sexta-feira, 18 de abril de 2014

CATÁLOGO: As Patricinhas de Beverly Hills X Emma


Rudd e Alicia: No tempo das Patricinhas de Beverly Hills. 

Ainda lembro que quando Amy Heckerling lançou As Patricinhas de Beverly Hills ela dizia que era uma versão contemporânea de Emma de Jane Austen. Eu achava que se tratava de um golpe publicitário dos mais espertos da diretora que ficou famosa com a série Olha Quem Está Falando (1989). Minha desconfiança continuou até quando Douglas McGrath resolveu fazer a adaptação literal do livro de Austen, mas recentemente quando revi Emma (ao lado dos suspiros costumeiros de minha irmã), EUREKA!!! Heckerling realmente fez uma versão do livro de Austen - e devo admitir que foi bastante fiel em sua transposição de uma jovem inglesa rica do início do século XIX para o berço de ouro americano de Beverly Hills nas portas do século XXI. Emma Woodhouse (vivida por uma jovem Gwyneth Paltrow em um de seus melhores momentos) é bonita, inteligente, rica e... mimada. Ela se considera tão esperta que julga-se capaz de manipular as pessoas e situações ao seu redor para conseguir o que acredita ser melhor para os outros.  Emma considera que é boa em escolher maridos para as amigas desde que conseguiu unir sua governanta Miss Taylor (Greta Scacchi) com Sr. Weston (James Cosmo). Ainda que as intenções de Emma sejam boas, ela não tem a capacidade de perceber como ao utilizar as convenções de sua época ela pode ser bastante arrogante e preconceituosa. A graça da obra de Austen é apresentar Emma como uma heroína, quando na verdade ela poderia ser considerada uma personagem até detestável, afinal, ela pode estragar a felicidade de pessoas como sua amiga Harriet Smith (vivida por Toni Collette) apenas por não considerar que o  Robert Martin (Edward Woodall) não é um bom partido para ela. Da mesma forma, Emma julga-se tão astuta em suas crenças que é incapaz de perceber que o amor está tão perto dela mesma - afinal, ela mantém um relacionamento bastante próximo com Sr. Knightley (Jeremy Northan), irmão do esposo de sua irmã. É Knightley que de vez em quando tenta trazer um pouco de criticidade para a postura de Emma. Apesar de pouco conhecido, o diretor Douglas McGrath tem uma indicação ao Oscar por escrever ao lado de Woody Allen o roteiro de Tiros Sobre a Broadway (1994) - e com exceção de Não sei como Ela Consegue (2011) com Sarah Jessica Parker seus filmes são bem legais - e faz de Emma um filme bastante agradável de se assistir diante da ambiguidade de sua personagem (que é vivida com leveza por Gwyneth, antes do peso do Oscar na estante).  

Gwyneth e Jeremy: o mundo tradicional de Jane Austen.

Enquanto Emma segue os moldes de um filme de época tradicional feito para agradar o público feminino, As Patricinhas de Beverly Hills foi moldado à imagem e perfeição para fazer sucesso entre os jovens do mundo todo (e fez, tanto que além do sucesso virou série para a TV). Para começar a protagonista era Alicia Silverstone, que chegava ao auge depois de alguns filmes menores e a participação em clipes da banda Aerosmith. Alicia vive a jovem rica Cher, assim como Emma ela também não tem mãe, vive com o pai, gosta de criar relacionamentos entre as pessoas que estão ao seu redor e tem à sua volta alguém que quer que ela perceba o que as convenções que ela abraça com tanto gosto tem algo de fútil e prejudicial para a formação de seu caráter. Aqui ele não é irmão do seu cunhado, mas o enteado de seu pai, Josh (Paul Rudd, antes de ficar cômico e acreditando que podia ser galã), que por estar na faculdade lê Nietzsche e percebe que Cher ainda tem salvação. Tal e qual Gwyneth, Alicia consegue construir uma personagem bastante gostável, com a vantagem que Cher tem seus preconceitos atrelados às tribos da escola, o que suaviza a antipatia que a plateia poderia sentir por ela. É curioso ainda que o rumo dos acontecimentos seja o mesmo - o casamento arranjado por Cher é de um casal de professores, sua amiga Tai (a saudosa Brittany Murphy no momento de descoberta) é sempre alvo de namoros arranjados por Cher, inclusive um com Elton como no livro de Jane Austen (vivido por Jeremy Sisto em Patricinhas e Alan Cumming em Emma). Se Douglas McGrath consegue recriar a época de seu filme com bela fotografia, belas paisagens e figurinos apropriados, Amy Heckerling faz o mesmo. Tudo em Patricinhas é colorido, shoppings são templos sagrados, celulares são indispensáveis e as roupas parecem estar sempre em destaque entre Cher e suas amigas. Além disso, a trilha sonora (com Radiohead, Luscious Jackson e outras bandas badaladas dos anos 1990) ajudavam a criar o clima de uma Beverly Hills idílica, onde tudo é confortável apesar dos momentos de crise de sua protagonista (ela não consegue ser levada a sério, não consegue dirigir e quase surta quando descobre-se apaixonada por Josh). Entre as semelhanças entre os filmes, vale ressaltar o humor que ambos possuem perante a realidade de suas personagens e o fato de que podem ser considerados momentos memoráveis na trajetória de suas atrizes. Gwyneth e Alicia podem não viver seus melhores momentos atualmente, mas ambas brilharam como grandes promessas de Hollywood em meados da década de 1990. 

Emma (Reino Unido-EUA/1996) de Douglas McGrath com Gwyneth Paltrow, Jeremy Northan, Greta Scacchi, Toni Collette, Sophie Thompson, Ewan McGregor, Polly Walker e Alan Cumming. ☻☻☻

As Patricinhas de Beverly Hills (EUA-1995) de Amy Heckerling com Alicia Silverstone, Stacey Dash, Paul Rudd, Britany Murphy, Donald Faison e Jeremy Sisto. ☻☻☻

2 comentários:

  1. adorei esse post, vai me ajudar bastante na aula de literatura comparada, obrigada.

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