sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

FILMED+: Birdman

Keaton e seu herói voador: o preço de voltar em grande estilo. 

Michael Keaton era um dos comediantes mais populares da década de 1980 e causou estranhamento quando foi escolhido para ser o super-herói Batman nos cinemas. Escolhido para vestir a capa do homem morcego nos filmes de Tim Burton o ator foi bastante criticado. Vale ressaltar que em 1989 os filmes baseados em histórias em quadrinhos estavam bem longe do que são hoje, afinal, depois de bilheterias mirradas por décadas, os estúdios fugiam dessas obras... até que a Warner resolveu arriscar com o herói da DC Comics. Keaton teve um bocado de coragem, mas sabia que depois de viver o herói sua carreira não seria a mesma. O ator viveu Batman em 1989 e em 1992 em dois filmes que foram sucesso de bilheteria, mas sua carreira não foi muito além disso. Com poucas exceções (como as adaptações das obras de Elmore Leonard em que viveu o policial Ray Nicolette em Jackie Brown/1997 e Irresistível Paixão/1998), seus filmes caíram no esquecimento. Não por acaso Alejandro González Iñárritu escolheu o Keaton para viver (com maestria) o ator Riggan Thomas, sujeito que esteve no auge quando estrelou uma trilogia do herói Birdman no cinema, mas depois de viver esquecido, quer provar que não é de um personagem só, mas um ator de verdade. O Birdman de Alejandro é um primor técnico ao fazer o espectador mergulhar na espiral que é a mente de seu protagonista nos tensos dias que precedem a estreia da peça que produz, dirige e estrela na Broadway, chamada, não por acaso de "Sobre o que Falamos quando Falamos sobre Amor" de Raymond Carver. Embora a intenção de Riggan seja a melhor (reerguer sua carreira com uma produção de alta qualidade), desde que começa a semana de prévias, tudo parece anunciar o fracasso. Tudo acontece: estanhamentos com o ator principal egocêntrico Mike Shinner (Edward Norton), desentendimentos com a filha Sam (Emma Stone), inseguranças de sua estrela (vivida por Naomi Watts), o estremecimento na relação com a namorada atriz (Andrea Riseborough) e a coisa ainda piora quando sabe que uma renomada crítica irá estraçalhar o espetáculo após a noite de estreia. Riggan tenta manter-se na linha, mas é evidente que sua tensão o transforma numa espécie de bomba relógio, motivadas por tudo listado acima e pela voz que fala em sua cabeça o tempo inteiro coisas sobre a peça que irá terminar com o pouco de dignidade que lhe resta. Alejandro utiliza alguns efeitos especiais para ressaltar o quanto o estado mental do protagonista é complicado (ou será que algumas coisas acontecem de verdade como a última cena parece revelar?), além de uma trilha sonora inusitada (somente com o som de uma bateria que às vezes é incorporada ao cenário) e a montagem que reproduz os dias na vida de Riggan com efeito de um plano sequência de duas horas (como se fosse feito em uma tomada só, sem cortes... bem... eles existem, ainda que invisíveis) fazendo com que a angústia do personagem seja contínua (e é isso que o espectador sente). Tenso e estranho, o filme mantém um proposital ar de descontrole, no entanto, o cineasta sabe exatamente o que está fazendo, exalando referências do filme sobre o filme num universo bastante particular. Repleto de elementos metalinguísticos, o filme de Iñárritu afasta o cineasta dos filmes de tragédias multifacetadas lançada com Amores Brutos/2000, prosseguiu em 21 Gramas/2003 e terminou em briga com Babel/2006 (a briga, no caso, foi com o roteirista Guillermo Arriaga, parceiro do diretor nas três obras). Sozinho, Alejandro patinou no melodramático Biutiful/2010, mostrando que estava na hora de repensar seu cinema. Com Birdman, o cineasta reencontra seu caminho com o inesperado tom de humor negro sobre o mundo do espetáculo. O longa faz referências às motivações de ser famoso, o reconhecimento, o sentir-se querido, a influências das redes sociais, a acidez nas relações... temas que aqui aparecem em torno de uma ator, mas que fala muito sobre a imagem que temos de nós mesmos. Esse é o principal motivo para a Academia, geralmente conservadora em suas indicações, colocar o filme no páreo em 9 categorias (filme, diretor, ator/Keaton, ator coadjuvante/Norton, atriz coadjuvante/Stone, roteiro original, fotografia, mixagem de som e edição de som, poderia ser dez se a edição genial fosse reconhecida), ou seja, "a inesperada virtude da ignorância" trouxe Michael Keaton de volta em grande estilo num filme adoravelmente estranho. 

Birdman - ou A Inesperada Virtude da Ignorância (Birdman or the Unexpected Virtue of Ignorance/EUA-Canadá/2014)  de Alejandro González Iñárritu com Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Naomi Watts, Amy Ryan, Andrea Riseborough, Lindsay Duncan e Zach Galifianakis. ☻☻☻☻☻

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