sábado, 17 de fevereiro de 2018

Na Tela: Viva - A Vida é Uma Festa

Miguel e sua família de cadáveres: feliz dia dos mortos. 

Viva - A Vida é uma Festa é o filme favorito para levar o Oscar de melhor animação deste ano e ao assisti-lo fica fácil entender o motivo. Além de ter uma direção de arte arrebatadora e um bom ritmo narrativo, ele ainda conta com um roteiro bem amarrado de grande apelo emocional e personagens cativantes. Quando ouvi falar sobre o filme, logo lembrei de Festa no Céu (2014), mas o filme aborda o tradicional Dia dos Mortos mexicano de um ponto de vista diferente, sendo irresistível apreciar esta festa cultural que sempre parece ser um tanto mórbida para quem observa de fora. Aqui é ressaltado dois pilares importantes desta festa: a família e a importância da lembrança. A trama gira em torno do menino Miguel, que sonha dedicar a vida à música, mas sua família é completamente contra e, por conta de uma competição no dia dos mortos ele chega a dizer que não se importa com a comemoração. O grande ídolo de Miguel é o cantor Ernesto de la Cruz  e, por conta de algumas pistas, ele acredita que o astro é seu bisavô do qual a família quase não fala. Ele acaba cometendo uma violação das regras da tradicional festa e fica entre o mundo dos mortos e dos vivos, sendo que a única chance de voltar para perto de sua família é recebendo a benção de um membro falecido de sua família. A tarefa parece fácil, já que vários de seus ancestrais o reconhecem e zelam por ele, pelo menos até perceberem que ele pretende ser músico. Diante do impasse, resta apenas ele procurar de la Cruz e tentar retomar sua vida normal. No caminho ele encontra com Frida Kahlo, guias espirituais e Hector, um personagem que está prestes a ser esquecido pela filha (e com isso, desaparecerá para sempre). Claro que no meio do caminho ele irá descobrir o motivo de sua família rejeitar tanto a ideia de ter um músico na família e... melhor você ver o filme. O nome Viva - A Vida é uma Festa não tem muita relação com a história, mas faz uma alusão ao colorido irresistível do filme que tem ótimos números musicais (que emocionam de verdade). Entre surpresas e cenas de aventura bem realizadas, o filme prende a atenção do espectador e ainda traz doses consideráveis de encantamento para uma festa que é bem diferente do nosso mórbido dia de finados.

Viva - A Vida é uma Festa (Coco/EUA-2017) de Lee Unkrich e Adrian Molina, com vozes de Anthony Gonzalez, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Alanna Ubach, Jaime Camilm e Gabriel Iglesias.  ☻☻☻☻

PL►Y: Divórcio

Camila e Murilo: guerra de casal em Ribeirão Preto. 

Se você olhara para o nome de quem assina a comédia Divórcio você provavelmente não ficará empolgado. O diretor Pedro Amorim é o responsável pelos horríveis Mato Sem Cachorro (2013) e Superpai (2014), mas aqui, com a colaboração do roteirista Paulo Cursino, ele consegue finalmente fazer um filme engraçado e, o melhor, que foge da cartilha manjadas das atuais comédias nacionais. Visualmente, o filme é totalmente concebido para o cinema. O uso dos ângulos, enquadramentos e movimentos de câmera são bem cuidados e conferem uma boa versatilidade à narrativa. Colabora muito também o elenco escolhido para o filme, especialmente a atriz Camila Morgado que está ótima na pele de Noeli, filha de um fazendeiro de Ribeirão Preto que abandona seu noivo arranjado no altar para se casar com o carioca Júlio (Murilo Benício). Quando o filme começa os dois se entendem que é uma beleza e enriquecem quando constroem uma empresa de massa de tomate que fica célebre com a receita secreta dela. Se Júlio comanda a empresa para sempre gerar mais lucros, o fato de terem duas filhas deixa a esposa cada vez mais em casa para cuidar das meninas e, tem como maior diversão, comprar sapatos. No entanto, a relação entre os dois não é mais a mesma. Cresce um abismo entre o casal e incomoda cada vez mais ela. Depois de uma situação lamentável ao voltarem de uma festa, Noeli pede o divórcio e... começa uma guerra entre o casal. O roteiro começa a explorar alguns clichês do gênero, mas ganha pontos ao brincar com as questões legais de uma separação, investe no resgate de uma habilidade antiga da protagonista e não perde a chance de brincar com a imagem que muitas pessoas tem dos moradores do interior de São Paulo. Do sotaque dos personagens, passando por uma onça,  músicas neo-sertanejas e seus ídolos (Noeli até reencontra um antigo pretendente, o Catanduva - vivido com gosto por Gustavo Vaz), o roteiro sabe como misturar estes ingredientes com muita desenvoltura, além de pintar um painel bastante ácido das mágoas de um casal. Com ótimo elenco e ritmo bastante eficiente, Divórcio é uma das comédias mais divertidas feitas recentemente no Brasil.  

Divórcio (Brasil/2017) de Pedro Amorim com Camila Morgado, Murilo Benício, Gustavo Vaz, Robson Nunes, Antônio Petrin, Paulinho Serra e Sabrina Sato. ☻☻☻

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

INDICADOS AO OSCAR 2018: Melhor Atriz

Frances McDormand (Três Anúncios para Um Crime) Favorita na categoria deste ano, a esposa do cineasta Joel Coen, já tem um Oscar na estante por sua inesquecível atuação em Fargo/1996 e outras três indicações ao prêmio de atriz coadjuvante. Frances é conhecida por temperar seus personagens com dureza e humor, o que faz toda a diferença na pele da sofrida Mildred que tem sede de justiça em busca do assassino de sua filha. Pela interpretação vigorosa ela já recebeu o Globo de Ouro de Atriz dramática, o SAG e o Critic's Choice Awards de melhor atriz. Considerada imbatível, Frances é tão generosa que já disse que de vez em quando lembram dela nas premiações, mas que ela considera melhor incentivar as mais jovens. Não é um amor?

Sally Hawkins (A Forma da Água) Dar conta de expressar as emoções sem dizer uma palavra em cena é um desafio e tanto! Ainda mais quando se é uma mulher apaixonada por um monstro marinho! No papel da muda Elisa, Sally realmente impressiona, não apenas pelo seu carisma em cena, mas pela forma como injeta erotismo em uma romance de fantasia. Esta é a segunda indicação desta atriz inglesa ao Oscar (a primeira foi de atriz coadjuvante pelo seu papel em Blue Jasmine/2013). Sally não é a favorita, mas acredito que a Academia lembrará dela em outras oportunidades, especialmente quando lembrar desta bela atuação no currículo. 

Saoirse Ronan (Lady Bird) Aos 23 anos, Saoirse já tem fama de veterana. Esta é sua terceira indicação ao Oscar, a primeira foi na categoria de atriz coadjuvante aos treze anos - quando ela atrapalhava o romance de Desejo e Reparação  (2007). Depois ela cresceu e apareceu como a protagonista inspiradora de Brooklyn (2015) que lhe rendeu sua primeira indicação ao prêmio de melhor atriz. Agora ela volta ao páreo na pele de uma adolescente que ainda está em busca de si mesma - e não para de discutir com a mãe. Por Lady Bird, Saoirse já recebeu o Globo de Ouro de atriz de comédia e é uma das mais cotadas se a Academia quiser surpreender nesta categoria. Outra forte concorrente é...

Margot Robbie (Eu, Tonya) Resolveu produzir um filme sobre uma personagem que a maioria das atrizes sairia correndo se a proposta chegasse até elas. Vivendo a ascensão e queda da patinadora Tonya Harding (acusada ter se envolvido num caso de agressão à uma concorrente no mundo da patinação artística em 1994). Margot está ótima e se confirma como uma atriz destemida. Além de passar meses treinando patinação no gelo, ela transita entre o drama e a comédia com uma desenvoltura impressionante (e levou para a casa o Critic's Choice Awards de melhor atriz de comédia). Esta é a primeira indicação da atriz australiana ao Oscar, mas bem que já poderia ter concorrido como coadjuvante por O Lobo de Wall Street/2013, filme que a revelou para o mundo. 

Meryl Streep (The Post - A Guerra Secreta) É indiscutível que Meryl é uma grande atriz, uma das melhores do mundo, tanto que conquistou sua vigésima primeira indicação ao Oscar por seu papel de dona do jornal Washington Post. Embora esteja bem em cena, não chega a ser uma das atuações mais marcantes da atriz, o que a deixa na desconfortável posição de azarão da noite. Meryl nem deve ligar para isso, já que ela faz parte do seleto grupo de intérpretes com três estatuetas na estante. Ela ganhou a primeira como coadjuvante por Kramer vs. Kramer/1979, depois veio a de melhor atriz por A Escolha de Sofia/1983 e por A Dama de Ferro/2011. 

A ESQUECIDA: Jessica Chastain (A Grande Jogada) Desde que souberam que Jessica estaria no filme de estreia na direção do roteirista Aaron Sorkin, ela foi colocada na posição de uma das favoritas a conseguir um lugar entre as indicadas. Considerando que ela foi lembrada no Globo de Ouro de atriz dramática, a ruiva realmente chegou perto. Ela vive a controversa Molly Brown, uma esquiadora olímpica que se tornou a diretora de uma das mesas de poker mais exclusivas do mundo - até se tornar alvo do FBI. Se fosse lembrada, seria a terceira indicação de Jessica ao prêmio. Ela já concorreu como coadjuvante em Histórias Cruzadas (2011) e melhor atriz por A Hora Mais Escura (2012). 

Na Tela: Três Anúncios Para um Crime

Frances: entre a justiça e a vingança. 

A filha adolescente de Mildred foi estuprada, queimada e morta há meses e a polícia não faz ideia de quem possa ter cometido o crime. Tudo aconteceu na aparentemente tranquila cidade de Ebbing no estado de Missouri nos Estados Unidos. Insatisfeita com a situação, considerando que existe um descaso com a tragédia que atravessou sua vida, Mildred resolve utilizar três outdoors em uma estrada da cidade indagando sobre os rumos da investigação que não aponta responsáveis. Fosse lançado há algum tempo atrás, Três Anúncios Para um Crime seria um corpo estranho entre os indicados ao Oscar, mas hoje ele ocupa o posto de favorito entre os nove indicados na categoria de Melhor Filme - e tem chance de levar alguns dos sete prêmios a que concorre, especialmente o de melhor atriz para Frances McDormand, que entrega outra atuação memorável na pele da endurecida Mildred. Quem conhece o trabalho de Frances já está acostumado em vê-la dar um toque especial em seus personagens, tanto que já tem um Oscar na estante pela policial de Fargo (1996). Aqui ela vive uma mulher cansada de silenciar a raiva e indignação diante do descaso das autoridades, o problema é que quando ela libera todo o ódio que estava cansada de segurar, acarreta um emaranhado de situações que revelam o que a pacata Ebbing preferia manter escondido. É neste momento que o filme opta por sempre seguir um caminho diferente ao abordar seus personagens, seja a própria Mildred, o delegado Willoughby (Woody Harrelson, indicado ao prêmio de coadjuvante) que demonstra sensibilizado, mas impotente diante do caso ou o policial Dixon (Sam Rockwell, favorito à estatueta de coadjuvante deste ano após levar para casa praticamente todas as premiações do ano), um grosseiro, racista, homofóbico e que abusa de autoridade sempre que possível. No entanto, além de aparecer em seu relacionamento com a mãe - apresentada como uma bela professora para o filho ser tudo o que é - Dixon recebe o arco mais transformador do filme. Escrito e dirigido pelo inglês Martin McDonagh (que já foi indicado ao Oscar por Na Mira do Chefe/2008 e já tem um Oscar na estante pelo curta Six Shooter/2004) ele conjuga aqui os dois pilares de seu estilo (a violência e o humor negro) mas os costura com uma linha mais emocional sem medo de expandir a história para vários personagens - seja o filho (Lucas Hedges) de Mildred que se incomoda com as ações da mãe, o jovem administrador dos outdoors (Caleb Laundry Jones) ou a esposa do delegado (Abbie Cornish).  Mais contido em seu humor, McDonagh conta uma história que libera a raiva aos poucos, acarretando sempre consequências destruidoras que não atingem o foco e por isso mesmo, gera a ânsia por uma catarse que nunca chega. Enquanto vira a cidade do avesso, Três Anúncios para Um Crime nos faz pensar até que ponto a vingança não se confunde com justiça, quanto a ineficiência do sistema pode gerar mais violência e o quanto o mundo se parece cada vez mais  com aquela cidadezinha com suas intolerâncias e incompreensões. Talvez por isso a última cena nos deixe com um nó na garganta imaginando onde aquilo tudo irá parar... ou se vai parar. Não foi por acaso que Três Anúncios para Um Crime se configurou como o favorito da temporada, torna-se impossível não torcer pela justiça que Mildred tanto espera, mas aos poucos começamos a repensar suas atitudes e perceber que se perder no caminho é mais fácil do que se imagina.  

Três Anúncios Para um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri/EUA-2017) de Martin McDonagh com Frances McDormand, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Lucas Hedges, Peter Dinklage, Caleb Laundry Jones e Abbie Cornish. ☻☻☻☻

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Na Tela: Eu, Tonya

Margot: o benefício da dúvida. 

Tonya Harding foi a primeira mulher americana (a segunda do mundo) a conseguir fazer um Triplo Axel numa competição de patinação artística num verdadeiro desafio às leis da Física. Ganhando campeonatos e participando de jogos olímpicos, Tonya se tornou umas das melhores patinadoras da história. Embora estivesse longe de ter a graça e a leveza de suas concorrentes, sobre o gelo, ela vivia momentos de glória... até que se envolveu num escândalo em 1994. Tonya foi acusada de conspirar contra outra patinadora, Nancy Kerrigan, que teve seu joelho quebrado por um agressor durante os treinos em Detroit. A confusão custou todo o brilho e carreira de Tonya que foi afastada para sempre das competições. Quem lembra da história, irá lembrar que Harding foi pintada como uma das pessoas mais torpes e traiçoeiras da face da Terra e ninguém deu bola para sua versão da história. Eis que no ano passado, a australiana Margot Robbie se deparou com Eu, Tonya e viu todas as possibilidades que a história possuía e resolveu produzi-lo.  Tão logo apareceu nos festivais, o filme borrou a percepção que tínhamos sobre a verdade dos fatos. Dirigido pelo australiano Craig Gillespie, o filme dramatiza as situações e apresenta uma narrativa enviesada por depoimentos de personagens reais para a câmera, como se fosse um documentário. Não por acaso, no início é explicado que o longa é baseado em alguns dos depoimentos mais "contraditórios e inacreditáveis" em torno de uma investigação. Sorte que ele não gira em torno da rivalidade entre as patinadoras, mas prefere apresentar a protagonista desde a sua infância - desde cedo treinando pesado para se tornar uma campeã sob a pressão da mãe carrasca, LaVona Golden (uma espetacular Allison Janney, favorita ao Oscar de coadjuvante). Desde o início a relação da patinadora com a mãe é complicada, mas piora consideravelmente quando ela cresce - e passa a ser interpretada por Robbie. Depois de apanhar e ser ofendida pela mãe, Tonya se casa com um homem para também apanhar e ser ofendida. Jeff Gilooly (Sebastian Stan) é o tipo de pessoa capaz de te levar para o fundo do poço e, ainda que o filme carregue no humor negro, a agressividade entre os dois chegava aos extremos. A plateia ri nervosa da história e, ainda que não acredite na inocência de Tonya, consegue visualizar um cenário bastante hostil em torno dela, o que lhe concede o benefício da dúvida. Contribui muito para isso a luminosa interpretação de Margot, que não erra o tom em momento algum (mesmo quando o filme se enrola no emaranhado de situações que procura abrigar). Robbie está mais do que convincente em cena e merece todos os elogios que recebeu por um papel complicado (e está indicada ao Oscar de atriz deste ano). Ela ri, chora, fala com o espectador como se estivesse confessando seus pecados e aparece estupenda nas cenas de patinação (a primeira ao som de ZZ Top é um verdadeiro achado), mesmo sendo hostilizada pelos jurados que não conseguiam ver naquela garota a imagem que queria para uma campeã americana. Eu, Tonya é um filme ousado em sua proposta e consegue ser tão divertido quanto denso. Esse equilíbrio complicado também se deve às mãos de Gillespie, um diretor que adora personagens controversos, mas que consegue olhar com carinho para todos eles (basta lembrar de Ryan Gosling apaixonado por uma boneca em A Garota Ideal/2007). Com um roteiro insano, edição engenhosa (indicada ao Oscar) e um elenco exemplar, Eu, Tonya é realmente surpreendente. 

Eu, Tonya (I, Tonya/EUA-2017) de Craig Gillespie com Margot Robbie, Allison Janney, Sebastian Stan, Julianne Nicholson, Paul Walter Hauser, McKenna Grace e Bob Cannavale. ☻☻☻☻

Na Tela: O Touro Ferdinando

Ferdinando: touro adorável. 

Desde que comecei a ouvir falar do filme O Touro Ferdinando a história não me parecia desconhecida. Eu imaginei que era uma espécie de versão do bicho para a história de Arenas Sangrentas (1956), clássico com roteiro de Dalton Trumbo disfarçado de Robert Rich (no período de caça-às-bruxas de Hollywood). Não chega a tanto. Bastou uma pesquisa na internet para encontrar um curta com o mesmo nome que assisti na televisão quando era pequeno. O fato é que nada disso interessa quando se assiste ao longa assinado pelo brasileiro Carlos Saldanha que concorre ao Oscar de Melhor Animação. Baseado no livro de Munro Leaf, não é surpresa alguma dizer que é candidato mais infantil ao prêmio da Academia. Feito especialmente para a criançada, os adultos podem até se divertir com a história, mas é para os menores que a obra será considerada mais interessante. No entanto, isto não impede que o filme toque num assunto sério e, assim como o recente Okja (2017) nos faça repensar na relação de temos com os animais, seja para alimentação ou "entretenimento". Ambientado na Espanha, Ferdinando é um touro que se despediu do seu pai ainda pequeno e nunca mais o viu. Por conta de algumas confusões ele acaba sendo encontrado e criado com todo amor e carinho por uma garotinha. Mas Ferdinando cresce e eis que um dia ele resolve ir à um festival de sua maior paixão (as flores) e, por conta de um acidente, ele acaba sendo considerado perigoso e transportado para muito longe, onde poderá se tornar o escolhido para uma tourada - o que ele descobre ser algo fatal. Pode se dizer que o protagonista é pacifista desde menino e ele se vê num dilema quando percebe que se não for bom para a arena, ele será enviado para o abate. Resta-lhe planejar a fuga. Bem cuidado visualmente, Saldanha faz um filme agitado, com muito movimento, gritaria, piadinhas, competição de dança e com isto prende atenção de uma geração que tem verdadeiro fascínio pela aceleração. Confesso que em determinados momentos eu achei a narrativa um pouco cansativa em sua histeria, mas nada que comprometa o resultado final, especialmente pelo lado sério que a história traz para a tela de cinema. É impossível não gostar de Ferdinando e alguns dos seus amigos, por isso mesmo é realmente doloroso ver um personagem tão adorável tendo uma espada apontada para a cabeça e imaginar que aquilo realmente acontece há tempos e já se tornou uma tradição cultural voltada para divertir plateias. Entre piadas e risadas, o filme pode até parecer inofensivo, mas deixa a reflexão para a plateia quando as luzes acendem. 

O Touro Ferdinando (Ferdinand/EUA-2017) de Carlos Saldanha com vozes de John Cena, Gina Rodriguez, Jeremy Sisto e Peyton Manning.
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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

PL►Y: Kong - A Ilha da Caveira

Kong: pobre, macaco!

Embora tenha apenas oito filmes no currículo, King Kong é um dos maiores personagens de Hollywood (e não me refiro somente à sua altura). O primeiro filme protagonizado pelo macaco gigante foi lançado em 1933 e desde então ele viveu outras aventuras. Em 1976 ele deve ter recebido sua versão mais famosa pelas mãos do produtor Dino De Laurentis (na versão estrelada por Jeff Bridges e Jessica Lange). O filme fez tanto sucesso que ressuscitaram o bichão em King Kong Lives (1986), mas nem precisava. Em 2005 Peter Jackson refilmou a versão clássica do personagem tendo Naomi Watts como a nova musa da criatura e... poderia ter parado por aí, mas Hollywood é implacável quando precisa fazer dinheiro sem muito esforço. Na versão de Jackson já havia indícios de que a famigerada Ilha da Caveira, habitat natural de Kong, poderia ser mais explorada pelo cinema e... Kong - A Ilha da Caveira chegou aos cinemas no ano passado. Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais, o filme não tem nada demais e sua tentativa de criar uma nova história para o célebre personagem padece de uma preguiça impressionante. O roteiro nem gasta muito tempo criando uma história, sabe-se apenas que em plena Segunda Guerra Mundial dois pilotos se perdem no meio daquele lugar no Oceano Pacífico. Vinte e nove anos depois uma expedição é enviada para explorar a ilha recém descoberta. Para ajudar foi convocado o ex-capitão britânico James Conrad (Tom Hiddleston), o tenente-coronel Preston-Packard (Samuel L. Jackson), a fotojornalista Mason Weaver (Brie Larson) e outros personagens vividos por John Goodman, Tobby Kebbel e Thomas Mann para se depararem com o macaco gigante no meio da floresta (vivido por Terry Notary que está em cartaz atualmente com The Square/2017). Por conta de Kong o grupo acaba se dividindo, encontrando o soldado perdido há décadas (agora vivido por John C. Reilly) e um bando de criaturas estranhas que são combatidas por Kong - que continua sendo cultuado feito um deus pelos nativos da região. Sabe-se lá o motivo para que convidassem o diretor Jordan Vogt-Roberts (de Os Reis do Verão/2013) para tirar do papel este reboot de King Kong com o tom mais trivial de aventura. Sem novidades, o filme gira em torno do próprio rabo até que chega o desejado final. Apesar do bom elenco (que são bem melhores do que os papéis que receberam, mas estão ali justamente para segurarem nossa atenção perante a história insossa - mesmo assim eu cochilo várias vezes ao tentar ver o filme), o que vale são os efeitos especiais. Pobre, Kong! Deixem o bicho em paz. 

O elenco: artistas talentosos pagando mico.

Kong - A Ilha da Caveira (Kong - Skull Island/EUA - 2017) de Jordan Vogt-Roberts com Tom Hiddleston, Brie Larson, John Goodman, John C. Reilly, Tobby Kebbell e Thomas Mann.