terça-feira, 19 de setembro de 2017

PL►Y: Free Fire

Hammer, Brie, Cillian, Sam e Smiley: brincando de resta um. 

Em 1978 um grupo de pessoas se encontram num galpão abandonado para negociar armas com um contrabandista. Cada um desconfia do outro e ninguém parece ser de confiança mesmo, até que por conta de um desentendimento a troca de tiros começa e... segue assim até o final. Resta saber quem irá sobreviver no meio da artilharia que guarda algumas surpresas (que só deixa tudo ainda mais absurdo). Esta é a história de Free Fire, novo longa de Ben Wheatley (do arrepiante Kill List/2011 e do interessante High Rise/2016). Posso dizer que Wheatley merece cada vez mais atenção do público, por mais qu ainda seja um ilustre desconhecido. Aqui existe muito do cinema que fez de Guy Ritchie um diretor conhecido mundialmente por seus filmes de personagens malandros e diálogos espertos, no entanto, vale lembrar, que Ritchie deve muito ao cinema que consagrou Tarantino na década anterior. Hoje nem Ritchie ou Tarantino se dedicam aos tipos urbanos que aparecem em Free Fire e por isso mesmo, ele me pareceu tão divertido e acima da média. Desde a primeira cena podemos perceber que existe uma tensão no ar, seja quando o grupo formado por Chris (Cillian Murphy), Stevo (Sam Riley), Frank (Michael Smiley) e Bernie (Enzo Cilenti) encontra com o elegante Ord (Armie Hammer) ou quando desconfiam que Justine (Brie Larson), a única mulher do grupo, pode ser na verdade uma agente do FBI disfarçada. Chegando no lugar marcado, o encontro com Vernon (Sharlto Copley e sua voz peculiar) todo mundo sabe que a coisa irá por água abaixo, só não imaginamos que seja por conta de uma espécie de... honra familiar envolvendo Stevo. Produzido por Martin Scorsese, Wheatley não parece interessado em levar a situação a sério, sempre contrabalançando o tiroteio com diálogos bem humorados e uma ação constante. É preciso dizer que ele não gasta muito tempo apresentando os personagens, deixando somente que o espectador conheça o básico de cada um deles, e, ainda ssim, escolha alguém para torcer no meio de tantos marginais. Pela energia que se vê na tela, Free Fire ganhou o prêmio do público no Festival de Toronto no ano passado e concorreu ao prêmio de Mellhor Diretor no British Independent Film Award - que também reconheceu o trabalho da diretora de elenco Shaheen Baig pelo ótimo elenco que conseguiu reunir nesta despretensiosa obra. Free Fire pode não ser revolucionário (e nem pretende ser), mas diverte com sua ação quase cartunesca com personagens carismáticos - e bem que merecia ter entrado em cartaz em nossos cinemas antes de ser lançado diretamente em streaming

Free Fire - O Tiroteio (Free Fire / Reino Unido - França / 2016) de Ben Wheatley com Cillian Murphy, Brie Larson, Armie Hammer, Sam Riley, Sharlto Copley, Michael Smiley, Enzo Cilenti, Babou Ceesay, Noah Taylor, Jack Reynor e Patrick Bergin. ☻☻☻ 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

10+:Stephen King

O sucesso de It: A Coisa me fez lembrar a quantidade absurda de produções inspiradas nas obras de Stephen King (e como ele não para de escrever, provavelmente muitas outras ainda devem estrear). É verdade que em sua grande maioria o resultado é uma porcaria (inclusive um que King se aventurou a dirigir, o ridículo Comboio do Terror/1986), no entanto, diretores renomados, atores competentes e roteiristas inspirados conseguiram honrar a obra de Stephen em filmes que foram sucessos de público e crítica, alguns foram até oscarizados, outros se tornaram cult ou inspiraram séries de TV. A seguir meus dez filmes favoritos baseados nas obras do mestre do terror:

#10 A Hora da Zona Morta (1983) de David Cronenberg
Pouca gente lembra deste filme que conta com ótima atuação de Christopher Walken como um sujeito que usa uma parte específica do cérebro mais do que a maioria dos mortais e, por isso mesmo,  consegue ver o futuro... além de incomodar os planos de um político temeroso.

#09 O Aprendiz (1998) de Bryan Singer 
Antes de enveredar pelo universo dos X-Men, Singer se aliou a Magneto Ian McKellen para contar a história de um velhinho pacato que tem seu passado descoberto por um jovem vizinho (o finado Brad Renfro) - só que o rapaz sente-se cada vez mais atraído pelo lado sombrio do ex-oficial nazista. 

#08 O Nevoeiro (2007) de Frank Darabonts
O filme ficou famoso pelo final (que eu adoro) ainda mais perturbador que o do livro. A história é ambientada dentro do mercado de uma cidadezinha assombrada por um denso nevoeiro que esconde um segredo assustador (tão assustador quanto a histeria de alguns personagens). 

#07 Eclipse Total (1995) de Taylor Hackford
Kathy Bates é sempre lembrada como uma excelente atriz, especialmente quando se trata de dar vida às personagens mais complexas do escritor. Ela é Dolores Claiborne, que acusada de assassinato, enfrentará o passado obscuro e os ressentimentos da própria filha (Jennifer Jason Leigh)

#06 Conta Comigo (1986) de Rob Reiner
Este deve ser o filme mais terno baseado na obra de King. Inspirado num conto sobre um grupo de amigos que pretende ver um corpo morto no bosque de uma cidadezinha, o longa de Rob Reiner transpira nostalgia e tem fãs fieis até hoje. O resultado foi indicado ao Oscar de roteiro adaptado.  

#05 Louca Obsessão (1990) de Rob Reiner 
Kathy Bates ganhou o Oscar de melhor atriz pelo seu trabalho como a desequilibrada Annie Wilkes, mulher que vive solitária até encontrar o seu escritor favorito (James Caan), que acaba de sofrer um acidente. Este é o início de uma relação complicada que parece tirada de um pesadelo de King. 

Esta versão de Kubrick é uma grande provocação, já que ele alterou vários pontos do livro. Ainda assim, a história do escritor que vai para um  hotel com a família e passa a ser assombrado pelo passado macabro do lugar é considerado um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. 

Aqui o público já sabia que nem só de terror vivia as adaptações de King. Baseado em um dos seus textos mais sensíveis, a trama conta a história do encantador John Coffey (Michael Clarke Duncan), condenado à morte que possui um poder miraculoso. O resultado concorreu a quatro Oscars. 

Sissy Spacek (indicada ao Oscar) entrou para a memória cinéfila por sua espetacular atuação como a menina de educação repressora que é perseguida e humilhada por seus colegas na escola... sendo assim, uma das primeiras vítimas de bullying do cinema, perde as estribeiras no baile de formatura.  

#01 Um Sonho de Liberdade (1994) de Frank Darabonts 
Frank Darabonts deve ser lembrado como o melhor tradutor das obras de Stephen King para o cinema! Basta ver que ele aparece três vezes nesta lista com filmes muito bons - e este é considerado um dos melhores filmes de todos os tempos. Nele, conhecemos a história de amizade entre dois prisioneiros e o desfecho surpreendente de quem teve paciência para conseguir o que muitos consideravam impossível. Indicado a sete Oscars o filme (inexplicavelmente) não levou nenhuma estatueta para casa, mas conquista  fãs até hoje. 

Na Tela: It - A Coisa

Bill: palhaço do mal. 

Fazia tempo que um filme baseado na obra de Stephen King não dava tanto o que falar quanto It: A Coisa, ironicamente o filme entrou em cartaz praticamente ao mesmo tempo que outra versão de uma obra do autor que vai muito mal nas bilheterias (o fiasco A Torre Negra), o que faz lembrar que somente a assinatura ilustre do escritor não garante sucesso. Já vai para quatro décadas que as obras do escritor chegam aos cinemas e o sucesso de It não deixa de ser uma comemoração para a ligação de King com o cinema. Houve uma versão anterior lançada no formato de mini-série em 1990 e marcou época para aqueles que foram às locadoras acompanhar as diabruras de um palhaço macabro que azucrinava um grupo de pessias nos anos 1960.  A nova versão foi sabiamente transposta para os anos 1980 e deixou tudo com clima da série Stranger Things, o que ajuda o filme a dialogar muito bem com o público atual (lembrando que a série bebe diretamente na fonte de King), além de aumentar o charme da ambientação com pôsteres na parede, trilha sonora e uma ingenuidade desbocada que se perdeu no tempo. O diretor argentino Andy Muschietti (de Mama/2013) demonstra total domínio narrativo para equilibrar cenas de horror e humor, conduzindo muito bem o grupo de jovens atores - que causa identificação na plateia e gera torcida empolgada durante todo o filme. O ponto de partida é o desaparecimento do irmão caçula de Bill (o ótimo Bill Denbrough de Destino Especial/2016) que junto com um grupo de amigos (incluindo Finn Wolfhard e Stranger Things) conhecido Clube dos Perdedores irá tentar encontrá-lo. As poucos o grupo de amigos cresce em número e passa a contar até com uma menina, a adoravelmente mal falada Beverly (Sophia Lillis). A apresentação dos sete personagens forma o primeiro ato da história, que também explora os problemas adolescentes que cada um deles possuem, o que ganha maior importância quando passam a ser assombrados pelo estranho palhaço Pennywise (em arrepilante atuação de Bill Skarsgaard), que está por trás do desaparecimento de crianças há tempos e que se alimenta do medo de suas vítimas. Com várias cenas de arrepiar (usando toda a cartilha do gênero, efeitos especiais nojentos, sangue, monstros, casa assombrada, garoto psicopata, trilha sonora arrepiante...), o filme não economiza nos sustos (alguns bem elaborados), mas consegue manter o tom de aventura sem esquecer de aprofundar seus heróis juvenis. Tocando em questões de abuso, bullying e preconceitos sem parecer forçado ou didático, o filme mostra-se um grande acerto ao ter um  olhar terno sobre seus heróis cheios de boas intenções. Com a bilheteria astronômica arrecadada ao redor do mundo, crescem os boatos de uma segunda parte, onde será abordada a outra fase da história onde os personagens aparecem crescidos. Sem a leveza da infância no próximo filme, provavelmente resultado será ainda mais sombrio, resta saber se o público irá se envolver da mesma forma com a nova aventura. Até lá, It: A Coisa promete fazer ainda mais sucesso, afinal, foi feito sob medida para isso. 

O Clube dos Perdedores: jeito de Stranger Things. 

It: A Coisa (It / EUA-Canadá) de Andy Muschietti com Bill Denbrough, Sophia Lillis, Bill Skarsgaard, Jack Dylan Grazer, Wyat Oleff, Finn Wolfhard, Jeremy Ray Taylor e Chosen Jacobs. ☻☻

domingo, 17 de setembro de 2017

PL►Y: Tracks

O pequeno camelo, Mia e Adam: dias de deserto. 

Confesso que preciso de uma motivação extra para ver filmes de pessoas que resolvem se perder por aí em contato com a natureza e suas adversidades. Nunca entendo muito bem o que se passa na cabeça de quem faz uma coisa dessas - talvez se eu procurasse os livros que viraram filmes sobre estes personagens eu entendesse melhor. Recentemente procurando um filme para assistir na Netflix me deparei com Tracks, filme que deu azar de ser lançado no mesmo ano que Livre/2014 estrelado por Reese Witherspoon (que foi indicada ao Oscar) e carrega uma história real bastante parecida. Afinal, os dois tem protagonistas femininas louras que pretendem caminhar muito enquanto expiam seus problemas pessoais. Tracks foi baseado na história de Robyn Nelson, uma jovem que resolveu atravessar o deserto australiano até encontrar o mar. Foram vários dias andando no sol escaldante diante de um cenário árido com a companhia somente de sua cadela de estimação e quatro camelos. Dirigido por John Curran e escrito por Marion Nelson, o filme não faz questão de aliviar a ansiedade da plateia, esticando a peregrinação por quase duas horas de paisagens desérticas e uma protagonista que não faz questão de ser simpática com as pessoas que encontra pelo caminho. Vivida por Mia Wasikowska, Robyn oscila entre a força e a fragilidade, mas não está interessada em ser uma heroína ou representante de causa alguma, no meio do caminho nem ela mesmo sabe direito de onde surgiu a ideia da jornada que propôs a si mesma. Como era de se esperar, ela encontra vários desafios pelo caminho, incluindo a incompreensão de um acampamento que não permite animais ou um grupo de aborígenes que a rejeita por conta das fotos que foram tiradas de uma cerimonia secreta. Sorte que no meio do caminho ela também encontra personagens que ajudam sua caminhada, uma pessoa que lhe ensina o que precisa saber sobre camelos, um guia que a ajuda a livrar-se de turistas inconvenientes (e ainda ganhar uns trocados) e um fotógrafo que que cai de amores por ela (cortesia de Adam Driver) - mesmo que ela não esteja preparada para que gostem dela. É preciso um bocado de paciência para acompanhar o filme, mas neste aspecto valeu a pena a minha motivação extra para assisti-lo: os bichos. Primeiramente, desde o documentário Camelos Também Choram/2003, eu não via um filme que oferecesse destaque aos camelos (e posso dizer que diversas vezes eles roubam a cena), por outro lado, a cadela de estimação de Robyn também consegue ser bastante expressiva na história, tendo um dos momentos mais tristes (e reveladores) da trama. No fim das contas, são eles que revelam os aspectos mais interessantes sobre a protagonista e nos ajudam a acompanhar Robyn em sua árdua jornada pelo deserto de si mesma. Obiviamente que você pode encontrar várias lições no filme, mas eu não quero escrever sobre isso, prefiro ressaltar como a direção de Curran nos colocar lado a lado com a personagem, nos oferecendo uma experiência sensorial bastante incomum. 

Tracks (Australia/2013) de John Curran com Mia Wasikowska, Adam Driver, Philip Dodd, Fiona Press e Rainer Brock. ☻☻

PL►Y: Absolutely Fabulous - O Filme

Saunders e Lumley: musas politicamente incorretas. 

A série Abstolutely Fabulous foi lançada em 1992 e seu tom politicamente incorreto logo conquistou uma legião de fãs ao redor do mundo. As peripécias de Edina Monsoon (Jennifer Saunders) e sua melhor amiga, Patsy Stone (Joanna Lumley) renderam de início três temporadas em que abusaram do álcool, drogas, figurinos espalhafatosos e alfinetadas ao mundo do entretenimento. Era como se Beavis e Butt-head ganhassem uma encarnação como duas mulheres maduras britânicas desbocadas que gostariam de levar sua vida de excesso até o túmulo. A série rendeu mais duas temporadas, até ser cancelada e retomada em 2001, quando rendeu mais três anos de  risada. Ao todo foram 39 episódios que fizeram a glória dos fãs. Ano passado as duas comediantes se juntaram para mais uma aventura, Absolutely Fabulous - O Filme era um dos filmes britânicos mais esperados do ano passado, mas agradou somente as fãs da série, talvez por conta de parecer um episódio estendido da dupla (o que não chega a ser ruim, mas que não funciona como deveria na tela grande). O roteiro é uma mistura de  desastres pessoais de Edina, que vê o seu trabalho de relações públicas irem de mal a pior. A salvação parece estar na chance de ter Kate Moss (tinha que ser!) como sua cliente, mas ela acaba sendo acusada de tentar matar a cultuada ex top-model. No meio da confusão em que Edina se mete, sobra para Patsy se fingir de homem e se casar com a mulher mais rica do mundo. Nada faz muito sentido na história e alguns dos momentos mais engraçados nascem daí mesmo (a própria Patsy se passando por homem continua maquiada, com unhas pintadas... mas com o acréscimo de um bigodinho vexaminoso). Existe uma penca de participações especiais, principalmente de celebridades europeias (a Spice Girl Emma Bunton, Jerry Hall, Gwendoline Chritie, Jean Paul Gaultier, Lulu, Lilly Cole, Stella McCartney...) que nem sempre são aproveitadas como deveriam deixando a graça mesmo por conta de Edina e Patsy (que sempre foi a minha favorita e a cena do encontro dela com Jon Hamm é uma das melhores coisas do filme). É verdade que o filme conta com coadjuvantes da série, como a filha aguada de Edina (Julia Sawalha) e a secretária espalhafatosa Bubble (Jane Horrocks), mas também procura dialogar com o público mais jovem escalando Chris Colfer (da série Glee) e Indeyarna Donaldson-Holness para ser a neta crescida de Edina. No entanto, o resultado não  parece muito diferente das comédias de linguagem televisiva da Globo Filmes (talvez pela própria diretora Mandy Fletcher ter seu currículo basicamente na TV), a diferença é que o tom politicamente incorreto das indestrutíveis amigas soa como um sopro de ar fresco em meio a tantas comédias mansinhas que tem por aí. 

Absolutely Fabulous - O Filmes (Absolutely Fabulous - The Movie / EUA-Reino Unido / 2016) de Mandie Fletcher. ☻☻

sábado, 16 de setembro de 2017

Na Tela: Ao Cair da noite

Famílias reunidas: suspense pós-apocalíptico. 

O cineasta Trey Edward Shults ganhou o mundo quando sua estreia recebeu elogios no Festival de Cannes, com o drama familiar Krisha  (2015) o rapaz se tornou figura conhecida em festivais do cinema independente e ainda levou para a casa o cobiçado John Cassavetes Awards no Independent Spirit Awards concedido ao melhor filme com baixíssimo orçamento daquele ano. Quem viu Krisha percebeu seu talento para criar uma narrativa onde os fatos falam mais do que os diálogos e a narrativa imagética criava mais tensão do que qualquer outro elemento em cena. Seus closes e movimentos de câmera foram capazes de fazer um dia de Ação de Graças fadado ao fracasso ganhar forma de um filme de horror, mesmo sendo um drama. Não por acaso que o filme seguinte do jovem diretor é um suspense que, alguns tentaram vender como um filme de terror (e gerou alguma insatisfação no público), mas na verdade é um filme que fala muito sobre o imaginário mundial atualmente e suas paranoias. Houve quem ficasse se perguntando o que de tão terrível acontece durante a noite durante a trama, mas posso garantir que não é algo tão terrível quanto as atitudes que Paul (Joel Edgerton) é capaz de fazer para manter a segurança de sua família. Shults não explica muito bem como seus personagens foram parar naquela situação, mas basta usar a cabeça para imaginar que tudo se passa num período pós-apocalíptico onde há pouca comida, água escassa e um perigo eminente de contaminação quando anoitece. Logo no início Paul precisa lidar com a contaminação do sogro. Ao lado da esposa, Sarah (Carmen Ejogo) e o filho adolescente, Travis (Kelvin Harrison Jr.) ele precisa tomar uma atitude drástica. Enquanto a família (e o cachorro de estimação) ainda enfrenta o luto , eles percebem que a casa foi invadida. Assim eles conhecem Will (Christopher Abbott) outro sobrevivente que pensou ter encontrado um casa vazia e que poderia ter suprimentos para sua família. Deste ponto em diante a rotina da família muda, embora permaneçam as regras que precisam ser respeitadas para que continuem seguros e sem risco de contaminação. No entanto, por mais que exista um clima amistoso na casa, Paul sempre ensina ao filho que ele não pode confiar em ninguém que não seja da família. Logo a fragilidade daquelas relações irá se revelar e, acredite, os desdobramentos serão mais assustadores do que os pesadelos que assombram Travis. Shults faz um filme que parece extremamente simples, com um único cenário isolado da civilização e bons atores (destaque para Edgerton e Abbott em duelo constante), mas o melhor desta produção modesta (custou três milhões e arrecadou três vezes este valor nas bilheterias americanas) são as  suas ideias, especialmente a de que os outros não são pessoas iguais a você, mas ameaças iminentes - o que torna o filme numa dolorosa alegoria bastante necessária sobre os tempos estranhos em que vivemos. Ignore os sustos presentes nos sonhos ruins de Travis e se concentre na essência do filme, que garanto que você irá notar que os pesadelos já estão acontecendo. 

Ao Cair da Noite (It Comes at Night/EUA-2017) de Trey Edward Shults com Joel Edgerton, Christopher Abbott, Carmen Ejogo, Kelvin Harrison Jr. e Riley Keough. ☻☻☻☻

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

MOMENTO ROB GORDON: Narizes

A preocupação com a estética é mais do que comum no mundo das celebridades, ainda mais quando falamos sobre cinema - e se for na telona, que deixa tudo ainda maior, a coisa complica mais ainda. Sorte que diante dos padrões de beleza sempre existem aqueles  artistas que desafiam a ordem estabelecida dos traços delicados e simétricos. Este Momento Rob Gordon é inteiramente dedicado aos artistas que sempre foram reconhecidos não apenas pelo talento mas também um traço marcante: o nariz. Sem se render aos comentários maldosos ou  apelar para cirurgias plásticas, vários artistas foram capazes de tornar esta característica pessoal como sua marca registrada. 

#5 Sofia Coppola
Embora pouca gente saiba, Sofia estreou no cinema com apenas um ano de idade no primeiro filme da saga O Poderoso Chefão (1972) na pele do bebê Michael Francis Rizzi. Papai Francis Ford Coppola é tão coruja que também escalou sua herdeira para atuar no segundo filme da trilogia como uma das crianças que aparecem em cena, até aí tudo bem, o problema foi dar para a filhota o papel de destaque no terceiro e último filme da cultuada cinessérie. A crítica foi implacável e massacrou Sofia, não apenas por sua performance, mas também por sua aparência. Sofia entrou em crise, se dedicou ao mundo da moda por um tempo até resolver ser cineasta. Desde então foi a primeira diretora americana indicada ao Oscar (por Encontros e Desencontros/2003, que também lhe rendeu o Oscar de roteiro original),já foi premiada no Festival de Veneza (por Um Lugar Qualquer/2010) e recentemente foi premiada como melhor diretora no Festival de Cannes por O Estranho que Amamos/2017. Quanto ao nariz, as pessoas nem lembram mais dele...  

#4 Barbra Streisand
Barbara Joan Streisand repetiu diversas vezes que não faria plástica alguma no nariz para não prejudicar a qualidade de sua voz. Levando em consideração que a cantora, produtora, compositora, diretora e atriz é uma das pessoas mais bem-sucedidas do shobizz americano,  nunca entendi a relevância de tal pergunta para uma diva de seu quilate. Bem que poderiam apreciar sua carreira e deixa-lo em paz: indicada duas vezes ao Oscar de Melhor Atriz (sendo premiada por Funny Girl/1968), duas vezes ao de Melhor Canção Original (levou para casa pela canção de Nasce uma Estrela/1976) e uma pela produção de O Príncipe das Marés/1991, Barbra transformou seus traços em sinônimo de uma beleza diferente, forte e única, que não se rende aos padrões e que sempre deixa sua marca. No entanto, isso não impede que os críticos de cinema vivam pegando no pé dela. 

#3 Gérard Depardieu
Com mais de duzentos filmes no currículo, Depardieu é uma espécie de patrimônio do cinema francês. Pode se dizer que o ator já fez de tudo: comédias, dramas, romances, fantasias, nu frontal (quando era um jovem galã e quando já era um senhor bastante acima do peso). Antes de começar na carreira de ator no final da década de 1960, o jovem Gérard quase se perdeu na delinquência juvenil, depois trabalhou como caminhoneiro, mas não demorou muito para que os diretores percebessem que seu talento era proporcional ao seu notável nariz (não por acaso ele encarnou o famoso narigudo Cyrano de Bergerac/1990 e foi indicado ao Oscar de Melhor Ator). Embora o auge de sua carreira tenha passado, ele ainda é um dos atores mais requisitados do cinema mundial - e atualmente está envolvido em oito produções para o cinema. 

#2 Rossy de Palma 
Rosa Elena García Echave foi descoberta pelo cineasta Pedro Almodóvar pelas ruas de Madri e bastou ela aparecer em seus primeiros filmes para que a classificassem como uma mulher com rosto "cubista". Não sei se isso era um elogio, o fato foi que Rossy de Palma nunca ligou para esses comentários, pelo contrário, sempre colocou seus traços peculiares em evidência, sendo muito requisitada como modelo nos anos 1990 e participando de vários editoriais de moda (basta procurar no Google). Logo Rossy se tornou uma das musas mais marcantes do universo almodovariano, eles trabalharam juntos em sete filmes (por Kika/1993 e A Flor do Meu Segredo/1995 ela foi indicada ao Goya de melhor atriz coadjuvante), mas não são poucos que consideram a amarga empregada de Julieta/2016 o seu melhor trabalho ao lado do diretor.  

#1 Adrien Brody
Acredito que nenhum ator soube capitalizar melhor o tamanho do nariz como Adrien Brody - e há quem diga que seu nariz é por si só uma indecência, mas as fãs não tem do que reclamar. Brody se tornou o artista mais jovem a ganhar o Oscar de melhor ator (por O Pianista/2002) e depois de ser garoto propaganda de lojas chiques, participar de editoriais de moda e posar de galã em algumas produções, a carreira de Brody pode até não ter o mesmo fôlego de antes, mas ele continuar destilando charme nos papéis em que contracena com belas mulheres. Os diretores só precisam lembrar que Adrien é um ator muito versátil e que não sabe apenas fazer papéis dramáticos de homens em situações sombrias (Wes Anderson e Woody Allen já perceberam isso, mas os outros ainda parecem ignorar). Eu até gostaria de vê-lo em uma comédia romântica das boas, ou até fazendo um herói descolado, feito o Homem-Borracha, num futuro próximo da Liga da Justiça, ou um herói maldoso feito Princípe Namor nos próximos filmes da Marvel.