quarta-feira, 25 de abril de 2012

DVD: Tokyo Godfathers

Gil, Myiuki e Hana: um simpático conto natalino. 

Neste final de semana assisti a animação Tokyo Godfathers e me deparei com uma grata surpresa. Não sei se é comum entre os cinéfilos, mas sempre que vejo a palavra Godfather imagino que é algum filme sobre máfia (para quem não lembra The Godfather é o nome original de O Poderoso Chefão) e acabo esquecendo o sentido original da palavra: padrinho. Tokyo Godfathers é uma belíssima animação, com um cuidado que transcende a estética do traço irrepreensível, a profundidade dos personagens é espetacular! Em diversos momentos eu esqueci de que estava diante de um desenho animado graças à saga de fim de ano de um trio de mendigos japoneses muito bem intencionados. O barbudo Gil, a adolescente Miyuki e a travesti Senhorita Hana vivem na capital japonesa e em meio ao clima de fim de ano (e todas as reflexões cabíveis em alguém que vive nas ruas, longe da família com fome e frio), Hana insiste para que encontrem um presente para Myiuki - e acabam encontrando um bebê perdido no lixo. Enrolado num cobertor com algumas fotos e uma chave. Hana, automaticamente adota a criança, alimentando ainda mais seu lado maternal e resolver seus próprios problemas íntimos, mas os outros dois sabem que cuidar de um bebê nas condições que vivem (num barraco de papelão e pedaços de madeira) não será muito fácil, portanto são enfáticos em estabelecer que no dia seguinte eles procurem à mãe da criança. Com muito humor e doses de drama, a jornada em busca da mãe do bebê serve como pretexto para que conheçamos ainda mais a história desses três personagens, os motivos que os guiaram a viver nas ruas, suas tristezas e angústias, ao mesmo tempo que o roteiro os distancia da caricatura. Nessa busca pela mãe desaparecida acabam discutindo os laços que os une numa família anticonvencional e se deparam com o que parece ser a máfia japonesa, investigações policiais e delinquentes (que maltratam os mendigos sobre o pretexto de limpar as ruas). Mas esses momentos mais agressivos são poucos e não chegam a espantar o tom natalino do filme. Na véspera de Natal eles acabam se perdendo pela cidade, enfrentando aventuras e desafios, esbarrando em familiares e amigos importantes em suas histórias de vida. Inspirado claramente no filme O Céu Mandou Algúem (3 Godfathers/1948) de John Ford, o filme mistura magistralmente referências ocidentais  no desenvolvimento dos personagens (como as obras de Charles Dickens), sem perder traços da cultura japonesa. Embora exista aquelas expressões exageradas típicas dos animes (olhos arregalados, bocas gigantes, gestos exagerados) são nos momentos mais sutis das cenas mais significativas que o filme dá conta de seu recado como representante da cultura oriental - olhar cabisbaixo, palavras não ditas, o tom de voz apropriado. O diretor Satoshi Kon demonstra grande habilidade na condução da trama e na mistura de referências num equilíbrio notável - o que se tornou sua marca registrada assim como a exuberância dos planos de fundo. Falecido precocemente em agosto de 2010, aos 46 anos de câncer no pâncreas, o diretor ficou conhecido por longas como Perfect Blue (1997) e Paprika (2006) onde sempre apresentou interesse pela complexidade psicológica dos personagens.

Tokyo Godfathers (Japão/2003) de Satoshi Kon com vozes de Aya Okamoto, Toru Emori e Yoshiaki Umegaki. 

2 comentários:

  1. hun... ele tinha 46 e não 26
    O filme é bom mesmo.

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  2. Valeu, Anônimo! Já corrigi a idade no texto! Apareça mais vezes!

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