segunda-feira, 4 de abril de 2016

PL►Y: Cara Gente Branca

Sam (Tessa Thompson) e seus amigos: tensão racial no campus. 

Premiado na categoria de melhor roteiro de estreia no Independent Spirit 2015, Cara Gente Branca merece atenção por abordar o racismo de uma maneira diferente do que costumamos assistir. Afinal, a história se passa numa conceituada universidade americana, a Winchester, que acredita não haver conflitos raciais em seu campus - porém, desde o início descobrimos que não é bem assim. Quando somos apresentados às fraternidades (aqueles grupos universitários americanos que sempre aparecem nesse tipo de filme) parece haver uma irmandade específica para alunos negros. É desta irmandade que faz parte Samantha White (Tessa Thompson), que apresenta o programa que dá nome ao filme na rádio universitária. Em seu programa, Sam sempre alfineta aqueles que fingem não perceber a tensão que existe entre os alunos negros e brancos da Universidade - que culmina numa festa de Halloween onde os brancos se fantasiam de negros. O filme conta a história que precede a polêmica festa a partir da postura dos personagens, suas identidades e interesses. Assim, conhecemos Troy (Brandon P. Bell), filho do reitor, ex-namorado de Sam e que disputa com ela a presidência da fraternidade dos alunos afro-americanos. Existe um jogo de interesses para que Troy se afaste de Sam e se aproxime cada vez mais dos filhos do presidente da Universidade, assim como, lidere os alunos para uma ilusão de que está tudo bem nas relações entre brancos e negros do campus. Para ilustrar que a situação é mais complicada do que se pensa, Lionel Higgins (Tyler James Williams) padece para encontrar seu espaço fora da fraternidade de Sam e seus amigos, buscando um caminho diferente, mas que tende a sempre tornar-se hostil, seja por conta de seu cabelo ou por ser homossexual (que o coloca dentro de um grupo ainda menor de alunos), assim como também conhecemos Coco (Teyonah Parris), personagem que serve para borrar nossos conceitos do que é preconceito, estilo ou alienação (já que para ela o que importa é ser popular, sobretudo com seu canal no Youtube). O roteiro do também diretor  Justin Simien é um primor na construção das situações em que seus personagens se envolvem, sempre revelando o que há de preconceituoso em posturas naturalizadas pela cultura americana (nos estereótipos presentes nos filmes, na cultura hip hop, na moda...) além do quanto que existe de interesse em tornar um ofuscados os conceitos entre a tolerância, o racismo e o preconceito (e que Sam faz um belíssimo esclarecimento). Ironicamente bem humorado, o filme cresce em tensão quando o conflito entre os personagens torna-se inevitável (e ficar em cima do muro está longe de ser uma solução). Embora mostre-se melhor roteirista do que diretor, Simien constrói um filme diferente que remexe em alguns aspectos que a cultura do Tio Sam prefere esconder - e o faz com personalidade. Sem melodramas, personagens unidimensionais ou conclusões fáceis, Cara Gentre Branca é um filme inteligente que presta a inúmeras analogias - motivo pelo qual ainda recebeu o prêmio do público no Festival de São Francisco, o prêmio especial do júri no Festival de Sundance, prêmio da juventude no Festival de Seattle e diretor promissor no Festival de Palm Springs. O mais interessante é como Simien enxerga a questão por dentro, numa autenticidade que demonstra o quanto o diretor sabe exatamente do que está falando (e onde quer chegar), embora possa render debates acalorados entre a plateia. 

Cara Gente Branca (Dear White People/EUA-2014) de Justin Simien com Tessa Thompson, Tyler James Williams, Brandon P. Bell, Teyonah Parris, Dennis Haysbert, Kyle Gallner e Marque Richardson. ☻☻☻☻

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