terça-feira, 14 de novembro de 2017

PL►Y: Animais Fantásticos e Onde Habitam

Scamander (Eddie Redmayne) e seus amigos: de volta ao mundo de Harry Potter. 

Com o fim da saga Harry Potter não foram apenas os fãs que ficaram tristes, o estúdio também - já que aposentou uma de suas franquias mais famosas e rentáveis. Entre 2001 e 2011 foram lançados os  oito filmes do famoso bruxinho e ao longo do tempo a história amadureceu, acompanhando o crescimento de seu público. Não por coincidência, em 2001 foi lançado o livro Animais Fantásticos e Onde Habitam pela mesma J.K. Rowling sob o pseudônimo de Newt Sacamander. O livro era leitura obrigatória dos alunos de Hogwarts (e a capa da primeira edição vinha até com o selo de propriedade de Harry Potter e anotações no pé de página como se fosse realmente um livro escolar). Se tratava de um guia sobre animais que habitavam aquele universo, ou seja, não havia trama para um filme ao longo de suas páginas. Eis que no ano passado, os fãs foram brindados com a adaptação deste livro, com roteiro da própria escritora e direção de David Yates (o mesmo responsável pelos últimos filmes da saga Potter) utilizando referências daquele livro. O protagonista da história é o próprio Newt Scamander (vivido por Eddie Redmayne), amante das criaturas mágicas e ex-aluno de Hogwarts - sendo expulso por colocar em risco a vida de várias pessoas devido a um acidente. Newt cresceu e teve como profissão viajar o mundo para procurar, estudar e escrever sobre os animais que dão título ao seu guia. A história do filme se passa na década de 1920, numa visita de Newt à Nova York antes de voltar para a Inglaterra e a fuga de uma de suas criaturas marca o início da história. Ambientado 70 anos antes da saga dos livros que o precederam, o roteiro tem a bela ideia de mostrar o universo bruxo dos Estados Unidos, com suas gírias (na Terra do Tio Sam os trouxas são chamados de Nãomaj) e leis próprias (como a de um bruxo não poder casar com um trouxa), além disso mescla a tensão gerada pela presença de uma criatura que assombra a cidade e o efeito sobre um grupo de conservadores que denunciam a presença de bruxos na sociedade (não por acaso este grupo vem da Nova Salém), este cenário faz com que Scamander precise ser o mais discreto e rápido possível a encontrar as criaturas que escaparam de sua maleta. Com a ambientação correta (valorizada pelo bom trabalho de figurino), Rowling também se beneficia de colocar personagens interessantes em torno do protagonista e, curiosamente, os mocinhos são bem mais interessantes que os vilões. Em sua missão, Scamander contará com o forte candidato à trouxa favorito do universo de Rowling, afinal, o padeiro Jacob (Dan Fogler) é bastante simpático e se apaixona por uma das irmãs bruxas - Tina (Katherine Waterston) e Queenie (Alison Sudol) - que ajudam a formar um grupo de heróis bastante eficiente. Se os efeitos especiais impressionam, os vilões mereciam um pouco mais de atenção. A concepção dos personagens de Ezra Miller e Collin Firth é mais confusa do que intrigante, deixando Samantha Morton com a tarefa de arregalar os olhos e ser a mais assustadora sem precisar utilizar mágica para isso. O filme tem a vantagem de manter o tom dos últimos filmes baseados no universo da escritora, mantendo a atmosfera sombria e bom humor sem exageros. Animais Fantásticos e Onde Habitam funciona bem durante a sua duração, sendo um bom passatempo e um acerto que deve render continuações para saciar a saudades dos fãs e do estúdio. 

Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them / Reino Unido - Estados Unidos / 2016) de David Yates com Eddie Remayne, Colin Farrell, Dan Fogler, Katherine Waterston, Alison Sudol, Ezra Miller, Samantha Morton, Carmen Ejogo, Dan Hedaya e Jon Voight. ☻☻☻

Na Tela: Bom Comportamento

Pattinson: ator de respeito!

Embora a imprensa alardeasse que Robert Pattinson poderia levar o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes por seu trabalho em Bom Comportamento, não percebi grande surpresa da mídia ou do público diante da afirmativa. O motivo é bem simples, nos últimos anos o galã juvenil da saga Crepúsculo (terminada em 2012) realmente se tornou um ator a ser respeitado. Sua receita foi ousada, já que se afastou de todos os papéis que remetessem ao papel que o tornou famoso. Fugindo de comédias românticas como quem foge da cruz, Pattinson trabalhou em produções indies com diretores conhecidos por trabalhos radicais. Na guinada de sua carreira, as parcerias com o canadense David Cronenberg foram primordiais, já que Cosmópolis/2012 e Mapas Para as Estrelas/2014 foram importantes para mostrar às fãs adolescentes que o caminho do moço era outro. Depois dos elogios já conquistados por The Rover (2014) e Z- A Cidade Perdida (2017), Pattinson encara desta vez o desafio de encarnar outro personagem marcante neste drama marginal dos irmãos Safdie. Benny e Josh Safdie estão em ascensão no cinema americano e parte disso é por conta dos elogios recebidos por Amor, Drogas e Nova York/2014 (um verdadeiro exercício de paciência sobre a jornada autodestrutiva de uma jovem autodestrutiva). A dupla apresenta um estilo realista com muitos, planos fechados e cenas bastante cruas, sem compromisso com a glamourização da história. Mergulhar num universo assim rendeu uma atuação marcante para Pattinson na pele de Connie Nikas, um ladrão que tem o dia mais agitado de sua vida após assaltar um banco. Para Connie e o irmão, Nick (Benny Safdie) tudo começa a dar errado já na fuga (antes mesmo dos créditos apareceram), rendendo a prisão de Nick - um rapaz que visivelmente tem comprometimentos mentais. A partir daí, Nick precisa conseguir o dinheiro para pagar a fiança do irmão, mas uma sucessão de acontecimentos imprevisíveis comprometem seu objetivo - seja envolvendo sua namorada (Jennifer Jason Leigh) ou os desconhecidos que atravessam o seu caminho (destaque para Buddy Duress, que se transforma no seu parceiro involuntário). Os irmãos diretores demonstram maior segurança na condução da história, mantendo sempre um ritmo urgente e um trabalho interessante com cores e sombras durante a desesperada jornada do protagonista. O roteiro também é bastante convincente na sucessão de complicações em que o personagem se mete, mas de nada serviria se não contasse com a segurança de Pattinson ao encarnar um personagem complicado. Embora Connie esteja mais preocupado em libertar o irmão do que com qualquer outra coisa, seu personagem tem tantas atitudes equivocadas que surpreende como Pattinson desaparece no personagem, ao ponto de eu não conseguir cogitar melhor escolha para o papel. Connie está no extremo oposto de tudo que o seu vampiro romântico representava para o cinema no início da década, de forma que até a polêmica cena em que seduz uma adolescente de 16 anos parece uma provocação de como o astro cresceu e não é mais o ídolo juvenil de outrora (pois é, ele já tem 31 anos). Mudar a carreira de forma tão radical em cinco anos não é tarefa para qualquer um. 

Bom Comportamento (Good Time/EUA-2017) de Benny e Josh Safdie com Robert Pattinson, Benny Safdie, Jennifer Jason Leigh, Taliah Webster e Barkhad Abdi. ☻☻☻☻

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

APOSTAS PARA O OSCAR 2018-CAPÍTULO III

"Mudbound" de Dee Rees
Dois homens retornam para casa na zona rural do Mississipi após a Segunda Guerra Mundial e precisam lidar com o racismo sufocante da região. Esta é a história do elogiado drama da cineasta Dee Rees, que já se consagrou em vários festivais e se prepara para chegar ao Oscar! O que pode atrapalhar sua campanha é o fato de ser produzido pela Netflix e a Academia ainda tem o pé atrás com filmes produzidos diretamente para o serviço de streaming

"The Post" de Steven Spielberg 
Todo filme assinado por Steven Spielberg tem fortes chances de aparecer no Oscar - embora os últimos tenham saído de mãos abanando. Desta vez o diretor aborda os bastidores de dois grandes jornais americanos que tiveram acesso a documentos do pentágono sobre o envolvimento dos EUA na Guerra do Vietnã, Spielberg pode fazer bonito perante a Academia mais uma vez. O elenco também conta com Tom Hanks, Meryl Streep, Sarah Paulson, Carrie Coon e Matthew Rhys .

"Breathe" de Andy Serkis
Dramas envolvendo pessoas com deficiência sempre chamam atenção da Academia, por conta disso, Andrew Garfield pode ser indicado novamente ao prêmio de melhor ator pelo papel de Robin Cavendish, que vítima de pólio fugiu com sua amada (vivida por Claire Foy) para viver idilicamente por algum tempo. O filme marca a estreia na direção de Andy Serkis e conta com uma história real de superação para comover o púbico e os votantes da Academia. 

"Three Billboards Outside Ebbing, Missouri" de Martin McDonagh
Frances McDormand tem um Oscar de melhor atriz na estante e outras três indicações na categoria de coadjuvante. O diretor McDonagh tem um Oscar de curta-metragem e uma indicação ao prêmio de roteiro. Juntando os dois o resultado é a história de uma mulher que desafia as autoridades para desvendar a morte da filha - tudo temperado com o humor negro do diretor e da atriz que fez escola nos filmes dos irmãos Coen. 

"The Florida Project" de Sean Baker 
O diretor de Tangerine/2015 explora o cotidiano dos humildes moradores de um hotel nos arredores do parque da Disney na Flórida. Neste mundo às margens da fantasia, a dureza é aliviada pelas fantasias de uma menina (Brooklynn Prince) que vive com a mãe naquele lugar e divide as brincadeiras com outras crianças da região. Aclamado pelos contrastes que revela, o único rosto famoso do elenco é Willem Dafoe numa atuação inesquecível. 

Na Tela: Terra Selvagem

Jeremy e Elizabeth: ótimas atuações. 

Taylor Sheridan começou a carreira como ator em programas de televisão (você deve lembrar dele na série Sons of Anarchy) e engatou uma bem sucedida carreira como roteirista com o elogiado Sicario (2015) de Denis Villeneuve. Neste ano, Taylor foi lembrado no Oscar de Roteiro Original pelo seu belo trabalho em A Qualquer Custo (2016), filme que vira do avesso as convenções do faroeste para a plateia do século XXI. Sheridan ficou tão animado com os rumos de sua carreira que resolveu dirigir seu primeiro filme autoral (vale lembrar que ele dirigiu o terror Vile/2011, mas foi um típico trabalho encomendado para um estúdio, bem longe do seu estilo atual). Terra Selvagem recebeu o prêmio da mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes, além de vários elogios ao estrear nos Estados Unidos, chegando a ser cotado para o Oscar2018. A trama aborda as investigações em torno do assassinato de uma jovem nativa americana no estado de Wyoming, mais precisamente nas proximidades do Rio Wind, famoso por atravessar uma reserva indígena da região. Ao encontrarem o corpo descalço na neve, as autoridades locais suspeitam que seja um caso de estupro seguido de morte. Começa então a investigação que se torna uma questão pessoal para o guarda florestal Cory Lambert (Jeremy Renner), que passa a ajudar uma novata agente do FBI, Jane Banner (Elizabeth Olsen) a desvendar o caso. Mais uma vez Sheridan vira do avesso as convenções de um gênero, não fazendo questão de emular suspense sobre quem foi o agressor, ou embaralhar as investigações, preferindo seguir pontos específicos demarcados por suspeitas que aparecem desde o início - e ainda assim, descobrir o que aconteceu pode ser surpreendente. O maior interesse de Sheridan é na construção dos personagens, especialmente de Cory que é assombrado por uma tragédia familiar do passado e rende o melhor momento de Renner em muito tempo. Já Elizabeth Olsen tem a tarefa de ser o alter-ego da plateia naquela terra desconhecida, com suas peculiaridades e um volume de testosterona bastante elevado - realmente não é por acaso o fato do filme contar um agente do FBI do sexo feminino e jovem, melhor ainda é perceber que a atriz dá conta de mais uma forte personagem feminina com desenvoltura. Outro destaque do elenco é Jon Bernthal,  que desfaz em poucos segundos qualquer imagem que você possa ter construído do personagem antes dele aparecer na história.  Sheridan desenvolve o filme sem pressa, aproveitando a sensação melancólica das paisagens cobertas de neve e usa um discreto verniz de como a natureza pode ser ameaçadora. É verdade que lhe falta um pouco de traquejo na direção, especialmente em guiar o processo de edição, mas ele tem bastante segurança em lidar com algumas cenas bastante complicadas, especialmente aquelas em que conta com a dinâmica entre vários atores para construir tensão. Ao final da sessão tudo fica mais doloroso quando descobrimos que todo ano, dezenas de jovens nativo- americanas desaparecem sem deixar vestígios nas reservas americanas. São estes desaparecimentos que fazem de Terra Selvagem um filme inspirado em fatos reais - e ainda mais assustador. 

Terra Selvagem (Wind River / Reino Unido - Canadá - EUA / 2017) de Taylor Sheridan com Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Grahan Greene, Joe Bernthal, Gil Birmingham e Julia Jones. ☻☻☻☻

domingo, 12 de novembro de 2017

§8^) Fac Simile: Taika Waititi

Taika David Waititi
Taika Waititi é o diretor neozelandês mais falado dos últimos tempos. Com pai maori e mãe russa, o ator, diretor, produtor e roteirista foi indicado ao Oscar melhor curta-metragem em 2004 com One Car, One Night e ganhou o mundo com a comédia O Que Fazemos nas Sombras (2014). Depois de ver seus filmes entre os mais falados em sua terra natal e conquistar uma vaga entre os votantes do Oscar no ano passado, Taika ganhou um ponto de mutação em sua carreira ao aceitar dirigir Thor: Ragnarok (2017), que já se tornou a maior bilheteria de uma aventura solo do Deus do Trovão. Entre as entrevistas de divulgação do filme, nosso repórter imaginário conseguiu esta entrevista (que nunca aconteceu) com o cineasta. 

§8^) De onde a Marvel tirou a ideia de você dirigir um filme de super herói?

Taika Eu não faço a mínima ideia! Este povo é completamente maluco! Que tipo de pessoa colocaria um sujeito feito eu para dirigir um apocalipse tendo deuses como protagonistas? Vai entender o que se passa na cabeça dessa gente!

§8^) Não acha que eles ficaram animados com o resultado de "O Que Fazemos nas Sombras"?

Taika Pode ser... mas O que fazemos nas sombras era um documentário sobre vampiros europeus que se escondiam na Nova Zelândia! Quando eles me ligaram eu pensei que eles queriam refilmar Blade – O Caçador de Vampiros com Eddie Murphy no papel principal... #sqn! De repente eles disseram que era sobre Thor Ragnarok, que era o fim de Asgard, com a deusa da morte, muitas mortes e tragédias... eu apenas disse: ‘tem certeza que vocês ligaram para o cara certo? Eu faço comédias de baixo orçamento’ e eles disseram ‘por isso mesmo’. Eu continuei sem entender coisa alguma. 

§8^) Mas você fez um belo trabalho! Muitos consideram o melhor filme de Thor nos cinemas! É colorido, animado e tem aquele clima irresistível de Matinê! Ao ver o filme tive a impressão de que você estava brincando com suas action figures favoritas...

Taika Muito obrigado. Talvez a ideia fosse esta mesmo! Uma criança que tinha seus poucos bonequinhos e ganhou milhões para gastar numa grande brincadeira, sorte que ela é criativa o suficiente para sustentar o interesse de várias pessoas ao redor do mundo. Gostei deste papo de action figures... usarei esta analogia nas próximas entrevistas!

§8^) E qual seria sua action figure favorita do filme?

Taika A Hela! Dá para imaginar você ter a Cate Blanchett, com aqueles galhos pontudos na cabeça, disposta a destruir um mundo inteiro? Uau! É realmente de arrepiar! Mas eu gosto muito do cara de pedra, o Korg - tanto que eu mesmo o interpreto no filme! Ah, gosto muito do Loki também. O Thor eu passei a gostar mais depois que ele cortou o cabelo, se bem que foi aquela cabeleira que me inspirou a usar muito Led Zeppelin na trilha. Eu olhei aquilo e pensei: “Robert Plant! Imigrant Song! Vai ser irado!”, as pessoas pensam que era por conta da música que fala de deuses e tal... mas eu escolhi pelo título mesmo! Eu sou neozelandês, Cat e Chrissy australianos, Tony e Dri são ingleses... pura geografia!

§8^) E os boatos de que você gostaria de dirigir um filme da Viúva Negra?

Taika Sim! Eu adoraria! Tenho ideias muito legais para o filme, mas terei que convencer muita gente de que poderia fazer funcionar. O que é muito engraçado já que eles me convenceram de que eu seria capaz de fazer Ragnarok e eu agora quero convencê-los a fazer um filme de espiões! Seria algo como os filmes de James Bond de antigamente, que eram bem mais divertidos que os atuais... e com a vantagem da protagonista ser a Bondgirl! Não tem como dar errado!

Taika e seu fã clube

Na Tela: Thor - Ragnarok

Hemsworth: densidade para quê?

Muita gente deve ter ficado assustada quando a Marvel anunciou que o neozelandês Taika Waititi (diretor do hilário O Que Fazemos nas Sombras/2016) fora escolhido para capitanear a terceira aventura do Deus do Trovão nos cinemas. Quem é mais ligado em HQ tremeu ao recordar que a trama de Ragnarok nos quadrinhos é bastante sombria por se do fim do mundo, ou melhor, de Asgard. Se a primeira aventura de Thor foi criticada pelo tom solene (que eu adoro), quase shakespeariano (cortesia do diretor Kenneth Branagh) e o baixo apelo do filme gerou o confuso Thor: O Mundo Sombrio/2013, mas o resultado foi pior que o esperado. Ali a Marvel já pensava em investir em gêneros diferentes para seus filmes, o que foi consolidado com os bem-humorados Guardiões da Galáxia (2014) como aventura de Ficção Científica e Homem-Formiga (2015). No fim das contas, o humor foi a saída para Thor e sua turma, já que ao escalar Waititi, a Marvel não teve pudores de fazer sua comédia rasgada de herói – o que chega a ser uma ousadia, já que os fãs da editora já começaram a se manifestar com as piadinhas recorrentes do universo cinematográfico da editora. No entanto, diante do sucesso de Thor Ragnarok, parece que o Deus do Trovão finalmente encontrou o seu caminho da salvação nas bilheterias. É verdade que o filme funciona, é divertido, despretensioso , mas tem como maior desafio não cair no pastiche de um herói já trabalhado em quatro filmes anteriores, neste ponto, Chris Hemsworth demonstra estar totalmente a vontade para trabalhar o personagem com mais humor. Penso que o mais difícil seria um diretor construir uma atmosfera apropriada para isso com um apocalipse iminente, mortes a todo instante, um personagem que é derretido vivo e outro que perde o olho. A sorte é que Waititi dá conta do recado com seu visual colorido, as piadinhas de matinê, uma vilã deliciosa e Led Zeppelin de trilha sonora. O resultado pode não ser genial, mas consegue ser, ao menos, equilibrado. Para começar a resolução do gancho deixado em O Mundo Sombrio não empolga e é resolvida logo no segundo ato do filme (que também é o mais aborrecido - deixando claro que eles não faziam a mínima ideia do que fazer ao terminarem a segunda aventura). Logo depois começa o que interessa com a chegada de Hela, a primogênita de Odin (Anthony Hopkins) que retorna de seu exílio forçado para dominar Asgard – nem que para isso tenha que eliminar boa parte da população. Responsável por dar vida à Hela, Cate Blanchett está visivelmente se divertindo bastante com a personagem (só espero que ela tenha chance de voltar em outros filmes e aproveitar ainda mais todo o potencial da Deusa da Morte). Diante dela, até o charme de Loki (o ótimo Tom Hiddleston, insolente como sempre) parece menor – mesmo porque o roteiro insiste em repetir a rotina de atos do personagem como um círculo vicioso. Ao lado desta pendenga familiar (que era o grande ponto do primeiro filme), o roteiro amplia generosamente o universo dos personagens, os tratando menos como deuses e mais como alienígenas num cosmo marvelesco em expansão. Há muito do visual e do humor de Guardiões da Galáxia no filme, especialmente quando está em cena o Grandmaster (Jeff Goldblum em mais um icônico personagem) em seu passatempo de criar lutas para o entretenimento do seu povo que vive num planeta lixão - que cultua Hulk (Mark Ruffalo), em analogia ao clássico Planeta Hulk – e acolhe a misteriosa Valkyria (Tessa Thompson). Enfim, com todas as suas camadas e personagens, Thor: Ragnarok é a brincadeira dos sonhos de Taika Waititi com suas action figures de infância. A sorte é que ele nos convidou para assistir seu devaneio bastante criativo. 

Blanchett: a irmã malvada!

Thor: Ragnarok (EUA-2017) de Taika Waititi com Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Mark Ruffalo, Tessa Thompson, Jeff Goldblum, Idris Elba, Anthony Hopkins, Benedict Cumberbatch e Matt Damon. ☻☻☻

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

4EVER: Márcia Cabrita

20 de janeiro de 1964 ✰ 10 de novembro de 2017

Filha de imigrantes portugueses, Márcia Martins Alves nasceu na cidade Niterói (RJ) e incorporou o nome de Márcia Cabrita na carreira de atriz. Embora tenha estreado na televisão na minissérie Noivas de Copacabana em 1992, Márcia ficou famosa foi no teatro com o espetáculo Subversões, onde ao lado dos amigos Luís Salém e Aloísio de Abreu provocava risadas transformando O Amor e o Poder de Rosana em "Meu Nome é Creuza" e Para Todos de Chico Buarque em "Barra Todos" em deliciosas paródias que fizeram história no humor nacional. Cabrita também será lembrada como a empregada Neide do humorístico Sai de Baixo, que se firmou como seu maior sucesso na televisão. Entre peças, séries e novelas, Márcia também apareceu poucas vezes nas telonas, com apenas cinco filmes no currículo fez sucesso com Trair e Coçar é Só Começar (2006) e O Diário de Tati (2012). A atriz faleceu em consequência de um câncer no ovário. 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

10+: Holly Hunter

#10 "Crash - Estranhos Prazeres" (1996) de David Cronenberg
Holly Hunter nunca esteve muito interessada em fazer personagens convencionais, prova disso é que depois de ter um Oscar na estante ela escolheu a proposta de trabalho mais estanha possível: uma mulher que tem fetiche por pessoas marcadas por acidentes de carro. 

Aqui ela é um  anjo da guarda hardcore, afinal é o primeiro filme americano do diretor de Trainspotting. Em dupla com Delroy Lindo ela confundiu muitos espectadores que acharam que os dois eram assassinos profissionais na trama (e na concepção original a ideia era esta mesmo). 

#08 "E aí, Meu Irmão, Cadê Você?" (2000) de Joel e Ethan Coen
Quem seria melhor para viver Penélope na transposição de A Odisseia para o sul americano? Holly Hunter, claro! Obviamente que sua Penélope, ou melhor, Penny, não ficou o tempo todo costurando esperando o marido, mas preparando cada fala que ele iria ouvir... e ele ouviria muito... muito...

#07 "A Firma" (1993) de Sydney Pollack
Ah, os anos 1990! Naquela época os livros de John Grisham eram disputados pelos estúdios a peso de ouro! Neste aqui, protagonizado por Tom Cruise, a atriz viveu a secretária esperta (e cafona) que serve de alívio cômico para a história -  e foi indicada ao Oscar de atriz coadjuvante. 

O filho de Gabriel Garcia Marquez estreou como cineasta juntando um grupo de ótimas atrizes em tramas paralelas que se cruzam. Holly Hunter foi responsável por encarnar Rebecca, uma mulher solitária em dúvida sobre o que fazer com uma gravidez indesejada. 

#05 "Aos Treze" (2003) de Catherine Hardwicke 
Indicada ao Oscar de coadjuvante mais uma vez, a atriz interpreta a mãe de uma adolescente que enfrenta problemas com sexo, drogas e crimes ao lado de uma problemática melhor amiga. O filme marcou a estreia de Evan Rachel Wood no cinema e se tornou um polêmico sucesso nos cinemas. 

#04 "Nos Bastidores da Notícia" (1987) de James L. Brooks
Há quem considere que este filme envelheceu mal com o passar do tempo, mas eu continuo rindo sempre que revejo o olhar ácido sobre os telejornais americanos - com um triângulo amoroso no meio. Holly é a ponta do tal triângulo e você nunca irá esquecer a "terapia do choro" da personagem (que lhe rendeu a primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz).  

O fato é que Holly Hunter tem uma das vozes mais marcantes do cinema e basta fechar os olhos para saber que a Srª Incrível, ou Mulher Elástica, é responsável por uma das melhores interpretações da atriz. O filme irá render a primeira continuação da carreira dela. 

#02 "Arizona Nunca Mais" (1987) de Joel e Ethan Coen
Contando a história de uma policial e um bandido que se apaixonam na delegacia você até imagina o que pode acontecer: eles irão roubar um bebê. Esta talvez seja a comédia mais emblemática da carreira dos irmãos Coen - e Holly está saborosamente cômica como a policial Edwina. 

O filme de Jane Campion é motivo para que a atriz seja constantemente lembrada entre as melhores atuações da história do cinema. Sua performance como Ada, mulher que parte para os cafundós da Nova Zelândia para se casar contra sua vontade é de uma beleza ímpar - e ainda tem aquela cena que fica na sua memória para o resto da vida que lhe rendeu o Oscar daquele ano. 

PL►Y: Tempo Estranho

Holly: construindo a verdade que dói. 

Darcy Baylor é uma assistente administrativa do estado da Georgia. Aos cinquenta e poucos anos ela tenta não perder o emprego e suportar a intensa onda de calor da região (além de cuidar de seu jardim em meio às restrições no uso de água). Darcy também se considera um "espírito livre", tendo dificuldades para lidar com romances e ainda carrega a tristeza da morte prematura do filho. Embora tente demonstrar que já superou a morte do rapaz, tudo cai por terra quando ela descobre que um amigo do filho está fazendo uma verdadeira fortuna com venda de hot-dogs com uma ideia que era inicialmente do falecido. Baylor decide então ir ao encontro do tal amigo traíra e fazer justiça à memória do filho, mas no meio do caminho irá descobrir mais do que desejava sobre o seu menino de ouro. Tempo Estranho está longe de ser uma obra-prima, na verdade, ele mal chega a ser original, mas tem alguns pontos positivos. Um deles é sua ambientação no calor sulista dos Estados Unidos, com muito suor e pouca água, num ambiente bastante interessante para as mágoas e segredos de seus personagens. Outro ponto positivo é a presença de atrizes realmente comprometidas com o trabalho, a começar por Holly Hunter, que raras vezes pode estar tão à vontade com seu sotaque sulista (da própria Georgia). Hunter explora as camadas de Darcy com um destemor notável, partindo de tudo o que a personagem tem de exagerado para revelar toda a dor que se esconde abaixo deste disfarce superficial, a personagem se enriquece aos poucos ao descobrir que o filho era uma pessoa bem diferente do que ela imaginava, ou talvez, pelo caminho, apenas aceite  o que antes se recusava a enxergar - e esta é a parte mais interessante da história. Neste ponto, até o físico da atriz casa perfeitamente com a personagem, conjugando força e fragilidade em cada cena. Outro destaque do elenco é Carrie Coon, que já está entre as atrizes mais interessantes da atualidade, Carrie está segura em cena e nada intimidada de encarnar a voz da consciência da protagonista. São as duas que compensam algumas irregularidades na condução da diretora Catherine Dieckman, que sobrecarrega o filme de algumas ideias que simplesmente não seguem em frente. Dieckman ficou famosa fazendo clipes da banda R.E.M. (ela dirigiu "Stand" e "Shiny Happy People") e depois de trabalhos na TV chega ao seu quarto filme na direção amparada por bons atores que fazem um roteiro esquemático ser até interessante. 

Tempo Estranho (Strange Weather/EUA-2016) de Catherine Dieckman com  Holly Hunter, Carrie Coon, Kim Coates, Walker Babington, Turner Crumbley e Shane Jacobsen. ☻☻☻

domingo, 5 de novembro de 2017

PL►Y: Chet Baker - A Lenda do Jazz

Hawke: melhor atuação de seu currículo. 

Alguns críticos perceberam chances de Ethan Hawke ser lembrado nas premiações pela atuação neste longa metragem do canadense Robert Budreau. Quando Born to be Blue começou a ser exibido em festivais, foi ressaltada a forma peculiar de contar um pouco da história do jazzista Chet Baker, os elogios logo começaram a aparecer, mas o filme acabou esquecido pelos distribuidores e restrito ao lançamento discreto em poucas salas nos Estados Unidos. Inédito nos cinemas brasileiros, agora podemos assistir via streaming este belo trabalho de Hawke, que está em um dos seus melhores momentos como o músico de vida cheia de tropeços. O roteiro do próprio cineasta recria uma retomada na carreira  do lendário instrumentista em meados dos anos 1960, onde já enfrentava problemas com a polícia e com o vício em drogas pesadas. A trama conta a tentativa de se fazer um filme sobre a vida de Baker estrelado pelo próprio, as cenas em preto e branco correspondem a esta dramatização e as coloridas são os bastidores da vida real - em que  Chat começa a se envolver com sua co-estrela (Carmen Ejogo) - que lembra muito sua ex-mulher, Carol Baker. O filme é narrado entre  a ficção e a realidade numa bela tentativa de fazer uma biografia fora da cartilha do gênero e funciona! O relacionamento amoroso do filme está lá realmente para mostrar um lado diferente do biografado, que além do vício em drogas enfrentou problemas com a dentição desde pequeno e, no decorrer da vida, teve que se acostumar com uma prótese que lhe provocava dores e sangramentos quando tocava - ao ponto dos médicos considerarem que jamais seria capaz de tocar novamente. Além de enfrentar problemas pela reputação, morar numa kombi com a amada e ter que provar que seria capaz de dar a volta por cima, o filme aborda ainda o relacionamento do músico com os pais, com a música e apetite sexual sem sensacionalismos, mas dificilmente tudo funcionaria se Ethan Hawke não estivesse ótimo em cena! Ele capta o modo do personagem falar, andar e tocar, fazendo com que as belas músicas que costurem a narrativa de maneira exemplar (destaque para a maravilhosa My Sweet Valentine que rende um dos momentos mais emocionais do filme) e acentua ainda mais a melancolia da trajetória deste gênio da música. Sempre achei Hawke um ator mediano, mas de uns tempos para cá, ele demonstra que a maturidade (está com 47 anos) lhe fez muito bem. Há de se destacar ainda que Carmen Ejogo mostra-se mais uma vez uma atriz que merece toda a nossa atenção e até o pouco lembrado Callum Keith Rennie está muito bem como o empresário amigo do protagonista. O título Chet Baker - A Lenda do Jazz pode se tornar uma armadilha para alguns, já que o tom grandiloquente tem pouco a ver com o tom intimista do filme, que está bem mais próximo do original Born to be Blue (Nascido para ser Triste). Se você quer conhecer mais sobre a vida do músico, vale procurar o documentário Let's Get Lost (1988) que foi indicado ao Oscar pelo belo trabalho de entrevistas com familiares e amigos do trompetista. 

Chet Baker - A Lenda do Jazz (Born to Be Blue / Canadá, Reino Unido - 2016) de Robert Budreau com Ethan Hawke, Carmen Ejogo, Callum Keith Rennie e Kevin Hanchard. ☻☻☻

.Doc: Spielberg

Spielberg: a construção de um mito. 

Lá pela metade do documentário sobre o diretor Steven Spielberg alguém diz que ele revolucionou o cinema. Os mais críticos vão achar que é puro puxa-saquismo, mas a afirmação está longe de ser um engano. Quando Spielberg fez de Tubarão (1975) um sucesso, depois da conturbada, com orçamento ultrapassado, cronograma estourado e todo tipo de dificuldade que filmar no mar possa gerar, nascia ali uma forma diferente de pensar, fazer e lançar um filme. Depois de Tubarão o verão americano nunca mais foi o mesmo, assim como os filmes de entretenimento. Foi com o trabalho de Steven Spielberg que a expressão arrasa-quarteirão (ou blockbuster) ganhou sentido,  assim como o avanço de efeitos especiais para garantir o espetáculo na tela grande. É verdade que ao abrir esta porta a percepção do cinema para o público também foi alterado para sempre, assim como para os produtores que criaram uma nova fórmula para gastar e gerar lucro. Por todo o impacto provocado pela sua forma de fazer cinema, torna-se mais do que compreensível que exista um documentário sobre este diretor, produtor e roteirista. Nascido em 1946 no estado de Ohio (EUA), Steven Allan Spielberg é o foco deste trabalho da produtora Susan Lacy, que conta com com entrevistas do diretor, familiares (curiosamente a esposa Kate Capshaw ficou de fora), amigos e colegas de trabalho que são pistas sobre a identidade de um verdadeiro workaholic que não para de trabalhar! O filme ainda se beneficia bastante do uso de imagens dos filmes do diretor, que se tornam o grande destaque do documentário , que vão das ambições do menino que fazia filmes na infância antes de crescer e fazer trabalhos para a TV, foi com seu primeiro longa na telinha, Encurralado (1971), que lhe obteve prestígio suficiente para migrar para o cinema. O filme não mostra como é curioso que, aos poucos, o diretor encontrou a necessidade de fazer filmes sérios, surpreendendo a grande maioria de seus fãs. Foi assim que surgiram o excelente A Cor Púrpura (1985), o fracasso Império do Sol (1987) - que revelou Christian Bale - e o esquecido Além da Eternidade (1989) que nem é mencionado neste documentário - esta é outra curiosidade desta homenagem da HBO, já que outros filmes problemáticos do diretor passam batido (como O Mundo Perdido/1997 e O Terminal/2004, enquanto Hook - A Volta do Capitão Gancho/1991 e As Aventuras de Tintin/2011 aparecem em poucos segundos, mas... quem liga?). Quem curte cinema vai delirar com a parte em que se aborda a amizade entre Spielberg, Scorsese, Coppola, George Lucas e DePalma, um grupo de cineastas amigos que ajudou a dar uma nova cara ao cinema americano nos anos 1970. O filme é bem mais discreto quando o assunto é a vida pessoal do diretor, no entanto, ainda é capaz de  vermos de onde nasce as motivações para o retrato da família americana em seus filmes, além de sua dificuldade em se posicionar quando aborda temas polêmicos em seus filmes - Munique (2005) é o melhor exemplo destacado no filme, talvez Spielberg ainda não tenha superado sua necessidade de agradar a todo mundo (o que é previsivelmente impossível). Ao final do documentário temos uma dimensão dos motivos que fizeram Spielberg se tornar um diretor que deu ao entretenimento o nível de arte, traçando um patamar para tantos outros diretores que surgiram após seus primeiros trabalhos. 

Spielberg (EUA-2017) de Susan Lacy com Steven Spielberg, Martin Scorsese, Brian DePalma, George Lucas, Leonardo DiCaprio, JJ Abrams e  Richard Dreyfuss. ☻☻☻

sábado, 4 de novembro de 2017

APOSTAS PARA O OSCAR 2018-CAPÍTULO II

"Trama Fantasma" de Paul Tomas Anderson
Ameaçar a aposentadoria de Daniel Dey Lewis pode até ser estratégia de marketing, mas  funciona que é uma beleza! Tão logo começou a se falar a aposentadoria de um dos poucos atores a ganhar três estatuetas do Oscar, o novo filme de PT Anderson chamou atenção da mídia por ser "o último" da carreira do ator. No filme ele vive um estilista que se apaixona por uma jovem modelo numa trama cheia de conflitos. No elenco ainda está a ótima atriz inglesa Lesley Manville. 

"The Killing of a Sacred Deer" de Yorgos Lanthimos
Ainda que seja um diretor grego e de estilo amargo, os dois últimos trabalhos de Lanthimos foram indicados ao Oscar - e diante dos elogios que este vem recebendo, não será diferente. Desta vez ele aborda a história de um renomado cirurgião que possui uma estranha relação com o filho de um ex-paciente. Ele nem imagina que a proximidade com o rapaz irá destruir sua família. No elenco estão Colin Farrell, Nicole Kidman, Alicia Silvertone e Barry Keoghan, todos elogiadíssimos.

"Stronger" de David Gordon Green
Depois de tanto tempo sendo esnobado pela Academia em bons papéis, parece que Jake Gyllenhaal encontrou o roteiro certo para ser indicado pela primeira vez ao Oscar de melhor ator! Neste drama baseado em fatos reais, Jake vive Jeff Bauman, um homem comum que se tornou símbolo de sobrevivência ao ser uma das vítimas do atentado em Boston em 2013. No elenco ainda estão Miranda Richardson e Tatiana Maslany entrando pela porta da frente em Hollywood. 

"Lady Bird" de Greta Gerwig
A elogiadíssima estreia da atriz Greta Gerwig mistura episódios de sua vida pessoal, piadas inspiradas em Woody Allen, o estilo do namorado Noah Baumbach e um toque bastante esperto. A trama é sobre  Christine McPherson, jovem de gosto incomum que se aventura a viver um ano no norte da Califórnia enquanto se divide num triângulo amoroso e o curso de teatro. O filme deve ser um dos indies a aparecer no Oscar e deve valer outra indicação (a terceira) para Saoirse Ronan. 

A Guerra dos Sexos  de Jonathan Dayton & Valerie Faris
Olha ela aí de novo! Emma Watson escapa da maldição do Oscar ao viver o mito Billie Jean King,  tenista que em 1973 era a número um do mundo e participou de uma partida ao lado do ex-campeão e canastrão Bobby Riggs (Steve Carrell). O roteiro explora as discussões em torno da partida utilizando o bom humor para abordar assuntos bastante sérios sobre a eterna guerra do título. Já em cartaz no Brasil, o filme recebeu muita atenção nos EUA e deve aparecer em algumas categorias do Oscar.  

Breve: A Ghost Story

Rooney e Casey: casal intimista outra vez. 

Bastou A Ghost Story ser exibido em Sundance para se tornar num filme cult instantâneo. O motivo para isso você logo descobre ao assistir, já que o diretor David Lowery fugiu de todas as regras dos romances sobrenaturais a que estamos acostumados. Algo como, mais ou menos, um sujeito pegando o roteiro de Ghost - Do Outro Lado da Vida (este mesmo, o clássico de 1990) retirasse o vilão, a Whoopi Goldberg, a música tema e deixasse somente a essência do filme: um homem que morreu cedo demais e tenta se comunicar com sua amada viva. No entanto, ainda existe a diferença de levar a história para outros campos, tornando-o mais melancólico e cores distintas de originalidade ao não utilizar palavras para que seu fantasma transmita toda a angústia de sua existência fantasmagórica. Lowery cumpre sua tarefa com bastante estilo, não hesitando de colocar o protagonista "oscarizado" coberto por um lençol branco na mais tradicional concepção de um fantasma. Casey Affleck vive o protagonista que morre pouco depois de se mudar para uma casa com a namorada (Rooney Mara), mas, quando a luz aparece para ele no hospital, ele prefere continuar habitando a casa, a observando e percebendo como falta um pedaço naquele lar. Nesta parte o roteiro lida com o luto da namorada, onde tudo reflete a ausência dele e se uma cena parece desnecessária, logo depois o diretor mostra porque ela estava ali (preste atenção na trilha sonora composta por Daniel Hart que é um verdadeiro achado e merecia uma indicação ao Oscar pelo seu trabalho). O filme utiliza de forma inusitada a ideia de uma casa mal assombrada e aprofunda a tristeza de sua história ao mostrar que o rapaz não é o  único fantasma a vagar por aí esperando alguém. Outro destaque é o trabalho de edição, que monta a passagem do tempo com uma eficiência surpreendente entre segredos e detalhes. Não se trata de um filme para todos os gostos - muita gente vai achar a cena da torta longa demais (e é mesmo, apesar de ao ver a imagem de Rooney Mara você já imagina o que acontecerá no final), tem gente que dará risada no corte temporal que leva o fantasma ao passado, irá reclamar da mensagem secreta deixada pela namorada e por aí vai... mas  quem procura um filme diferente ficará bastante satisfeito com o romantismo inusitado que transborda do filme.

A Ghost Story (EUA-2017) de David Lowery com Casey Affleck, Rooney Mara, Sonia Acevedo, Barlow Jacobs e Kesha Sebert. 

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

PL►Y: Demolição

Naomi e Jake: bom só pela metade. 

Jim é um corretor casado com a filha do chefe. Tem uma bela casa, um belo carro, belas roupas e um cuidado quase excessivo com a aparência. Quando ele aparece na primeira cena conversando com a esposa, o maior problema de suas vidas parece ser a geladeira que está pingando. Parece. Após uma armadilha do destino, Jim começa a perceber a vida de uma forma diferente, mas voltando-se cada vez mais para dentro de si, ele se depara com um imenso vazio. Nada do que construiu até ali tem valor, sua formação se deu graças a um amigo que lhe ajudava mais do que devia, a casa confortável se confunde com um conjunto de objetos sem sentido e as relações pessoais no trabalho também não tem muito significado. O estranho é que ao mesmo tempo ele passa a perceber detalhes cotidianos que antes não tinham importância, tornando tudo ao seu redor numa grande metáfora (seja a geladeira que pinga ou uma árvore que foi arrancada pelo vento) o mundo de Jim está prestes a implodir. O campo da metáfora é o território deste último filme de Jean Marc-Valée, diretor que ficou na mira do Oscar com seus trabalhos anteriores (Clube de Compras Dallas/2013 e Livre/2014), que garantiram indicações ao Oscar para seus atores. O papel de Jim não valeu indicação para Jake Gyllenhaal, mas ele precisa dar conta de uma tarefa complicada por aqui, principalmente porque Demolição funciona bem mesmo só na primeira parte. Aos poucos Jim revela uma curiosidade pitoresca por mecanismos, um desejo de saber como tudo funciona, por isso mesmo ele desenvolve uma compulsão por desmontar tudo o que atravessa o seu caminho. Talvez o seu comportamento revele o quanto gostaria de desmontar a si mesmo e perceber o que tanto lhe incomoda, no entanto, é bem provável que não encontre. Essa busca por respostas e motivações é destacada pelo trabalho do diretor e especialmente pela montagem no primeiro ato, com cortes bem encaixados e palavras que se repetem na boca do protagonista como se buscassem sentido numa fluência original da narrativa. O problema é quando Jim começa a amizade com uma mulher que trabalha no serviço de atendimento a clientes de uma empresa. O relacionamento poderia aprofundar as inquietações do personagem, mas faz o oposto, seguindo por caminhos que são bem menos interessantes do que o início da história sugeria. Embora Naomi Watts seja uma boa atriz, ela não tem muito o que fazer com uma personagem mal escrita e sem muito o que fazer em cena além de fumar maconha e ser mãe de um adolescente (que também ainda não sabe direito quem é). Aos poucos Jim parece ser apenas um inconsequente, um homem que recusa-se a crescer e procurar um rumo e o que poderia ser uma, mais uma vez, metáfora sobre a ilusão do bem-estar de uma pessoa bem sucedida, torna-se um filme meio desengonçado. Não há novidade em dizer que Marc-Valée consegue manter bom ritmo na narrativa (embora eu considere que ele leve a sério demais o que deveria ser uma "comédia existencialista maluca"), mas é inevitável a sensação de que a história já tinha acabado na metade da sessão. Assim como seu protagonista, o filme fica sem saber para onde ir ou o que fazer, assim, chega ao final se rendendo a revelações que justificariam a inquietação do personagem (só que não) e o choque provocado pelo mundo real com o que você escolhe ser. Pode ser até um ponto "para emocionar" da trama, mas que não deixa de ser frustrante para um filme que desejava ter o frescor da originalidade. 

Demolição (Demolition/EUA-2016) de Jean Marc-Vallée com Jake Gyllenhaal, Naomi Watts, Chris Cooper, Judah Lewis, C.J. Wilson e Heather Lind. ☻☻ 

PL►Y: Sangue Pela Glória

Teller e Eckhardt: boxeador de respeito. 

A crítica americana sempre se entusiasma quando tem algum filme sobre boxe prestes a estrear na temporada de prêmios. Embora vários tenham passado em branco, sempre que surge na tela um lutador em sua jornada pessoal dentre e fora dos ringues o povo se anima. Ano passado foi a vez do diretor Ben Younger (do bom O Primeiro Milhão/2000) lidar com esta expectativa ao lado do ator Miles Teller. Teller chamou atenção por seu papel no ótimo Whiplash/2014 e desde então tenta se manter como um jovem astro confiável e, pelo que faz aqui, ele realmente merece ser levado a sério. Além de mudar o físico, com o ganho de massa muscular para viver o campeão de boxe Vinny Pazienza, Teller tem bons momentos na pele do lutador que surpreendeu o mundo a se recuperar de um acidente que quase o impossibilitou de andar. Logo no início do filme, o maior desafio de Vinny era se manter com o peso apropriado de sua categoria. Afim de melhorar ainda mais o seu desempenho, ele aceita a proposta de seu novo treinador (Aaron Eckhardt, completamente diferente) de ganhar peso e mudar de categoria. Somente esta ideia já gera conflitos na família do lutador (o pai é vivido por Ciarán Hinds e a mãe por Katey Sagal), mas quando tudo parece voltar aos eixos surge um acidente para mudar o destino de Vinny. Com a coluna fragilizada, ele precisa atravessar um longo período de recuperação (seis meses) com parte do corpo imobilizado e repouso quase absoluto, mas ele não perde a esperança de poder voltar aos ringues. A história de Vinny em si já parece coisa de filme e, se você conhece a história original, já sabe como termina, seja pelo inusitado retorno aos treinos ou dificuldades de voltar às lutas como gostaria. O resultado é interessante, mas Younger faz um trabalho dentro de sua zona de conforto, sem ousadias ou maiores polêmicas sobre o biografado. O foco está totalmente no protagonista e isso ajuda a narrativa a se desenvolver sem maiores problemas, mas o roteiro poderia ser um pouco mais elaborado - assim como as cenas de luta que não chegam a empolgar. Pena que a maioria dos personagens não possui grande funcionalidade, já que não é todo dia que se vê Katey Sagal (a Peggy do antológico seriado Um Amor de Família) num papel sério no cinema. Sorte que Miles Teller consegue carregar o filme nas costas, ou seria no muque? O moço está bem diferente dos tipos adolescentes que vive desde a sua estreia em Reencontrando a Felicidade/2010, conseguindo imitar o jeito e até o sotaque do biografado. Além disso, o ator tem algo em comum com o personagem, já que também se envolveu em um acidente de carro que quase o impossibilitou de andar (e por isso seu rosto ainda possui cicatrizes). Sangue pela Vitória é o primeiro papel de gente grande do rapaz que pode ter ficado de fora da lista de prêmios da última temporada de ouro, mas que prova ter talento para ser lembrado futuramente. 

Sangue Pela Vitória (Bleed for This/EUA-2016) de Ben Younger com Miles Teller, Aaron Eckhardt, Ciarán Hinds, Katey Sagal, Ted Levine, Tina Casciani e Daniel Sauli. 

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Combo: Canibal

05 Raw (2016) Abordar canibalismo é sempre algo que por si só já pode causar náuseas, mas a diretora estreante Julia Ducournau  se supera e consegue revirar ainda mais o estômago do espectador - mesmo daqueles mais experientes em filmes do gênero. Sua história sobre uma garota vegetariana, que em meio ao estresse da entrada na na faculdade de veterinária, descobre uma estranha atração por carne crua (especialmente a humana) é um primor de ousadia! Tanto que é capaz de tirar o apetite de qualquer um! Apesar de todo o estilo, o filme pode ser visto apenas como um filme sobre auto-descoberta e construção da identidade (ainda que por caminhos inusitados)

04 Somos o que Somos (2013) Este filme só perde pontos por ser uma refilmagem de um interessante filme mexicano, mas que retira boa parte do que tornava o original tão interessante. O filme conta a história de uma família que possui hábitos milenares que precisam ser satisfeitos a qualquer custo, no entanto, com a morte da matriarca, a família perde o equilíbrio e tudo pode ser descoberto quando a polícia local começa a desconfiar do que encontra após uma enchente. Com estilo dark e atmosfera sutil, o filme perde pontos quando descamba para uma obra trash sem vergonha.

03 Canibal (2013) Imaginem um alfaiate educado, de boa aparência, elegante, mas que também é calado, misterioso e recluso. Some a essas características o olhar de quem está sempre à espreita, mas que sempre tenta se conter... um verdadeiro predador domesticado, ou quase? Agora imagine que uma garota que procura a irmã que desapareceu sem deixar vestígios que se apaixona por este alfaiate num jogo de amor platônico e perigoso. Este é o enredo deste drama que ganha contornos de suspense (ou seria o contrário) que hipnotiza pela atmosfera envolvente e excelente atuação de Antonio de La Torre. Imperdível!

02 Somos o que Somos (2010) Este filme mexicano chamou tanta atenção que ganhou uma versão americana sobre a família que mantem a antiga tradição dos ancestrais: alimentar-se de carne humana. A diferença entre o original e a segunda versão é o verniz de crítica social que está sempre presente neste aqui, afinal, no cardápio da família estão sempre grupos sociais marcados pela exclusão (os sem tetos, prostitutas, homossexuais...) e que eles acreditam que jamais terão a ausência sentida (ou se sumirem acreditarão ser por conta do preconceito ou da violência urbana,). Os problemas só crescem quando o patriarca morre e o filho mais velho precisa ser o provedor da casa - e seus gostos começam a atrapalhar a rotina da casa. 

01 O Silêncio dos Inocentes (1991) Se houve um filme que provou que canibalismo pode ser abordado sem cair no ridículo, de forma sutil e realmente assustadora foi esta obra-prima de Jonathan Demme. Inspirado no livro de Thomas Harris, ele marcou a história do cinema por sua abordagem sugestiva e a presença de um dos personagens mais marcantes do cinema: Hannibal Lecter (atuação antológica de Anthony Hopkins). Um verdadeiro gentleman que esconde hábitos bastante estranhos e serve de consultor para o FBI. O filme ganhou os cinco principais Oscars (filme, direção, ator, atriz e roteiro), inspirou toda uma geração de cineastas e deu origem a novos filmes, livros e série de TV (onde Mads Mikkelsen encarnou Lecter de forma saborosa). 

terça-feira, 24 de outubro de 2017

PL►Y: Raw

Garance: batismo de sangue.  

Pode se dizer que os filmes de horror vivenciam uma renovação nos últimos anos, embora continuem existindo os tradicionais filmes de serial killers, existem cada vez mais produções que buscam a construção de climas e atmosferas que se diferem pela sutileza. Raw (ou Grave no título original) é um destes casos. Embora invista em algumas cenas bastante explícitas, Raw investe no horror psicológico sem perder a capacidade de revirar o estômago. Depois de fazer sucesso em alguns festivais (e se fazer muita gente passar mal no Festival de Toronto) e ganhar até alguns prêmios,  A protagonista do filme é a jovem Justine (Garance Marillier), que acaba de ser aceita numa prestigiada faculdade de veterinária - a mesma frequentada pela irmã, Alexia (Ella Rumpf). Não bastasse todo o estresse de ingressar na rotina de estudos, Justine ainda tem que lidar com aquelas brincadeiras estúpidas conhecidas como trote (e o filme é praticamente um inventário de ideias do gênero) e o contato com animais de uma forma, digamos, “ incomodamente técnica”. O fato de Justine ser criada numa família de vegetarianos torna sua inadequação ainda maior durante este período de transição. As coisas pioram de vez no trote em que ela precisa comer um rim de coelho cru e... ela começa a se interessar cada vez mais por carne (sobretudo crua). Dali em diante o apetite de Alexia passa por uma transformação, que afeta sua vida social também - já que o interesse pela carne humana começa a aparecer também. A diretora estreante Julia Ducournau consegue ser bastante ousada no desenvolvimento de sua história, que mistura canibalismo, o ambiente universitário francês e o relacionamento entre duas irmãs que são mais parecidas do que imaginam. Achei muito interessante a opção por sintetizadores na trilha sonora (que parece saída de um filme de vampiro e resulta irônica em vários momentos) e Ducournau consegue construir belos pesadelos narrativos, só que às vezes ela exagera na vontade de criar polêmicas - o que pode cansar um pouco o espectador. Com relação ao elenco, a jovem Garance Miller realiza um belo trabalho ao interpretar uma personagem complicada conciliando sua aparência frágil com a agressividade quase selvagem que domava por tanto tempo. Cheio de detalhes, o roteiro tem algo do mexicano Somos o que Somos (2010), mas a  abordagem de que havia algo adormecido dentro de Justine lembra os conflitos de  Carrie – A Estranha/1976 (e a referência fica mais forte com a cena do “banho de sangue” logo no início do filme). 

Raw (Grave / França - Bélgica - Itália / 2016) de Julia Ducournau com Garance Marillier, Ella Rumpf, Rabah Nait Ofella, Laurent Lucas e Joana Preiss. ☻☻☻

PL►Y: Aliados

Marion e Brad: romance de espionagem. 

Você já teve impressão que alguns diretores entram num processo de crise de identidade? Não estou nem dizendo que precisa ser como aqueles cineastas obsessivos que repetem até as fontes dos créditos de seus filmes (como o Sr. Woody Allen), mas estou falando de pessoas como Robert Zemeckis. O cinema de Zemeckis tinha uma marca bastante específica em filmes como De Volta Para o Futuro/1985 ou A Morte lhe Cai Bem/1992. Seu talento lhe valeu até um Oscar por Forrest Gump/1994 e a oportunidade de repetir a parceria com Tom Hanks em Náufrago/2000. Subitamente ele se rendeu às tecnologias e fez algumas animações que chamavam mais atenção pelas técnicas do que propriamente por suas narrativas. Em 2012 ele deixou a animação de lado e lançou Voo estrelado por Denzel Washington. Embora o filme tenha recebido elogios, aquele não era o Zemeckis dos velhos tempos. Havia ali o esforço de ser denso, de arrancar lágrimas da plateia e ser alguma outra coisa que seu cinema dos anos 1990 não se preocupava tanto. Neste sentido, A Travessia/2015 conseguia ser bem mais próximo do tom jovial do auge da carreira do cineasta, pena que as novas ambições do diretor voltaram no ano passado quando Zemeckis lançou Aliados, filme estrelado por Brad Pitt e   a oscarizada Marion Cotillard. Obviamente que ninguém junta astros deste para nada (juntos eles  somam sete indicações ao Oscar) e o estúdio ficou tão animado que colocou o filme para estrear ao lado dos pesos pesados da temporada de premiações. Não era para tanto. O filme conta a história do agente da inteligência Canadense Max Vatan (Pitt) que é escalado para trabalhar com uma aliada da Resistência Francesa, Marianne Beauséjour (Cotillard) no início da Segunda Guerra Mundial. Os dois precisam fingir que formam um casal enquanto tecem planos para eliminar um ministro nazista. A primeira parte do filme se dedica à missão, bem... mais ou menos, já que está mais preocupado em explorar a atração que surge entre os dois (com direito a uma cena de tempestade de areia que fez muita gente suspirar no cinema). Na segunda parte a coisa complica, já que existe a suspeita de que a francesa é na verdade uma espiã alemã. Deste ponto em diante o filme se enrola em colocar Vatan num dilema (mata a mulher que ama ou não?) e coloca Marianne em frases, caras e bocas ambíguas até a cena final. O interessante é que embora seja bem produzido, a história do casal de espiões que se apaixona e tem o casamento colocado em risco não tem nada demais. Brad Pitt e Cotillard fazem o que podem para deixar o filme interessante, mas a profundidade que Zemeckis desejava nunca se concretiza por ter um roteiro que parece ter sido tão alterado que diluiu boa parte da densidade que existia ali. No fim das contas, Aliados é um romance de espionagem que venderam como uma mistura de Casablanca/1942 e Sr. e Sr.ª Smith/2005 - se a mistura já soa estranha como referência, imagina numa tela de cinema! No geral, o filme tem algumas cenas de ação ambiciosas, uns beijinhos, cenas melodramáticas, boa reconstituição de época, figurinos elegantes (indicados ao Oscar) e bons atores em personagens nem tanto, mas consegue ser um bom filme de entretenimento - e não há problema algum nisso, o problema está mesmo em Zemeckis tentar ser outro cineasta depois de tanto tempo. 

Aliados (Allied / Reino Unido - EUA / 2016) de Robert Zemeckis com Brad Pitt, Marion Cotillard, Jared Harris, August Diehl,Lizzy Caplan e  Matthew Goode.