terça-feira, 21 de novembro de 2017

PL►Y: O Círculo

Hanks, Watson e Oswald: boas ideias subdesenvolvidas. 

Não foram poucos os que me advertiram  que O Círculo era uma verdadeira bomba, mesmo assim  me aventurei a assistir e agradeço a todos os meus amigos que queriam evitar que eu perdesse meu tempo com esta experiência cinematográfica frustrante. O filme tem uma premissa interessante sobre uma jovem que vai trabalhar num verdadeiro império tecnológico, uma empresa que pretende agregar em uma espécie de rede social os comentários, popularidade, vídeos, relacionamentos, fotos e todo o resto que o mundo real tem a oferecer. Agora, a empresa que já está satisfeita com o domínio sobre o comportamento das pessoas, pretende expandir para o campo da política também. A protagonista é vivida por Emma Watson e o patrão dela é vivido por Tom Hanks, ou seja, de elenco o filme tinha a promessa de funcionar mas... não é bem assim. Apesar da ideia interessante (que parece uma mistura de episódios da série Black Mirror) o roteiro não faz a mínima ideia de qual caminho seguir e se perde em todos eles. Mae (Watson) aceita uma proposta de trabalho sem hesitar e apesar do estanhamento inicial, logo está participando de um experimento que tornará sua vida um reality show. Neste momento o filme parece que irá embarcar pelo caminho de criticar a dicotomia entre o excesso de exposição e a vida privada (embora Mae não tenha a mínima noção do que seja isso), nada disso. Não ajuda o fato de Mae passar por tanta coisa de forma tão apressada, a cada desventura a personagem recebe uma resolução e uma mudança de comportamento em questão de minutos - o que não convence, rendendo o pior desempenho da carreira de Emma Watson (totalmente perdida nas mudanças bruscas de sua personagem). É tudo tão apressado que aos poucos o filme vai abandonando suas possibilidades de ser uma análise contundente ao mundo que cultua a tecnologia como um deus e tem a pressa como um dos seus valores mais importantes, mas, ironicamente a pressa é um dos maiores problemas do filme, isto fica claro desde que somos apresentados à insuportável Annie (Karen Gillan), uma workaholic tagarela que mais tarde descobrimos que anda exagerando no consumo de estimulantes - e o que poderia ser um retrato de como esse ritmo frenético pode adoecer vai por água abaixo com o desenvolvimento insatisfatório da personagem. Infelizmente o pior de tudo fica para o final, quando o filme precisa se posicionar sobre o exagero de deixar o  mundo virtual ditar o ritmo de sua vida, mas ele sai pela tangente de denunciar corrupções de grandes empresários quando na verdade seu tema era outro. Será que ele realmente acredita que sendo vigiados seremos pessoas melhores? O Círculo se perde em muitas voltas para não chegar a lugar algum. Não consegue ser uma crítica, não consegue ser politizado, não consegue ser cômico, tenso ou interessante. Talvez não seja por acaso que no meio de tantas ideias e informações o filme consiga ser nada. O pior de tudo é que o filme é dirigido por James Ponsoldt, que tem acertado em seus filmes anteriores, sobretudo no que antecedeu este, o sensível O Fim da Turnê (2015). 

O Círculo (The Circle/EUA-2017) de James Ponsoldt com Emma Watson, Tom Hanks, John Boyega, Patton Oswald, Glenne Headly, Bill Paxton, Karen Gillan e Ellar Coltrane. 

PL►Y: Na Próxima, Acerto no Coração

Canet: aparência de bom moço e coração monstruoso. 

Na arrepiante cena inicial, duas adolescentes que andam de bicicleta durante a noite, antes mesmo que um carro apareça o público já percebe que as duas moças estão em perigo. Quando o fato é consumado, o motorista volta para casa e, na manhã seguinte, se arruma para ir trabalhar - provocando a surpresa de que o maníaco é um policial. Baseado na história real do serial-killer Alain Lamare, que se tornou caso de polícia entre 1978 e 1979, o diretor Cédric Anger cria um filme de suspense que se sustenta ao tentar compreender este sujeito estanho de vida metódica e regrada, mas que não consegue conter o impulso de assassinar adolescentes. O que torna a história ainda mais inusitada é que o assassino se torna o responsável por capturar ele mesmo, ou melhor, o louco que assusta as redondezas da pacata cidade de Oise na França. Para ter mais liberdade de contar a história, Anger muda o nome do protagonista para Franck Neuhart e o coloca com a cara de bom moço de Guillaume Canet (também conhecido como esposo de Marion Cotillard), que aos poucos se torna arrepiante em sua frieza. Também ajuda a compor o retrato desta mente perturbada os momentos em que se auto-flagela na solidão de sua casa, as constantes alucinações com minhocas e um relacionamento desengonçado com Sophie (Ana Girardot), que não faz a mínima ideia do que Franck é capaz.  O roteiro não tenta explicar a compulsão assassina do personagem e mantem o mistério em torno do comportamento do protagonista até o final - e assim o deixa mais assustador. Um dos destaques do filme é a forma crua e bruta com que realiza os crimes e a forma com que o personagem dribla as investigações num roteiro que se desenvolve lentamente, aumentando ainda mais o suspense de uma  direção sem firulas. No entanto, não deixam de ser curiosas as cenas em que o protagonista bate de porta em porta segurando o retrato-falado do assassino (que é a cara de Franck, afinal é ele) e alguns moradores  não conseguem disfarçar o estranhamento de reconhecê-lo imediatamente. Durante o filme resta ao espectador se perguntar até que ponto Franck irá conseguir camuflar suas duas vidas, colabora muito para isso  a melhor atuação de Guillaume Canet, que foi indicado ao César de melhor ator pela precisão com que compõe um personagem bastante complicado.  

Na Próxima, Acerto no Coração (La prochaine fois je viserai le coeur / França-2014) de Cédric Anger com Guillaume Canet, Ana Girardot, Patrick Azam e Jean-Yves Barteloot. ☻☻☻

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

APOSTAS PARA O OSCAR 2018-CAPÍTULO IV

"Molly's Game" de Aaron Sorkin
Faz tempo que todo filme escrito por Aaron Sorkin entra no radar do Oscar. Pense agora o que acontece quando Sorkin assina seu primeiro filme na direção... Molly's Game já está com a expectativa nas alturas por conta disso (e ajuda muito ter os ótimos Jessica Chastain e Idris Elba no elenco). O filme conta a história de Molly Parker, ex-esquiadora, organizadora de campeonato de pôquer e alvo de uma investigação do FBI numa trama surpreendente.  

"Wonderstruck" de Todd Haynes
Outro que vive na mira da Academia é Todd Haynes com seu estilo visual único e linguagem peculiar de contar uma história. Desde que foi exibido no Festival de Cannes, Wonderstruck foi elogiado por contar duas tramas paralelas protagonizadas por crianças em tempos diferentes e que se cruzam de forma quase mágica. Baseado na obra de Brian Selznick dificilmente os admiradores do filme irão deixá-lo fora do Oscar. No elenco estão Julianne Moore e Michelle Williams.

"The Disaster Artist" de James Franco
Depois de tantos filmes autorais ignorados pela Academia, parece que James Franco entrará novamente no radar do Oscar por esta comédia sobre como foi feito o pior filme do século XXI! Franco dirige e vive o ator e cineasta Tommy Wiseau, responsável pelo espinafrado filme The Room/2003 que lhe rendeu fama mundial não exatamente pelo sucesso. Esta piração ainda conta com Zac Efron, Dave Franco, Bryan Cranston e Alison Brie no elenco. 

"Last Flag Flying" de Richard Linklater
O novo filme de Linklater tem colhido elogios pela forma como mistura comédia e drama na história de três veteranos da guerra do Vietnã que se encontram trinta anos depois no enterro do filho de um deles - um jovem militar morto quando servia no Iraque. Este é só o início de uma jornada que revela um lado peculiar das forças armadas americanas. No elenco estão Steve Carrell, Lawrence Fishburne e (muito elogiado) Bryan Cranston. 

"Pequena Grande Vida" de Alexander Payne
Fazia tempo que Payne se aventurava por comédias mais refinadas, com grande apelo dramático. Depois de dois oscars na estante (e outras quatro indicações), o diretor canadense volta com uma história de tom surrealista sobre um experimento capaz de diminuir pessoas e torná-las quase ricas por conta das despesas ficarem muito menores quando se tem poucos centímetros. Porém, a experiência de Paul Sufranek (Matt Damon) mostrará que a vida diminuta também tem seus problemas. Forte candidato ao prêmio de roteiro original (e Spike Jonze deve estar se roendo com a ideia que não passou antes por sua cabeça).

PL►Y: Vizinhos Nada Secretos

Jon, Zach, Isla e Gal: espiões na vizinhança. 

Jeff (Zach Galifianakis) e Karen Gaffney (Isla Fisher) formam um pacato casal do subúrbio. Ele trabalha na parte de Recursos Humanos de uma empresa tecnológica e ela ganha a vida como decoradora. Os dois levam uma vida tranquila ao lado dos filhos pequenos e quando os pimpolhos partem em um passeio eles tem a chance de fazerem tudo o que quiserem... mas no fim das contas preferem continuar na rotina previsível de todos os dias. A mesmice cotidiana é logo espantada quando eles conhecem os novos vizinhos, os Jones. Tim Jones (John Hamm) ganha a vida escrevendo dicas de viagem pelo mundo e Natalie Jones (a Mulher-Maravilha Gal Gadot) passa o dia chamando atenção de todos com sua beleza, elegância e roupas curtas. Os dois formam um casal perfeito! Apaixonados, bem sucedidos e cheios de sex appeal... logo despertam a inveja da vizinhança e a desconfiança de Karen que não acredita que aquele casal tão sofisticado tenha parado na casa em frente à sua por acaso. Não vai demorar para que os dois casais se aproximem e os Gaffney descubram que o casal dos sonhos são na verdade dois espiões disfarçados. Vizinhos Nada Discretos é o tipo de filme que não se pode assistir esperando muita coisa. Não procure situações surpreendentes, reviravoltas mirabolantes, diálogos brilhantes ou uma trama digna de uma obra-prima da comédia, se você não esperar algo inesquecível, você será capaz até de dar algumas gargalhadas nas trapalhadas que o típico casal suburbano americano se mete quando se mistura com um perigoso jogo de espionagem. Sim, existem mortes e explosões, mas o diretor Greg Mottola (que apresenta aqui o seu trabalho mais despretensioso) sempre busca tratar tudo com leveza - como algumas comédias muito comuns nos anos 1980. Hamm e Gadot estão bastante convincentes como o casal de espiões charmosos, assim como Isla Fisher como a dona-de-casa que é mais esperta do que a maioria das pessoas imagina, o único porém fica por conta de Galifianakis que força um humorzinho cretino em piadinhas que não combinam com o resto da história que preza por um humor bastante ingênuo. Um acerto do filme é como insere insere humor pastelão nas cenas de ação, cenas como da casa invadida, da perseguição de moto e dos Gaffney disfarçados são alguns exemplos de como o filme pode ser eficiente, mesmo com a narrativa um tanto frouxa. A cena final deixa a impressão de que o filme poderia ter uma sequência, mas o fracasso nas bilheterias comprometeu qualquer reencontro dos dois casais de estilos completamente diferentes.   

Vizinhos nada Secretos (Keeping up the Joneses/EUA-2016) de Greg Mottola com Zach Galifianakis, Isla Fisher, Gal Gadot, John Hamm, Matt Walsh e Patton Oswald. ☻☻☻

Pódio: Ezra Miller

Bronze: o filho problemático.
Nascido em 1992 em Nova Jersey, Ezra Matthew Miller é um dos jovens atores mais interessantes de Hollywood. Atuando desde 2006, ele demonstrou que era capaz de dar conta de papéis complicados como o que vemos nesta dramédia familiar dirigida por Sam Levinson. Ele interpreta Elliot, rapaz que acaba de sair de uma clínica para tratamento para dependentes químicos e não parece a vontade com os preparativos do casamento do irmão mais velho, especialmente quando solta pérolas do tipo "amadurecerei em algum momento próximo do fim". 

Prata: o amigo gay. 
Depois de viver alguns adolescentes problemáticos, Miller se tornou mais conhecido do público adolescente por sua interpretação como Patrick, jovem homossexual e melhor amigo de Charlie (Logan Lerman) e Sam (Emma Watson). Para complicar, ele namora secretamente um colega da escola e terá alguns conflitos por conta disso. Miller tem uma bela atuação (alternando euforia e melancolia) no universo criado por Stephen Chbosky - que estreia como diretor com o pé direito adaptando seu livro mais famoso em um dos melhores filmes sobre adolescentes da história do cinema.  

Ouro: o jovem psicopata. 
Se existe um papel que fará o ator ser lembrado por muito tempo é o jovem psicopata deste aclamado filme da diretora Anne Ramsay. Ezra Miller está excelente como o filho de Eva (Tilda Swinton, inesquecível), menino que desde pequeno demonstrava ter algo de incomum em seu comportamento. Ele cresce e suas ações se tornam ainda mais perigosas, marcando para sempre o destino de quem está por perto. Para quem conheceu o ator fazendo o simpático Flash de Liga da Justiça/2017, vale a pena conhecer este incômodo filme  da carreira do jovem ator (na época das filmagens ele tinha 16 anos, o que deixa seu trabalho ainda mais impressionante).  

domingo, 19 de novembro de 2017

Na Tela: Liga da Justiça

A Liga: tentando colocar o universo DC nos eixos. 

Depois de uma produção bastante conturbada finalmente chegou aos cinemas um dos filmes mais esperados de todos os tempos. Faz tempo que os fãs sonhavam com um filme da Liga da Justiça reunindo os maiores heróis da DC Comics e, conforme o tempo demonstrou, lidar com tanta expectativa está longe de ser algo fácil - e diante dos novos parâmetros demarcados pela Marvel nos cinemas a coisa piorou bastante. Depois que os filmes de Homem de Ferro & Cia se mostraram interligados, a Warner (detentora dos direitos da DC nos cinemas) sentiu a pressão de fazer o mesmo com os heróis que tinha em mãos. O efeito foi sentido na continuação de Homem de Aço (2013), que foi mexido o suficiente para abrigar Batman e se tornar o controverso Batman Vs. Superman (2016). O filme de Zach Snyder foi o ponto de partida para a construção de um universo unificado da DC nos cinemas, no entanto, o gosto de que essa ideia foi feita às pressas era indisfarçável. De início a Warner não tinha a mínima intenção de criar algo assim, preferindo contratar diretores com visões particulares sobre os personagens e deixar que as produções seguissem de forma independente. Com o sucesso de Vingadores (2012) eles perceberam que talvez pudessem repensar a estratégia (embora ainda não houvessem amadurecido o suficiente o universo que queriam construir). Se as interferências eram vivíveis no confronto do Homem-Morcego com o Superman, a coisa ficou muito pior com Esquadrão Suicida (2016) que deixou de ser o filme sombrio que se anunciava para se tornar uma espécie de quebra-cabeça de ideias mal trabalha. Mulher-Maravilha (2017) também sofreu intervenções, mas Patti Jenkins foi esperta o suficiente para criar uma unidade no filme que se tornou sucesso de público e crítica, se tornando o filme mais bem sucedido deste universo até o momento. Ao que parece, Liga da Justiça também foi mexido, principalmente depois que Zach Snyder precisou se afastar da produção devido à uma tragédia familiar. O destino abriu espaço para as intervenções de Joss Whedon, diretor de... Os Vingadores na produção - e outros problemas surgiram. Dizem que Whedon mexeu em 20% do filme e enfrentou também sua cota de desafios: inserir mais humor (e aposto que consegui identificar cada cena gerada por Whedon), cortar Darkside, cortar Lex Luthor, cortar namorada de Flash, cortar, cortar, cortar (incluindo o bigode involuntário do Superman Henry Cavill protegido em causa contratual de outro filme). Portanto, quando você for ao cinema, fique sabendo que o filme é bem diferente de como ele foi pensado, mas, ainda assim, ele funciona,. Não é uma obra-prima, mas funciona. 

Lobo da Estepe: vilão diabólico esquecível. 

Depois de Batman Vs. Superman ficou claro que o mundo estava prestes a viver ameaças bem diferentes do que Batman (Ben Affleck) estava acostumado a enfrentar. Pela primeira vez, o herói sem super-poderes se deparava com um universo habitado por alienígenas e deuses. Era de se esperar que a ameça agora parecesse mais um demônio do que um vilão humano. A ameaça agora é encarnada por Lobo da Estepe (voz de Ciarán Hinds), que procura as três caixas maternas para transformar o mundo em seu reino. Seguido pelos parademônios (derrotados transformados em criaturas sombrias que se alimentam de medo), Batman e Mulher-Maravilha (Gal Gadot) precisam encontrar aliados para derrotar este inimigo. Cabe a eles convencerem Aquaman (Jason Momoa), Flash (Ezra Miller) e Cyborg (Ray Fisher) a formarem um grupo que tem grandes chances de falhar em seu desafio. Como todo filme de equipe, os personagens precisam de tempo para aceitar a proposta, existem algumas picuinhas, alfinetadas... mas os heróis logo se entendem e (o mais importante) funcionam como time. A boa dinâmica entre os atores é um dos grandes pontos positivos do filme - o que nos faz até esquecer como a concepção de Aquaman é confusa e que nem todas as piadas do Flash são dignas de riso. É visível o desafio que Chris Terrio (oscarizado pelo roteiro de Argo/2012) enfrentou para costurar a história e seus vários personagens, precisando ainda dar conta do retorno de um dos membros fundadores da Liga,  o Superman (Henry Cavill). Quem acompanha histórias em quadrinhos ficará bravo em como o filme faz algumas promessas e as deixa pelo meio do caminho, mas a maioria do público irá gostar de ver os heróis juntos na tela e ficará empolgada com as cenas de ação. Porém, isso não quer dizer que Lobo da Estepe não seja um dos pontos fracos do filme (mas para os demônios talvez o poder pelo poder já satisfaça, sem maiores problematizações) e que exista muita coisa para ser resolvida em duas horas de exibição (lembro quando a Warner achou o filme muito longo e mandou cortar, cortar, cortar...). No fim das contas o filme é puro entretenimento despretensioso. Você ainda percebe a insegurança do estúdio em bancar suas escolhas, mas, não há problema em ser sombrio ou não ter piadas a cada cinco minutos, o problema é não bancar as ideias que resolveram colocar em prática. Sorte que Liga da Justiça é a prova que mesmo em meio ao caos, os heróis podem salvar o filme - principalmente com os atores certos no lugar exato.  Gal Gadot está cada vez melhor como Mulher Maravilha e até Ben Affleck surpreende como Batman. Embora tenha aqui uma versão menos soturna, Affleck está cada vez mais convincente como Bruce Wayne e seu alter-ego das trevas (o que só me faz lamentar que não veremos suas ideias para The Batman na telona em breve). Algo me diz que Liga da Justiça 2 será melhor.  

Gadot e Affleck: heróis convincentes. 

Liga da Justiça (Justice League/EUA-2017) de Zach Snyder de Ben Affleck, Gal Gadot, Henry Cavill, Ezra Miller, Amy Adams, Ray Fisher, Diane Lane, Jason Momoa, Jeremy Irons, Connie Nielsen e J.K. Simmons. ☻☻

PL►Y: Byzantium

Gemma: vampira perseguida por séculos. 

Lembro de ter ficado bastante curioso quando descobri sobre a produção deste filme, estrelado por Saoirse Ronan e Gemma Arterton e dirigido por Neil Jordan. O filme marcava o retorno do cineasta ao território vampiresco que lhe rendeu o maior sucesso comercial de sua carreira (Entrevista com o Vampiro/1994), pena que o resultado de Byzantium seja tão irregular. O filme retrata uma dupla de vampiras que são mãe (Gemma) e filha (Ronan) que vivem na Inglaterra se escondendo de uns sujeitos estranhos que querem acabar com as duas. A mãe se chama Clara e se prostitui pelas ruas para manter o sustento de Eleanor, sua filha adolescente. As duas, de vez em quando, enfrentam conflitos vivendo no anonimato e tendo seus perseguidores cada vez mais próximos. As personagens tem a sorte de encontrar com o bondoso Noel (Daniel Mays), solitário herdeiro de um antigo hotel chamado Byzantium e que abrigará as duas. No entanto, não espere profundidade no relacionamento amoroso que se instaura entre Noel e Clara, tão pouco um desenvolvimento minimamente interessante do hotel - que em breve se tornará um bordel. O problema do filme é que nada recebe qualquer profundidade e a atuação de Gemma Arterton cheia de caras e bocas também não ajuda. Sua performance como mãe zelosa é tão rasa que fica até difícil torcer por ela, parecendo apenas mais uma mãe chata de adolescente. A coisa também não melhora quando o filme se enrola nas cenas de flashback que contam como as duas personagens se tornaram vampiras. A origem da história acontece no século XIX e envolve dois cavalheiros (Sam Rilley e Johnny Lee Miller) que disputavam o coração de Clara. Nada disso chega a ser envolvente, a história entre passado e presente se desenvolve de forma desengonçada e a melhor parte fica por conta da vampira adolescente vivida por Saoirse Ronan, afinal ela vive uma pessoa com centenas de anos presa ao corpo de uma adolescente com direito até a um romance com o esquisito Frank (Caleb Landry Jones), que desde o início percebemos que será problemático. Sendo assim, só metade do filme funciona - e aquela parte próxima do final (que se torna uma grande gritaria) pode causar risos involuntários em sua necessidade de ser uma cena de ação eficiente. Byzantium é um filme que destoa da obra de Neil Jordan, o motivo deve ser o fato de ter sido feito por encomenda pelo estúdio ter os direitos da peça de Moira Buffini. O filme não funciona por apelar para o exagero e o melodrama a cada cinco minutos, deixando a impressão que se houvesse apostado no tom intimista o resultado talvez fizesse jus a história de duas mulheres que atravessaram séculos perseguidas por desrespeitarem as regras de um grupo visivelmente dominado por homens.

Byzantium (Reino Unido - Estados Unidos - Irlanda / 2012) de Neil Jordan com Gemma Arterton, Saoirse Ronan, Sam Reily, Caleb Landry Jones, Johnny Lee Miller, Warren Brown, Daniel Mays, Tom Hollander e  Maria Doyle Kennedy. ☻☻

terça-feira, 14 de novembro de 2017

PL►Y: Animais Fantásticos e Onde Habitam

Scamander (Eddie Redmayne) e seus amigos: de volta ao mundo de Harry Potter. 

Com o fim da saga Harry Potter não foram apenas os fãs que ficaram tristes, o estúdio também - já que aposentou uma de suas franquias mais famosas e rentáveis. Entre 2001 e 2011 foram lançados os  oito filmes do famoso bruxinho e ao longo do tempo a história amadureceu, acompanhando o crescimento de seu público. Não por coincidência, em 2001 foi lançado o livro Animais Fantásticos e Onde Habitam pela mesma J.K. Rowling sob o pseudônimo de Newt Sacamander. O livro era leitura obrigatória dos alunos de Hogwarts (e a capa da primeira edição vinha até com o selo de propriedade de Harry Potter e anotações no pé de página como se fosse realmente um livro escolar). Se tratava de um guia sobre animais que habitavam aquele universo, ou seja, não havia trama para um filme ao longo de suas páginas. Eis que no ano passado, os fãs foram brindados com a adaptação deste livro, com roteiro da própria escritora e direção de David Yates (o mesmo responsável pelos últimos filmes da saga Potter) utilizando referências daquele livro. O protagonista da história é o próprio Newt Scamander (vivido por Eddie Redmayne), amante das criaturas mágicas e ex-aluno de Hogwarts - sendo expulso por colocar em risco a vida de várias pessoas devido a um acidente. Newt cresceu e teve como profissão viajar o mundo para procurar, estudar e escrever sobre os animais que dão título ao seu guia. A história do filme se passa na década de 1920, numa visita de Newt à Nova York antes de voltar para a Inglaterra e a fuga de uma de suas criaturas marca o início da história. Ambientado 70 anos antes da saga dos livros que o precederam, o roteiro tem a bela ideia de mostrar o universo bruxo dos Estados Unidos, com suas gírias (na Terra do Tio Sam os trouxas são chamados de Nãomaj) e leis próprias (como a de um bruxo não poder casar com um trouxa), além disso mescla a tensão gerada pela presença de uma criatura que assombra a cidade e o efeito sobre um grupo de conservadores que denunciam a presença de bruxos na sociedade (não por acaso este grupo vem da Nova Salém), este cenário faz com que Scamander precise ser o mais discreto e rápido possível a encontrar as criaturas que escaparam de sua maleta. Com a ambientação correta (valorizada pelo bom trabalho de figurino), Rowling também se beneficia de colocar personagens interessantes em torno do protagonista e, curiosamente, os mocinhos são bem mais interessantes que os vilões. Em sua missão, Scamander contará com o forte candidato à trouxa favorito do universo de Rowling, afinal, o padeiro Jacob (Dan Fogler) é bastante simpático e se apaixona por uma das irmãs bruxas - Tina (Katherine Waterston) e Queenie (Alison Sudol) - que ajudam a formar um grupo de heróis bastante eficiente. Se os efeitos especiais impressionam, os vilões mereciam um pouco mais de atenção. A concepção dos personagens de Ezra Miller e Collin Firth é mais confusa do que intrigante, deixando Samantha Morton com a tarefa de arregalar os olhos e ser a mais assustadora sem precisar utilizar mágica para isso. O filme tem a vantagem de manter o tom dos últimos filmes baseados no universo da escritora, mantendo a atmosfera sombria e bom humor sem exageros. Animais Fantásticos e Onde Habitam funciona bem durante a sua duração, sendo um bom passatempo e um acerto que deve render continuações para saciar a saudades dos fãs e do estúdio. 

Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them / Reino Unido - Estados Unidos / 2016) de David Yates com Eddie Remayne, Colin Farrell, Dan Fogler, Katherine Waterston, Alison Sudol, Ezra Miller, Samantha Morton, Carmen Ejogo, Dan Hedaya e Jon Voight. ☻☻☻

Na Tela: Bom Comportamento

Pattinson: ator de respeito!

Embora a imprensa alardeasse que Robert Pattinson poderia levar o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes por seu trabalho em Bom Comportamento, não percebi grande surpresa da mídia ou do público diante da afirmativa. O motivo é bem simples, nos últimos anos o galã juvenil da saga Crepúsculo (terminada em 2012) realmente se tornou um ator a ser respeitado. Sua receita foi ousada, já que se afastou de todos os papéis que remetessem ao papel que o tornou famoso. Fugindo de comédias românticas como quem foge da cruz, Pattinson trabalhou em produções indies com diretores conhecidos por trabalhos radicais. Na guinada de sua carreira, as parcerias com o canadense David Cronenberg foram primordiais, já que Cosmópolis/2012 e Mapas Para as Estrelas/2014 foram importantes para mostrar às fãs adolescentes que o caminho do moço era outro. Depois dos elogios já conquistados por The Rover (2014) e Z- A Cidade Perdida (2017), Pattinson encara desta vez o desafio de encarnar outro personagem marcante neste drama marginal dos irmãos Safdie. Benny e Josh Safdie estão em ascensão no cinema americano e parte disso é por conta dos elogios recebidos por Amor, Drogas e Nova York/2014 (um verdadeiro exercício de paciência sobre a jornada autodestrutiva de uma jovem autodestrutiva). A dupla apresenta um estilo realista com muitos, planos fechados e cenas bastante cruas, sem compromisso com a glamourização da história. Mergulhar num universo assim rendeu uma atuação marcante para Pattinson na pele de Connie Nikas, um ladrão que tem o dia mais agitado de sua vida após assaltar um banco. Para Connie e o irmão, Nick (Benny Safdie) tudo começa a dar errado já na fuga (antes mesmo dos créditos apareceram), rendendo a prisão de Nick - um rapaz que visivelmente tem comprometimentos mentais. A partir daí, Nick precisa conseguir o dinheiro para pagar a fiança do irmão, mas uma sucessão de acontecimentos imprevisíveis comprometem seu objetivo - seja envolvendo sua namorada (Jennifer Jason Leigh) ou os desconhecidos que atravessam o seu caminho (destaque para Buddy Duress, que se transforma no seu parceiro involuntário). Os irmãos diretores demonstram maior segurança na condução da história, mantendo sempre um ritmo urgente e um trabalho interessante com cores e sombras durante a desesperada jornada do protagonista. O roteiro também é bastante convincente na sucessão de complicações em que o personagem se mete, mas de nada serviria se não contasse com a segurança de Pattinson ao encarnar um personagem complicado. Embora Connie esteja mais preocupado em libertar o irmão do que com qualquer outra coisa, seu personagem tem tantas atitudes equivocadas que surpreende como Pattinson desaparece no personagem, ao ponto de eu não conseguir cogitar melhor escolha para o papel. Connie está no extremo oposto de tudo que o seu vampiro romântico representava para o cinema no início da década, de forma que até a polêmica cena em que seduz uma adolescente de 16 anos parece uma provocação de como o astro cresceu e não é mais o ídolo juvenil de outrora (pois é, ele já tem 31 anos). Mudar a carreira de forma tão radical em cinco anos não é tarefa para qualquer um. 

Bom Comportamento (Good Time/EUA-2017) de Benny e Josh Safdie com Robert Pattinson, Benny Safdie, Jennifer Jason Leigh, Taliah Webster e Barkhad Abdi. ☻☻☻☻

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

APOSTAS PARA O OSCAR 2018-CAPÍTULO III

"Mudbound" de Dee Rees
Dois homens retornam para casa na zona rural do Mississipi após a Segunda Guerra Mundial e precisam lidar com o racismo sufocante da região. Esta é a história do elogiado drama da cineasta Dee Rees, que já se consagrou em vários festivais e se prepara para chegar ao Oscar! O que pode atrapalhar sua campanha é o fato de ser produzido pela Netflix e a Academia ainda tem o pé atrás com filmes produzidos diretamente para o serviço de streaming

"The Post" de Steven Spielberg 
Todo filme assinado por Steven Spielberg tem fortes chances de aparecer no Oscar - embora os últimos tenham saído de mãos abanando. Desta vez o diretor aborda os bastidores de dois grandes jornais americanos que tiveram acesso a documentos do pentágono sobre o envolvimento dos EUA na Guerra do Vietnã, Spielberg pode fazer bonito perante a Academia mais uma vez. O elenco também conta com Tom Hanks, Meryl Streep, Sarah Paulson, Carrie Coon e Matthew Rhys .

"Breathe" de Andy Serkis
Dramas envolvendo pessoas com deficiência sempre chamam atenção da Academia, por conta disso, Andrew Garfield pode ser indicado novamente ao prêmio de melhor ator pelo papel de Robin Cavendish, que vítima de pólio fugiu com sua amada (vivida por Claire Foy) para viver idilicamente por algum tempo. O filme marca a estreia na direção de Andy Serkis e conta com uma história real de superação para comover o púbico e os votantes da Academia. 

"Three Billboards Outside Ebbing, Missouri" de Martin McDonagh
Frances McDormand tem um Oscar de melhor atriz na estante e outras três indicações na categoria de coadjuvante. O diretor McDonagh tem um Oscar de curta-metragem e uma indicação ao prêmio de roteiro. Juntando os dois o resultado é a história de uma mulher que desafia as autoridades para desvendar a morte da filha - tudo temperado com o humor negro do diretor e da atriz que fez escola nos filmes dos irmãos Coen. 

"The Florida Project" de Sean Baker 
O diretor de Tangerine/2015 explora o cotidiano dos humildes moradores de um hotel nos arredores do parque da Disney na Flórida. Neste mundo às margens da fantasia, a dureza é aliviada pelas fantasias de uma menina (Brooklynn Prince) que vive com a mãe naquele lugar e divide as brincadeiras com outras crianças da região. Aclamado pelos contrastes que revela, o único rosto famoso do elenco é Willem Dafoe numa atuação inesquecível. 

Na Tela: Terra Selvagem

Jeremy e Elizabeth: ótimas atuações. 

Taylor Sheridan começou a carreira como ator em programas de televisão (você deve lembrar dele na série Sons of Anarchy) e engatou uma bem sucedida carreira como roteirista com o elogiado Sicario (2015) de Denis Villeneuve. Neste ano, Taylor foi lembrado no Oscar de Roteiro Original pelo seu belo trabalho em A Qualquer Custo (2016), filme que vira do avesso as convenções do faroeste para a plateia do século XXI. Sheridan ficou tão animado com os rumos de sua carreira que resolveu dirigir seu primeiro filme autoral (vale lembrar que ele dirigiu o terror Vile/2011, mas foi um típico trabalho encomendado para um estúdio, bem longe do seu estilo atual). Terra Selvagem recebeu o prêmio da mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes, além de vários elogios ao estrear nos Estados Unidos, chegando a ser cotado para o Oscar2018. A trama aborda as investigações em torno do assassinato de uma jovem nativa americana no estado de Wyoming, mais precisamente nas proximidades do Rio Wind, famoso por atravessar uma reserva indígena da região. Ao encontrarem o corpo descalço na neve, as autoridades locais suspeitam que seja um caso de estupro seguido de morte. Começa então a investigação que se torna uma questão pessoal para o guarda florestal Cory Lambert (Jeremy Renner), que passa a ajudar uma novata agente do FBI, Jane Banner (Elizabeth Olsen) a desvendar o caso. Mais uma vez Sheridan vira do avesso as convenções de um gênero, não fazendo questão de emular suspense sobre quem foi o agressor, ou embaralhar as investigações, preferindo seguir pontos específicos demarcados por suspeitas que aparecem desde o início - e ainda assim, descobrir o que aconteceu pode ser surpreendente. O maior interesse de Sheridan é na construção dos personagens, especialmente de Cory que é assombrado por uma tragédia familiar do passado e rende o melhor momento de Renner em muito tempo. Já Elizabeth Olsen tem a tarefa de ser o alter-ego da plateia naquela terra desconhecida, com suas peculiaridades e um volume de testosterona bastante elevado - realmente não é por acaso o fato do filme contar um agente do FBI do sexo feminino e jovem, melhor ainda é perceber que a atriz dá conta de mais uma forte personagem feminina com desenvoltura. Outro destaque do elenco é Jon Bernthal,  que desfaz em poucos segundos qualquer imagem que você possa ter construído do personagem antes dele aparecer na história.  Sheridan desenvolve o filme sem pressa, aproveitando a sensação melancólica das paisagens cobertas de neve e usa um discreto verniz de como a natureza pode ser ameaçadora. É verdade que lhe falta um pouco de traquejo na direção, especialmente em guiar o processo de edição, mas ele tem bastante segurança em lidar com algumas cenas bastante complicadas, especialmente aquelas em que conta com a dinâmica entre vários atores para construir tensão. Ao final da sessão tudo fica mais doloroso quando descobrimos que todo ano, dezenas de jovens nativo- americanas desaparecem sem deixar vestígios nas reservas americanas. São estes desaparecimentos que fazem de Terra Selvagem um filme inspirado em fatos reais - e ainda mais assustador. 

Terra Selvagem (Wind River / Reino Unido - Canadá - EUA / 2017) de Taylor Sheridan com Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Grahan Greene, Joe Bernthal, Gil Birmingham e Julia Jones. ☻☻☻☻

domingo, 12 de novembro de 2017

§8^) Fac Simile: Taika Waititi

Taika David Waititi
Taika Waititi é o diretor neozelandês mais falado dos últimos tempos. Com pai maori e mãe russa, o ator, diretor, produtor e roteirista foi indicado ao Oscar melhor curta-metragem em 2004 com One Car, One Night e ganhou o mundo com a comédia O Que Fazemos nas Sombras (2014). Depois de ver seus filmes entre os mais falados em sua terra natal e conquistar uma vaga entre os votantes do Oscar no ano passado, Taika ganhou um ponto de mutação em sua carreira ao aceitar dirigir Thor: Ragnarok (2017), que já se tornou a maior bilheteria de uma aventura solo do Deus do Trovão. Entre as entrevistas de divulgação do filme, nosso repórter imaginário conseguiu esta entrevista (que nunca aconteceu) com o cineasta. 

§8^) De onde a Marvel tirou a ideia de você dirigir um filme de super herói?

Taika Eu não faço a mínima ideia! Este povo é completamente maluco! Que tipo de pessoa colocaria um sujeito feito eu para dirigir um apocalipse tendo deuses como protagonistas? Vai entender o que se passa na cabeça dessa gente!

§8^) Não acha que eles ficaram animados com o resultado de "O Que Fazemos nas Sombras"?

Taika Pode ser... mas O que fazemos nas sombras era um documentário sobre vampiros europeus que se escondiam na Nova Zelândia! Quando eles me ligaram eu pensei que eles queriam refilmar Blade – O Caçador de Vampiros com Eddie Murphy no papel principal... #sqn! De repente eles disseram que era sobre Thor Ragnarok, que era o fim de Asgard, com a deusa da morte, muitas mortes e tragédias... eu apenas disse: ‘tem certeza que vocês ligaram para o cara certo? Eu faço comédias de baixo orçamento’ e eles disseram ‘por isso mesmo’. Eu continuei sem entender coisa alguma. 

§8^) Mas você fez um belo trabalho! Muitos consideram o melhor filme de Thor nos cinemas! É colorido, animado e tem aquele clima irresistível de Matinê! Ao ver o filme tive a impressão de que você estava brincando com suas action figures favoritas...

Taika Muito obrigado. Talvez a ideia fosse esta mesmo! Uma criança que tinha seus poucos bonequinhos e ganhou milhões para gastar numa grande brincadeira, sorte que ela é criativa o suficiente para sustentar o interesse de várias pessoas ao redor do mundo. Gostei deste papo de action figures... usarei esta analogia nas próximas entrevistas!

§8^) E qual seria sua action figure favorita do filme?

Taika A Hela! Dá para imaginar você ter a Cate Blanchett, com aqueles galhos pontudos na cabeça, disposta a destruir um mundo inteiro? Uau! É realmente de arrepiar! Mas eu gosto muito do cara de pedra, o Korg - tanto que eu mesmo o interpreto no filme! Ah, gosto muito do Loki também. O Thor eu passei a gostar mais depois que ele cortou o cabelo, se bem que foi aquela cabeleira que me inspirou a usar muito Led Zeppelin na trilha. Eu olhei aquilo e pensei: “Robert Plant! Imigrant Song! Vai ser irado!”, as pessoas pensam que era por conta da música que fala de deuses e tal... mas eu escolhi pelo título mesmo! Eu sou neozelandês, Cat e Chrissy australianos, Tony e Dri são ingleses... pura geografia!

§8^) E os boatos de que você gostaria de dirigir um filme da Viúva Negra?

Taika Sim! Eu adoraria! Tenho ideias muito legais para o filme, mas terei que convencer muita gente de que poderia fazer funcionar. O que é muito engraçado já que eles me convenceram de que eu seria capaz de fazer Ragnarok e eu agora quero convencê-los a fazer um filme de espiões! Seria algo como os filmes de James Bond de antigamente, que eram bem mais divertidos que os atuais... e com a vantagem da protagonista ser a Bondgirl! Não tem como dar errado!

Taika e seu fã clube

Na Tela: Thor - Ragnarok

Hemsworth: densidade para quê?

Muita gente deve ter ficado assustada quando a Marvel anunciou que o neozelandês Taika Waititi (diretor do hilário O Que Fazemos nas Sombras/2016) fora escolhido para capitanear a terceira aventura do Deus do Trovão nos cinemas. Quem é mais ligado em HQ tremeu ao recordar que a trama de Ragnarok nos quadrinhos é bastante sombria por se do fim do mundo, ou melhor, de Asgard. Se a primeira aventura de Thor foi criticada pelo tom solene (que eu adoro), quase shakespeariano (cortesia do diretor Kenneth Branagh) e o baixo apelo do filme gerou o confuso Thor: O Mundo Sombrio/2013, mas o resultado foi pior que o esperado. Ali a Marvel já pensava em investir em gêneros diferentes para seus filmes, o que foi consolidado com os bem-humorados Guardiões da Galáxia (2014) como aventura de Ficção Científica e Homem-Formiga (2015). No fim das contas, o humor foi a saída para Thor e sua turma, já que ao escalar Waititi, a Marvel não teve pudores de fazer sua comédia rasgada de herói – o que chega a ser uma ousadia, já que os fãs da editora já começaram a se manifestar com as piadinhas recorrentes do universo cinematográfico da editora. No entanto, diante do sucesso de Thor Ragnarok, parece que o Deus do Trovão finalmente encontrou o seu caminho da salvação nas bilheterias. É verdade que o filme funciona, é divertido, despretensioso , mas tem como maior desafio não cair no pastiche de um herói já trabalhado em quatro filmes anteriores, neste ponto, Chris Hemsworth demonstra estar totalmente a vontade para trabalhar o personagem com mais humor. Penso que o mais difícil seria um diretor construir uma atmosfera apropriada para isso com um apocalipse iminente, mortes a todo instante, um personagem que é derretido vivo e outro que perde o olho. A sorte é que Waititi dá conta do recado com seu visual colorido, as piadinhas de matinê, uma vilã deliciosa e Led Zeppelin de trilha sonora. O resultado pode não ser genial, mas consegue ser, ao menos, equilibrado. Para começar a resolução do gancho deixado em O Mundo Sombrio não empolga e é resolvida logo no segundo ato do filme (que também é o mais aborrecido - deixando claro que eles não faziam a mínima ideia do que fazer ao terminarem a segunda aventura). Logo depois começa o que interessa com a chegada de Hela, a primogênita de Odin (Anthony Hopkins) que retorna de seu exílio forçado para dominar Asgard – nem que para isso tenha que eliminar boa parte da população. Responsável por dar vida à Hela, Cate Blanchett está visivelmente se divertindo bastante com a personagem (só espero que ela tenha chance de voltar em outros filmes e aproveitar ainda mais todo o potencial da Deusa da Morte). Diante dela, até o charme de Loki (o ótimo Tom Hiddleston, insolente como sempre) parece menor – mesmo porque o roteiro insiste em repetir a rotina de atos do personagem como um círculo vicioso. Ao lado desta pendenga familiar (que era o grande ponto do primeiro filme), o roteiro amplia generosamente o universo dos personagens, os tratando menos como deuses e mais como alienígenas num cosmo marvelesco em expansão. Há muito do visual e do humor de Guardiões da Galáxia no filme, especialmente quando está em cena o Grandmaster (Jeff Goldblum em mais um icônico personagem) em seu passatempo de criar lutas para o entretenimento do seu povo que vive num planeta lixão - que cultua Hulk (Mark Ruffalo), em analogia ao clássico Planeta Hulk – e acolhe a misteriosa Valkyria (Tessa Thompson). Enfim, com todas as suas camadas e personagens, Thor: Ragnarok é a brincadeira dos sonhos de Taika Waititi com suas action figures de infância. A sorte é que ele nos convidou para assistir seu devaneio bastante criativo. 

Blanchett: a irmã malvada!

Thor: Ragnarok (EUA-2017) de Taika Waititi com Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Mark Ruffalo, Tessa Thompson, Jeff Goldblum, Idris Elba, Anthony Hopkins, Benedict Cumberbatch e Matt Damon. ☻☻☻

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

4EVER: Márcia Cabrita

20 de janeiro de 1964 ✰ 10 de novembro de 2017

Filha de imigrantes portugueses, Márcia Martins Alves nasceu na cidade Niterói (RJ) e incorporou o nome de Márcia Cabrita na carreira de atriz. Embora tenha estreado na televisão na minissérie Noivas de Copacabana em 1992, Márcia ficou famosa foi no teatro com o espetáculo Subversões, onde ao lado dos amigos Luís Salém e Aloísio de Abreu provocava risadas transformando O Amor e o Poder de Rosana em "Meu Nome é Creuza" e Para Todos de Chico Buarque em "Barra Todos" em deliciosas paródias que fizeram história no humor nacional. Cabrita também será lembrada como a empregada Neide do humorístico Sai de Baixo, que se firmou como seu maior sucesso na televisão. Entre peças, séries e novelas, Márcia também apareceu poucas vezes nas telonas, com apenas cinco filmes no currículo fez sucesso com Trair e Coçar é Só Começar (2006) e O Diário de Tati (2012). A atriz faleceu em consequência de um câncer no ovário. 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

10+: Holly Hunter

#10 "Crash - Estranhos Prazeres" (1996) de David Cronenberg
Holly Hunter nunca esteve muito interessada em fazer personagens convencionais, prova disso é que depois de ter um Oscar na estante ela escolheu a proposta de trabalho mais estanha possível: uma mulher que tem fetiche por pessoas marcadas por acidentes de carro. 

Aqui ela é um  anjo da guarda hardcore, afinal é o primeiro filme americano do diretor de Trainspotting. Em dupla com Delroy Lindo ela confundiu muitos espectadores que acharam que os dois eram assassinos profissionais na trama (e na concepção original a ideia era esta mesmo). 

#08 "E aí, Meu Irmão, Cadê Você?" (2000) de Joel e Ethan Coen
Quem seria melhor para viver Penélope na transposição de A Odisseia para o sul americano? Holly Hunter, claro! Obviamente que sua Penélope, ou melhor, Penny, não ficou o tempo todo costurando esperando o marido, mas preparando cada fala que ele iria ouvir... e ele ouviria muito... muito...

#07 "A Firma" (1993) de Sydney Pollack
Ah, os anos 1990! Naquela época os livros de John Grisham eram disputados pelos estúdios a peso de ouro! Neste aqui, protagonizado por Tom Cruise, a atriz viveu a secretária esperta (e cafona) que serve de alívio cômico para a história -  e foi indicada ao Oscar de atriz coadjuvante. 

O filho de Gabriel Garcia Marquez estreou como cineasta juntando um grupo de ótimas atrizes em tramas paralelas que se cruzam. Holly Hunter foi responsável por encarnar Rebecca, uma mulher solitária em dúvida sobre o que fazer com uma gravidez indesejada. 

#05 "Aos Treze" (2003) de Catherine Hardwicke 
Indicada ao Oscar de coadjuvante mais uma vez, a atriz interpreta a mãe de uma adolescente que enfrenta problemas com sexo, drogas e crimes ao lado de uma problemática melhor amiga. O filme marcou a estreia de Evan Rachel Wood no cinema e se tornou um polêmico sucesso nos cinemas. 

#04 "Nos Bastidores da Notícia" (1987) de James L. Brooks
Há quem considere que este filme envelheceu mal com o passar do tempo, mas eu continuo rindo sempre que revejo o olhar ácido sobre os telejornais americanos - com um triângulo amoroso no meio. Holly é a ponta do tal triângulo e você nunca irá esquecer a "terapia do choro" da personagem (que lhe rendeu a primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz).  

O fato é que Holly Hunter tem uma das vozes mais marcantes do cinema e basta fechar os olhos para saber que a Srª Incrível, ou Mulher Elástica, é responsável por uma das melhores interpretações da atriz. O filme irá render a primeira continuação da carreira dela. 

#02 "Arizona Nunca Mais" (1987) de Joel e Ethan Coen
Contando a história de uma policial e um bandido que se apaixonam na delegacia você até imagina o que pode acontecer: eles irão roubar um bebê. Esta talvez seja a comédia mais emblemática da carreira dos irmãos Coen - e Holly está saborosamente cômica como a policial Edwina. 

O filme de Jane Campion é motivo para que a atriz seja constantemente lembrada entre as melhores atuações da história do cinema. Sua performance como Ada, mulher que parte para os cafundós da Nova Zelândia para se casar contra sua vontade é de uma beleza ímpar - e ainda tem aquela cena que fica na sua memória para o resto da vida que lhe rendeu o Oscar daquele ano. 

PL►Y: Tempo Estranho

Holly: construindo a verdade que dói. 

Darcy Baylor é uma assistente administrativa do estado da Georgia. Aos cinquenta e poucos anos ela tenta não perder o emprego e suportar a intensa onda de calor da região (além de cuidar de seu jardim em meio às restrições no uso de água). Darcy também se considera um "espírito livre", tendo dificuldades para lidar com romances e ainda carrega a tristeza da morte prematura do filho. Embora tente demonstrar que já superou a morte do rapaz, tudo cai por terra quando ela descobre que um amigo do filho está fazendo uma verdadeira fortuna com venda de hot-dogs com uma ideia que era inicialmente do falecido. Baylor decide então ir ao encontro do tal amigo traíra e fazer justiça à memória do filho, mas no meio do caminho irá descobrir mais do que desejava sobre o seu menino de ouro. Tempo Estranho está longe de ser uma obra-prima, na verdade, ele mal chega a ser original, mas tem alguns pontos positivos. Um deles é sua ambientação no calor sulista dos Estados Unidos, com muito suor e pouca água, num ambiente bastante interessante para as mágoas e segredos de seus personagens. Outro ponto positivo é a presença de atrizes realmente comprometidas com o trabalho, a começar por Holly Hunter, que raras vezes pode estar tão à vontade com seu sotaque sulista (da própria Georgia). Hunter explora as camadas de Darcy com um destemor notável, partindo de tudo o que a personagem tem de exagerado para revelar toda a dor que se esconde abaixo deste disfarce superficial, a personagem se enriquece aos poucos ao descobrir que o filho era uma pessoa bem diferente do que ela imaginava, ou talvez, pelo caminho, apenas aceite  o que antes se recusava a enxergar - e esta é a parte mais interessante da história. Neste ponto, até o físico da atriz casa perfeitamente com a personagem, conjugando força e fragilidade em cada cena. Outro destaque do elenco é Carrie Coon, que já está entre as atrizes mais interessantes da atualidade, Carrie está segura em cena e nada intimidada de encarnar a voz da consciência da protagonista. São as duas que compensam algumas irregularidades na condução da diretora Catherine Dieckman, que sobrecarrega o filme de algumas ideias que simplesmente não seguem em frente. Dieckman ficou famosa fazendo clipes da banda R.E.M. (ela dirigiu "Stand" e "Shiny Happy People") e depois de trabalhos na TV chega ao seu quarto filme na direção amparada por bons atores que fazem um roteiro esquemático ser até interessante. 

Tempo Estranho (Strange Weather/EUA-2016) de Catherine Dieckman com  Holly Hunter, Carrie Coon, Kim Coates, Walker Babington, Turner Crumbley e Shane Jacobsen. ☻☻☻

domingo, 5 de novembro de 2017

PL►Y: Chet Baker - A Lenda do Jazz

Hawke: melhor atuação de seu currículo. 

Alguns críticos perceberam chances de Ethan Hawke ser lembrado nas premiações pela atuação neste longa metragem do canadense Robert Budreau. Quando Born to be Blue começou a ser exibido em festivais, foi ressaltada a forma peculiar de contar um pouco da história do jazzista Chet Baker, os elogios logo começaram a aparecer, mas o filme acabou esquecido pelos distribuidores e restrito ao lançamento discreto em poucas salas nos Estados Unidos. Inédito nos cinemas brasileiros, agora podemos assistir via streaming este belo trabalho de Hawke, que está em um dos seus melhores momentos como o músico de vida cheia de tropeços. O roteiro do próprio cineasta recria uma retomada na carreira  do lendário instrumentista em meados dos anos 1960, onde já enfrentava problemas com a polícia e com o vício em drogas pesadas. A trama conta a tentativa de se fazer um filme sobre a vida de Baker estrelado pelo próprio, as cenas em preto e branco correspondem a esta dramatização e as coloridas são os bastidores da vida real - em que  Chat começa a se envolver com sua co-estrela (Carmen Ejogo) - que lembra muito sua ex-mulher, Carol Baker. O filme é narrado entre  a ficção e a realidade numa bela tentativa de fazer uma biografia fora da cartilha do gênero e funciona! O relacionamento amoroso do filme está lá realmente para mostrar um lado diferente do biografado, que além do vício em drogas enfrentou problemas com a dentição desde pequeno e, no decorrer da vida, teve que se acostumar com uma prótese que lhe provocava dores e sangramentos quando tocava - ao ponto dos médicos considerarem que jamais seria capaz de tocar novamente. Além de enfrentar problemas pela reputação, morar numa kombi com a amada e ter que provar que seria capaz de dar a volta por cima, o filme aborda ainda o relacionamento do músico com os pais, com a música e apetite sexual sem sensacionalismos, mas dificilmente tudo funcionaria se Ethan Hawke não estivesse ótimo em cena! Ele capta o modo do personagem falar, andar e tocar, fazendo com que as belas músicas que costurem a narrativa de maneira exemplar (destaque para a maravilhosa My Sweet Valentine que rende um dos momentos mais emocionais do filme) e acentua ainda mais a melancolia da trajetória deste gênio da música. Sempre achei Hawke um ator mediano, mas de uns tempos para cá, ele demonstra que a maturidade (está com 47 anos) lhe fez muito bem. Há de se destacar ainda que Carmen Ejogo mostra-se mais uma vez uma atriz que merece toda a nossa atenção e até o pouco lembrado Callum Keith Rennie está muito bem como o empresário amigo do protagonista. O título Chet Baker - A Lenda do Jazz pode se tornar uma armadilha para alguns, já que o tom grandiloquente tem pouco a ver com o tom intimista do filme, que está bem mais próximo do original Born to be Blue (Nascido para ser Triste). Se você quer conhecer mais sobre a vida do músico, vale procurar o documentário Let's Get Lost (1988) que foi indicado ao Oscar pelo belo trabalho de entrevistas com familiares e amigos do trompetista. 

Chet Baker - A Lenda do Jazz (Born to Be Blue / Canadá, Reino Unido - 2016) de Robert Budreau com Ethan Hawke, Carmen Ejogo, Callum Keith Rennie e Kevin Hanchard. ☻☻☻

.Doc: Spielberg

Spielberg: a construção de um mito. 

Lá pela metade do documentário sobre o diretor Steven Spielberg alguém diz que ele revolucionou o cinema. Os mais críticos vão achar que é puro puxa-saquismo, mas a afirmação está longe de ser um engano. Quando Spielberg fez de Tubarão (1975) um sucesso, depois da conturbada, com orçamento ultrapassado, cronograma estourado e todo tipo de dificuldade que filmar no mar possa gerar, nascia ali uma forma diferente de pensar, fazer e lançar um filme. Depois de Tubarão o verão americano nunca mais foi o mesmo, assim como os filmes de entretenimento. Foi com o trabalho de Steven Spielberg que a expressão arrasa-quarteirão (ou blockbuster) ganhou sentido,  assim como o avanço de efeitos especiais para garantir o espetáculo na tela grande. É verdade que ao abrir esta porta a percepção do cinema para o público também foi alterado para sempre, assim como para os produtores que criaram uma nova fórmula para gastar e gerar lucro. Por todo o impacto provocado pela sua forma de fazer cinema, torna-se mais do que compreensível que exista um documentário sobre este diretor, produtor e roteirista. Nascido em 1946 no estado de Ohio (EUA), Steven Allan Spielberg é o foco deste trabalho da produtora Susan Lacy, que conta com com entrevistas do diretor, familiares (curiosamente a esposa Kate Capshaw ficou de fora), amigos e colegas de trabalho que são pistas sobre a identidade de um verdadeiro workaholic que não para de trabalhar! O filme ainda se beneficia bastante do uso de imagens dos filmes do diretor, que se tornam o grande destaque do documentário , que vão das ambições do menino que fazia filmes na infância antes de crescer e fazer trabalhos para a TV, foi com seu primeiro longa na telinha, Encurralado (1971), que lhe obteve prestígio suficiente para migrar para o cinema. O filme não mostra como é curioso que, aos poucos, o diretor encontrou a necessidade de fazer filmes sérios, surpreendendo a grande maioria de seus fãs. Foi assim que surgiram o excelente A Cor Púrpura (1985), o fracasso Império do Sol (1987) - que revelou Christian Bale - e o esquecido Além da Eternidade (1989) que nem é mencionado neste documentário - esta é outra curiosidade desta homenagem da HBO, já que outros filmes problemáticos do diretor passam batido (como O Mundo Perdido/1997 e O Terminal/2004, enquanto Hook - A Volta do Capitão Gancho/1991 e As Aventuras de Tintin/2011 aparecem em poucos segundos, mas... quem liga?). Quem curte cinema vai delirar com a parte em que se aborda a amizade entre Spielberg, Scorsese, Coppola, George Lucas e DePalma, um grupo de cineastas amigos que ajudou a dar uma nova cara ao cinema americano nos anos 1970. O filme é bem mais discreto quando o assunto é a vida pessoal do diretor, no entanto, ainda é capaz de  vermos de onde nasce as motivações para o retrato da família americana em seus filmes, além de sua dificuldade em se posicionar quando aborda temas polêmicos em seus filmes - Munique (2005) é o melhor exemplo destacado no filme, talvez Spielberg ainda não tenha superado sua necessidade de agradar a todo mundo (o que é previsivelmente impossível). Ao final do documentário temos uma dimensão dos motivos que fizeram Spielberg se tornar um diretor que deu ao entretenimento o nível de arte, traçando um patamar para tantos outros diretores que surgiram após seus primeiros trabalhos. 

Spielberg (EUA-2017) de Susan Lacy com Steven Spielberg, Martin Scorsese, Brian DePalma, George Lucas, Leonardo DiCaprio, JJ Abrams e  Richard Dreyfuss. ☻☻☻

sábado, 4 de novembro de 2017

APOSTAS PARA O OSCAR 2018-CAPÍTULO II

"Trama Fantasma" de Paul Tomas Anderson
Ameaçar a aposentadoria de Daniel Dey Lewis pode até ser estratégia de marketing, mas  funciona que é uma beleza! Tão logo começou a se falar a aposentadoria de um dos poucos atores a ganhar três estatuetas do Oscar, o novo filme de PT Anderson chamou atenção da mídia por ser "o último" da carreira do ator. No filme ele vive um estilista que se apaixona por uma jovem modelo numa trama cheia de conflitos. No elenco ainda está a ótima atriz inglesa Lesley Manville. 

"The Killing of a Sacred Deer" de Yorgos Lanthimos
Ainda que seja um diretor grego e de estilo amargo, os dois últimos trabalhos de Lanthimos foram indicados ao Oscar - e diante dos elogios que este vem recebendo, não será diferente. Desta vez ele aborda a história de um renomado cirurgião que possui uma estranha relação com o filho de um ex-paciente. Ele nem imagina que a proximidade com o rapaz irá destruir sua família. No elenco estão Colin Farrell, Nicole Kidman, Alicia Silvertone e Barry Keoghan, todos elogiadíssimos.

"Stronger" de David Gordon Green
Depois de tanto tempo sendo esnobado pela Academia em bons papéis, parece que Jake Gyllenhaal encontrou o roteiro certo para ser indicado pela primeira vez ao Oscar de melhor ator! Neste drama baseado em fatos reais, Jake vive Jeff Bauman, um homem comum que se tornou símbolo de sobrevivência ao ser uma das vítimas do atentado em Boston em 2013. No elenco ainda estão Miranda Richardson e Tatiana Maslany entrando pela porta da frente em Hollywood. 

"Lady Bird" de Greta Gerwig
A elogiadíssima estreia da atriz Greta Gerwig mistura episódios de sua vida pessoal, piadas inspiradas em Woody Allen, o estilo do namorado Noah Baumbach e um toque bastante esperto. A trama é sobre  Christine McPherson, jovem de gosto incomum que se aventura a viver um ano no norte da Califórnia enquanto se divide num triângulo amoroso e o curso de teatro. O filme deve ser um dos indies a aparecer no Oscar e deve valer outra indicação (a terceira) para Saoirse Ronan. 

A Guerra dos Sexos  de Jonathan Dayton & Valerie Faris
Olha ela aí de novo! Emma Watson escapa da maldição do Oscar ao viver o mito Billie Jean King,  tenista que em 1973 era a número um do mundo e participou de uma partida ao lado do ex-campeão e canastrão Bobby Riggs (Steve Carrell). O roteiro explora as discussões em torno da partida utilizando o bom humor para abordar assuntos bastante sérios sobre a eterna guerra do título. Já em cartaz no Brasil, o filme recebeu muita atenção nos EUA e deve aparecer em algumas categorias do Oscar.