ele, mas abraça a casa com a intenção de fazer dali mais do que um lar, um verdadeiro paraíso. Ela se esforça para que a casa se torne o mais aconchegante possível e, com isso, agradar o esposo que não escreve nada há tempos, enfim, ele não consegue criar. Embora ele pareça insatisfeito com a rotina da vida a dois, as coisas mudam quando recebem a visita de um médico (Ed Harris). Ela não parece confortável com a visita do estranho, o que piora ainda mais quando chega a sua inconveniente esposa (Michelle Pfeiffer) e, mais tarde os dois filhos do estranho casal (os irmãos Brian Gleeson e Dohmnall Gleeson) acarretando uma mudança radical na trama. Se a presença daquelas visitas atrapalha a rotina da casa, você não faz ideia do que irá acontecer na meia hora final. Mãe! faz crescer a tensão pouco a pouco até se tornar cada vez mais incômodo, seja pela necessidade do poeta sentir-se adorado, de seu desprezo às preocupações com a esposa ou com as pessoas que aparecem na casa sem ter respeito algum por aquele espaço. Darren nos brinda com um filme que torna-se cada vez mais sombrio, delirante e metafórico, estando sujeito a muitas leituras (seria um pesadelo? um livro escrito pelo poeta? Um surto da esposa que anseia a perfeição daquele lar? O retrato de um casamento abusivo? Uma casa assombrada?), aspectos que podem fazer o filme transitar por muitos gêneros. Embora muita gente possa odiar o filme (o que já mostrou-se comum desde sua primeira exibição no Festival de Veneza) não há como negar que Aronofsky realiza aqui um dos seus trabalhos mais impressionantes com a ajuda de atores em performances excepcionais. Faz tempo que Michelle Pfeiffer não tem um papel tão interessante e Jennifer Lawrence alcança sua performance mais intensa em muito tempo - mesmo quando o filme exagera, a queridinha de Hollywood mantem a linha e não deixa tudo cair no ridículo, tornando impossível não compartilhar de sua dor ao ver o lar que construiu com tanto zelo e carinho desintegrar diante dos nossos olhos. Se você não quer saber mais do que isso é melhor parar de ler exatamente aqui. Alerta SPOILER! 

Pfeiffer: Eva em carne, osso e costela?

Desta parte em diante me darei ao luxo de comentar SPOILERS sobre o filme, recomendando que você leia essa parte somente se já tiver visto o filme ou se quiser conhecer uma espécie de manual para entender o que se passa na tela durante a nova piração do diretor de Réquiem Para um Sonho (2000). Mãe! se tornou um sucesso de crítica, mas tão logo o filme começou a ser criticado pela maioria do público o diretor e sua estrela começaram a comentar um pouco mais por todas as ideias que estavam por trás da trama, talvez a pedido do estúdio que fez divulgação e distribuição maciça do filme ao redor do mundo (se fosse feito no esquema independente de antigamente, provavelmente Aronofsky nem ligaria para as reclamações). Se você tem um olhar atento é capaz de identificar várias delas, principalmente se pescar das cenas iniciais dica de desvencilhar o filme de uma estética realista. Claro que você pode explicar tudo de formas diferentes, mas o fato é que o roteiro foi inspirado na Bíblia, da gênese ao apocalipse - e até o que viria depois dele. Em vários lugares já mencionaram que Javier Bardem interpreta o poeta como o criador (ou Deus, se preferir), Jennifer Lawrence é a mãe natureza, o homem que os visita é Adão (Ed Harris), a esposa que aparece (depois dele surgir rapidamente machucado na altura da costela) é Eva (Michelle Pfeiffer). O quarto de criação do poeta seria a árvore do conhecimento ou da ciência que estava presente no paraíso, o cristal que eles quebram seria o fruto proibido, da ciência e a (assustadora) origem de tudo. Os filhos que vivem brigando são Caim e Abel e... você sabe o que acontece. Depois o filme tem o alento da gravidez da mãe natureza, a alegria e a inspiração surgem e tudo volta ao normal como uma boa nova para aquele lar... nas, antes que o filho do criado nasça, ele já é adorado por uma multidão cega que interpreta a obra do poeta de forma diferente, mas a multidão é incapaz de zelar pela casa onde estão. A casa é o nosso planeta, devastado, depredado, explorado quase ao ponto do apocalipse que é anunciado pela própria protagonista antes da pior noite de sua vida. A multidão cega tem a mesma devoção pelo criador quanto o Noé interpretado por  Russell Crowe, ao ponto de não ter a mínima consideração por um bebê e criar a alusão à comunhão da forma mais horripilante que já se viu no cinema (provocação máxima do filme, já que em O Bebê de Rosemary os adoradores do coisa ruim queriam cuidar do anticristo). Em meio à histeria coletiva, guerra e toda a loucura que se instaura nos momentos final do filme, Aronofsky paga um preço alto pelas sua trama cheia de simbologias e alusões religiosas. Ele provoca, choca,  exagera (confesso que me desconectei do filme por um tempo durante a parte da guerra) e faz do caos a matéria prima de uma obra realmente insana como não se via em muito tempo. A própria Jennifer Lawrence passou mal durante as filmagens, deixando claro que não é uma obra angustiante somente para quem assiste. Mãe! é um filme para amar ou odiar, numa relação tão extrema como a dos personagens apresentados na tela. Mas se você prefere considerar toda essas simbologias uma grande viagem, você pode optar por pensar que tudo é um delírio de uma dona de casa desesperada que parou de tomar seu misterioso remédio amarelo - e que deu o azar de casar com um megalomaníaco obcecado por ser adorado.     

Jennifer e a casa: delírios apocalípticos.  

Mãe! (Mother! - EUA/2017) de Darren Aronofsky com Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Michelle Pfeiffer, Ed Harris, Domhnall Gleeson e Brian Gleeson. ☻☻☻☻

MOMENTO ROB GORDON: Atores do Rock In Rio-2017

Alicia Keys: quatro filmes no currículo. 

No último dia do Rock in Rio - 2017 resolvi fazer uma lista dos músicos mais cinematográficos que passaram pelos sete dias de Festival. Estou falando de artistas que de vez em quando trabalham como atores em Hollywood - o que é cada vez mais comum. Como cabe apenas cinco na lista, a cantora Alicia Keys (que já fez quatro filmes) acabou ficando de fora na contagem dos critérios (um ponto por filme e 05 pontos por ser indicado ao Oscar e mais 10 se ganhou a cobiçada estatueta), mas como deixar essa diva de fora desta postagem? A seguir os outros cinco músicos que passaram pelo RIR deste ano e que querem um lugar ao sol de Hollywood:

#05 Adam Levine (Maroon 5)
Parece que entre um álbum e outro sobra tempo não apenas para fazer tatuagens, Levine já conta com seis filmes no currículo - embora em dois ele interprete a si mesmo. Adam obteve papel de destaque em Mesmo se  Nada der Certo/2013, onde interpreta um músico prestes a fazer sucesso. Elogiado pelo diretor do filme, ele ainda ajudou para que a música tema desse o que falar na comentada apresentação na cerimonia do Oscar de 2014 com a canção indicada Lost Stars (a minha indicada favorita daquele ano). Neste ano ele cava mais um cantinho em Hollywood com a comédia The Clapper de Dito Mantiel, onde atua ao lado de Ed Helms e Amanda Seyfried. 

#04 Jon Bon Jovi (Bon Jovi) 
O vocalista está aí para provar que o tempo passa para todo mundo, mas para alguns ele mantem a aura de galã. Não é todo mundo que costuma manter os fãs animados depois de quase quarenta anos de carreira. À frente da banda Bon Jovi, John Francis Bongiovi Jr ajudou a vender milhões de discos e manter no Brasil um dos seus maiores públicos. Não bastasse ter sido indicado ao Oscar de melhor canção original em 1991 (pela antológica Blaze of Glory do filme Jovens Demais Para Morrer/1990) ele também tentou emplacar como ator nos anos 1990, mas, atualmente, ele filma  só de vez em quando. Entre suas atuações mais famosas estão os trabalhos em Destination Anywhere (1997),  A Batalha do Atlântico (2000) e A Corrente do Bem (2000). 

#03 Flea (Red Hot Chilli Peppers)
Para o australiano Michael Peter Balzary, mais conhecido como o saltitante Flea, não basta ser o renomado baixista do Red Hot Chilli Peppers... ele também gosta de aparecer no cinema. Embora sempre seja convidado para pequenas participações (que comprovam seu carisma diante da câmera), Flea já participou de 25 filmes! Tendo trabalhado com diretores renomados como os irmãos Coen (O Grande Lebowski/1998), Robert Zemeckis (De Volta para o FuturoII e III) e Gus Van Sant (em Garotos de Programa/1991 e Psicose/1998), Terry Gillian (Medo e Delírio/1998) e emprestando a voz para várias animações (a última foi Divertida Mente/2016). Recentemente o ator deu as caras no sucesso Em Ritmo de Fuga/2017 onde interpretou um dos bandidos do filme. 

#02 Justin Timberlake
Todo mundo sabe que Justin quer o trono da música pop e, para isso, não bastou se livrar dos seus colegas do N'SYNC, ele começou a investir no cinema e ainda casou com uma atriz de Hollywood (Jessica Biel). Timberlake já soma 18 filmes no seu currículo e já convenceu que pode ser protagonista de vários gêneros (basta vê-lo em Amizade Colorida/2010 e O Preço do Amanhã/2011). Os grandes diretores geralmente lhe convidam para papeis coadjuvantes, caso de David Fincher (A Rede Social/2010) ou os irmãos Coen (Inside Llewyn Davis/2013), mas tudo pode mudar quando o mundo vê-lo ao lado de Kate Winslet no novo longa de Woody Allen (Wonder Wheel/2017). Vale lembrar que Timberlake abriu a cerimonia do Oscar este ano com sua música indicada ao prêmio de Melhor Canção: (o hit) Can't Stop the Feeling, canção tema da animação Trolls/2016.

#01 Jared Leto (30 Seconds to Mars)
Se você conhece os artistas que se apresentaram na edição do RIR deste ano e leu os critérios avaliativos no início deste post, você sabia que o Jared Leto estaria no topo da lista! Jared começou a carreira em produções para a televisão e já fez mais de 20 filmes (e já tem mais sete em produção) além de um Oscar de coadjuvante por seu trabalho em Clube de Compras Dallas (2013). Desde 1998, quando começou a tentar arrebentar as cordas vocais com a banda 30 Seconds To Mars, Jared passou a trabalhar menos como ator, no entanto, se tornou mais criterioso tendo verdadeiras pérolas no currículo - como os obrigatórios Clube da Luta (1999), Réquiem Para um Sonho (2000) e Sr. Ninguém (2009).  Com 46 anos (mas com aparência de 25), Jared ainda deve ser muito falado pela banda ou por seus filmes. 

sábado, 23 de setembro de 2017

PL►Y: Tomcat

Hochmair e Toni: destruindo o paraíso domiciliar.  

Stefan (Lukas Turtur) e Andreas (Phillip Hochmair) trabalham juntos em uma orquestra filarmônica, tem muitos amigos e conseguiram fazer da casa onde moram um pequeno pedaço do paraíso onde vivem ao lado do gato de estimação. Moses apareceu sem que eles soubessem de onde veio, como a grande maioria dos gatos, escolheu os seus donos por sentir-se seguro e querido pelos dois. Claro que o felino também gosta do vasto quintal verde, onde de vez em quando encontra algum "presente" para os donos. Vale dizer que o quintal é repleto de árvores frutíferas - e parte da diversão da casa é fazer doces de compota para distribuir aos amigos. Eles ainda são bons anfitriões para os visitantes e se dão bem com a vizinhança... se você se incomoda com filmes centrados em casais homossexuais é melhor ficar bem longe de Tomcat, já que o diretor Händl Klaus aumenta a sensação idílica daquele mundo paralelo com várias cenas de nudez numa intimidade despojada e até ousada (o que ajudou para que em 2016 o filme ganhasse o Teddy Bear, o prêmio do Festival de Berlim para filmes com temática GLSBTT - essa é a sigla atual?). Por meia hora o diretor nos mostra, sem pressa ou sobressaltos esse universo domiciliar onde Stefan, Andreas e Moses criam a dinâmica de um lar sem maiores preocupações... mas tudo muda quando Stefan demonstra uma atitude violenta sem justificativa alguma e altera para sempre aquele mundo. A partir de então, culpa, remorso, raiva, medo e ressentimento passam a existir dentro da casa e os dois personagens se atraem e repelem em busca de um equilíbrio que nunca chega. É neste momento que Tomcat demonstra não se contentar em ser um filme "gay", ele ambiciona mais, principalmente quando constrói cenas onde a plateia, assim como Andreas, não consegue mais confiar em Stefan - e olha que ele se esforça para que voltemos a gostar dele, afinal ele chora, apanha, torna-se isolado, desprezado, humilhado e até ferido. Em seu segundo filme o cineastas Händl Klaus mantem seu interesse pelo efeito da morte em seus personagens (o anterior foi o deprimente Março/2008 onde três jovens amigas se suicidam), mais uma vez ele a utiliza para revelar o que estava escondido nas  camadas subterrâneas do cotidiano. A narrativa lenta (que aumenta a tensão da narrativa) e a ausência de respostas óbvias alimentaram as comparações de Klaus com seu conterrâneo Michael Haneke (com quem ele trabalhou como ator em A Professora de Piano/2001), mas o cinema de Klaus consegue conciliar o rigor de seu mentor com um tom diferente, um pouco mais leve, embora complexo e incômodo. Considero justo destacar o trabalho dos atores, que conseguem ser bastante precisos na construção de um relacionamento que se vê na beira de um abismo revelado pelo lado obscuro até então desconhecido de um deles. Obviamente que muita gente irá considerar o longa tedioso em seu clima de suspense psicológico, mas as suas entrelinhas carregam algumas simbologias (especialmente a cobra congelada que desaparece,  a queda da árvore, o nome do gato - que na vida real se chama Toni e pertence ao próprio diretor...) que quando percebidas deixam tudo amais interessante, além, claro, do final que deixa o espectador com a pulga atrás da orelha e a sensação de que nada entre aqueles dois personagens será como antes. Nunca mais.

Tomcat (Kater/Áustria-2016) de Händl Klaus com Lukas Turtur, Phillip Hochmair, Cornelius Meister, Manuel Rubey e Maria Grün. ☻☻☻

terça-feira, 19 de setembro de 2017

PL►Y: Free Fire

Hammer, Brie, Cillian, Sam e Smiley: brincando de resta um. 

Em 1978 um grupo de pessoas se encontram num galpão abandonado para negociar armas com um contrabandista. Cada um desconfia do outro e ninguém parece ser de confiança mesmo, até que por conta de um desentendimento a troca de tiros começa e... segue assim até o final. Resta saber quem irá sobreviver no meio da artilharia que guarda algumas surpresas (que só deixa tudo ainda mais absurdo). Esta é a história de Free Fire, novo longa de Ben Wheatley (do arrepiante Kill List/2011 e do interessante High Rise/2016). Posso dizer que Wheatley merece cada vez mais atenção do público, por mais qu ainda seja um ilustre desconhecido. Aqui existe muito do cinema que fez de Guy Ritchie um diretor conhecido mundialmente por seus filmes de personagens malandros e diálogos espertos, no entanto, vale lembrar, que Ritchie deve muito ao cinema que consagrou Tarantino na década anterior. Hoje nem Ritchie ou Tarantino se dedicam aos tipos urbanos que aparecem em Free Fire e por isso mesmo, ele me pareceu tão divertido e acima da média. Desde a primeira cena podemos perceber que existe uma tensão no ar, seja quando o grupo formado por Chris (Cillian Murphy), Stevo (Sam Riley), Frank (Michael Smiley) e Bernie (Enzo Cilenti) encontra com o elegante Ord (Armie Hammer) ou quando desconfiam que Justine (Brie Larson), a única mulher do grupo, pode ser na verdade uma agente do FBI disfarçada. Chegando no lugar marcado, o encontro com Vernon (Sharlto Copley e sua voz peculiar) todo mundo sabe que a coisa irá por água abaixo, só não imaginamos que seja por conta de uma espécie de... honra familiar envolvendo Stevo. Produzido por Martin Scorsese, Wheatley não parece interessado em levar a situação a sério, sempre contrabalançando o tiroteio com diálogos bem humorados e uma ação constante. É preciso dizer que ele não gasta muito tempo apresentando os personagens, deixando somente que o espectador conheça o básico de cada um deles, e, ainda ssim, escolha alguém para torcer no meio de tantos marginais. Pela energia que se vê na tela, Free Fire ganhou o prêmio do público no Festival de Toronto no ano passado e concorreu ao prêmio de Mellhor Diretor no British Independent Film Award - que também reconheceu o trabalho da diretora de elenco Shaheen Baig pelo ótimo elenco que conseguiu reunir nesta despretensiosa obra. Free Fire pode não ser revolucionário (e nem pretende ser), mas diverte com sua ação quase cartunesca com personagens carismáticos - e bem que merecia ter entrado em cartaz em nossos cinemas antes de ser lançado diretamente em streaming

Free Fire - O Tiroteio (Free Fire / Reino Unido - França / 2016) de Ben Wheatley com Cillian Murphy, Brie Larson, Armie Hammer, Sam Riley, Sharlto Copley, Michael Smiley, Enzo Cilenti, Babou Ceesay, Noah Taylor, Jack Reynor e Patrick Bergin. ☻☻☻ 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

10+:Stephen King

O sucesso de It: A Coisa me fez lembrar a quantidade absurda de produções inspiradas nas obras de Stephen King (e como ele não para de escrever, provavelmente muitas outras ainda devem estrear). É verdade que em sua grande maioria o resultado é uma porcaria (inclusive um que King se aventurou a dirigir, o ridículo Comboio do Terror/1986), no entanto, diretores renomados, atores competentes e roteiristas inspirados conseguiram honrar a obra de Stephen em filmes que foram sucessos de público e crítica, alguns foram até oscarizados, outros se tornaram cult ou inspiraram séries de TV. A seguir meus dez filmes favoritos baseados nas obras do mestre do terror:

#10 A Hora da Zona Morta (1983) de David Cronenberg
Pouca gente lembra deste filme que conta com ótima atuação de Christopher Walken como um sujeito que usa uma parte específica do cérebro mais do que a maioria dos mortais e, por isso mesmo,  consegue ver o futuro... além de incomodar os planos de um político temeroso.

#09 O Aprendiz (1998) de Bryan Singer 
Antes de enveredar pelo universo dos X-Men, Singer se aliou a Magneto Ian McKellen para contar a história de um velhinho pacato que tem seu passado descoberto por um jovem vizinho (o finado Brad Renfro) - só que o rapaz sente-se cada vez mais atraído pelo lado sombrio do ex-oficial nazista. 

#08 O Nevoeiro (2007) de Frank Darabonts
O filme ficou famoso pelo final (que eu adoro) ainda mais perturbador que o do livro. A história é ambientada dentro do mercado de uma cidadezinha assombrada por um denso nevoeiro que esconde um segredo assustador (tão assustador quanto a histeria de alguns personagens). 

#07 Eclipse Total (1995) de Taylor Hackford
Kathy Bates é sempre lembrada como uma excelente atriz, especialmente quando se trata de dar vida às personagens mais complexas do escritor. Ela é Dolores Claiborne, que acusada de assassinato, enfrentará o passado obscuro e os ressentimentos da própria filha (Jennifer Jason Leigh)

#06 Conta Comigo (1986) de Rob Reiner
Este deve ser o filme mais terno baseado na obra de King. Inspirado num conto sobre um grupo de amigos que pretende ver um corpo morto no bosque de uma cidadezinha, o longa de Rob Reiner transpira nostalgia e tem fãs fieis até hoje. O resultado foi indicado ao Oscar de roteiro adaptado.  

#05 Louca Obsessão (1990) de Rob Reiner 
Kathy Bates ganhou o Oscar de melhor atriz pelo seu trabalho como a desequilibrada Annie Wilkes, mulher que vive solitária até encontrar o seu escritor favorito (James Caan), que acaba de sofrer um acidente. Este é o início de uma relação complicada que parece tirada de um pesadelo de King. 

Esta versão de Kubrick é uma grande provocação, já que ele alterou vários pontos do livro. Ainda assim, a história do escritor que vai para um  hotel com a família e passa a ser assombrado pelo passado macabro do lugar é considerado um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. 

Aqui o público já sabia que nem só de terror vivia as adaptações de King. Baseado em um dos seus textos mais sensíveis, a trama conta a história do encantador John Coffey (Michael Clarke Duncan), condenado à morte que possui um poder miraculoso. O resultado concorreu a quatro Oscars. 

Sissy Spacek (indicada ao Oscar) entrou para a memória cinéfila por sua espetacular atuação como a menina de educação repressora que é perseguida e humilhada por seus colegas na escola... sendo assim, uma das primeiras vítimas de bullying do cinema, perde as estribeiras no baile de formatura.  

#01 Um Sonho de Liberdade (1994) de Frank Darabonts 
Frank Darabonts deve ser lembrado como o melhor tradutor das obras de Stephen King para o cinema! Basta ver que ele aparece três vezes nesta lista com filmes muito bons - e este é considerado um dos melhores filmes de todos os tempos. Nele, conhecemos a história de amizade entre dois prisioneiros e o desfecho surpreendente de quem teve paciência para conseguir o que muitos consideravam impossível. Indicado a sete Oscars o filme (inexplicavelmente) não levou nenhuma estatueta para casa, mas conquista  fãs até hoje. 

Na Tela: It - A Coisa

Bill: palhaço do mal. 

Fazia tempo que um filme baseado na obra de Stephen King não dava tanto o que falar quanto It: A Coisa, ironicamente o filme entrou em cartaz praticamente ao mesmo tempo que outra versão de uma obra do autor que vai muito mal nas bilheterias (o fiasco A Torre Negra), o que faz lembrar que somente a assinatura ilustre do escritor não garante sucesso. Já vai para quatro décadas que as obras do escritor chegam aos cinemas e o sucesso de It não deixa de ser uma comemoração para a ligação de King com o cinema. Houve uma versão anterior lançada no formato de mini-série em 1990 e marcou época para aqueles que foram às locadoras acompanhar as diabruras de um palhaço macabro que azucrinava um grupo de pessias nos anos 1960.  A nova versão foi sabiamente transposta para os anos 1980 e deixou tudo com clima da série Stranger Things, o que ajuda o filme a dialogar muito bem com o público atual (lembrando que a série bebe diretamente na fonte de King), além de aumentar o charme da ambientação com pôsteres na parede, trilha sonora e uma ingenuidade desbocada que se perdeu no tempo. O diretor argentino Andy Muschietti (de Mama/2013) demonstra total domínio narrativo para equilibrar cenas de horror e humor, conduzindo muito bem o grupo de jovens atores - que causa identificação na plateia e gera torcida empolgada durante todo o filme. O ponto de partida é o desaparecimento do irmão caçula de Bill (o ótimo Bill Denbrough de Destino Especial/2016) que junto com um grupo de amigos (incluindo Finn Wolfhard e Stranger Things) conhecido Clube dos Perdedores irá tentar encontrá-lo. As poucos o grupo de amigos cresce em número e passa a contar até com uma menina, a adoravelmente mal falada Beverly (Sophia Lillis). A apresentação dos sete personagens forma o primeiro ato da história, que também explora os problemas adolescentes que cada um deles possuem, o que ganha maior importância quando passam a ser assombrados pelo estranho palhaço Pennywise (em arrepilante atuação de Bill Skarsgaard), que está por trás do desaparecimento de crianças há tempos e que se alimenta do medo de suas vítimas. Com várias cenas de arrepiar (usando toda a cartilha do gênero, efeitos especiais nojentos, sangue, monstros, casa assombrada, garoto psicopata, trilha sonora arrepiante...), o filme não economiza nos sustos (alguns bem elaborados), mas consegue manter o tom de aventura sem esquecer de aprofundar seus heróis juvenis. Tocando em questões de abuso, bullying e preconceitos sem parecer forçado ou didático, o filme mostra-se um grande acerto ao ter um  olhar terno sobre seus heróis cheios de boas intenções. Com a bilheteria astronômica arrecadada ao redor do mundo, crescem os boatos de uma segunda parte, onde será abordada a outra fase da história onde os personagens aparecem crescidos. Sem a leveza da infância no próximo filme, provavelmente resultado será ainda mais sombrio, resta saber se o público irá se envolver da mesma forma com a nova aventura. Até lá, It: A Coisa promete fazer ainda mais sucesso, afinal, foi feito sob medida para isso. 

O Clube dos Perdedores: jeito de Stranger Things. 

It: A Coisa (It / EUA-Canadá) de Andy Muschietti com Bill Denbrough, Sophia Lillis, Bill Skarsgaard, Jack Dylan Grazer, Wyat Oleff, Finn Wolfhard, Jeremy Ray Taylor e Chosen Jacobs. ☻☻