sexta-feira, 28 de junho de 2013

KLÁSSIQO: Hannah e Suas irmãs


Mia, Barbara e Diane: adoráveis irmãs. 

Este é um dos filmes mais queridos de Woody Allen e é muito fácil descobrir o motivo. Poucas vezes o diretor conseguiu trabalhar as neuras de seus personagens do forma tão leve e bem humorada (até hoje ele afirma que só teve a noção de que a história era profundamente otimista após assistir o filme pronto). Além disso, o longa consegue se beneficiar de ter um dos melhores grupos de atores que Allen já teve sob sua batuta -  além de ter alguns truques narrativos que funcionam muito bem ao que o filme se propõe. Um desses truques é explorar o pensamento de diferentes personagens em diferentes momentos para mostrar que suas ações geralmente são bem diferentes do que se passa em suas cabeças (o que os torna mais humanos, portanto, mais complexos). Além de usar cenas em flashbacks para aprofundar algum comentário ou ato do presente, o filme ainda tem aquela montagem especial que cria cenas hilariantes como a de duas amigas apreciando a arquitetura da cidade de Nova York enquanto disputam o coração do mesmo homem. Apesar de ter um (outra vez) neurótico Woody Allen no elenco, o mais próximo de protagonista masculino é Michael Caine na pele de Elliot, o atual marido da seguramente serena Hannah (Mia Farrow). O entediado Elliot se descobre apaixonado pela cunhada Lee (Barbara Hershey) que é casada com um artista plástico chamado Frederick (Ma Von Sydow) que é vários anos mais velhos do que ela. Enquanto Elliot e Lee tentam resistir à atração que nasce entre eles (regado a versos que serviram até para inspiração de uma música de Zeca Baleiro), nós ainda conhecemos o ex-marido de Hannah, o produtor Mickey (Woody) - que acredita que padece de uma doença incurável - e a regenerada Holly (Dianne Wiest, Oscar de coadjuvante pelo papel), ex-viciada em cocaína, atriz frustrada e que tenta colocar a vida nos eixos ao criar um serviço de buffet. A trama sobre a busca de perspectivas se ancora nos dramas, frustrações e atodepreciações de seus sujeitos, mas poucas obras conseguiram lidar com personagens multifacetados de forma tão equilibrada e bem humorada. Se levarmos em consideração que o filme toca em assuntos delicados com bastante leveza (não só a questão do adultério, da morte iminente, mas também o fato de, após o divórcio, Hannah insistir no namoro entre Holly e Mickey - que não podiam ser mais diferentes), a habilidade do diretor torna-se ainda mais notável. Além das belas locações em Nova York, do clima festivo e da trilha sonora, Allen exibe o melhor do seu humor em momentos como Hannah e Mickey pedindo a um casal de amigos que colaborem para que ela engravide.    Hannah e suas Irmãs é um terno olhar de Woody Allen sobre os laços familiares e as desventuras que podem gerar, tudo com aquele clima caseiro que poderiam não funcionar se parte das locações não fossem feitas na casa da própria Mia Farrow!

Hannah e Suas Irmãs (Hannah and her Sisters/1986) de Woody Allen com Mia Farrow, Dianne Wiest, Barbara Hershey, Woody Allen, Michael Caine e Mxa Von Sydow. ☻☻

Combo: Vampiros

O vampiro já é considerado mais do que um ser folclórico: é um verdadeiro ícone da cultura pop! Dizem que desde a pré-história existe a figura do homem que se alimenta do sangue de seus semelhantes, mas foi no século XIX que consolidou-se a mítica acerca desse ser de caninos afiados. A figura do vampiro está presente no folclore europeu muito antes do sucesso de livros como O Vampiro de John Polidori (lançado em 1819) e Drácula de Bram Stocker (de 1897). Mas a figura deste personagem há muito transcende a literatura - aparecendo em pinturas e ganhando forma ainda mais sedutora no cinema. Das criaturas clássicas do horror nenhum a consegue rivalizar com os sugadores de sangue. Lobisomens? Múmias? Frankenstein? O sujeito de caninos afiados é imbatível. Embora de vez em quando apareçam uns Crepúsculos da vida, a imagem dessa criatura da noite permanece imortalizada na sétima arte com atuações memoráveis como do hors concours Béla Lugosi. O romeno foi condenado ao papel de Drácula-mor em vários filmes desde que incorporou o personagem em 1931 no longa de Tod Browing. Neste Combo eu destaco os meus discípulos favoritos de Lugosi   §:^= 

5 Fome de Viver (1983) Dá para imaginar dois ícones mais pops para interpretar um casal de vampiros sedutores na década de 1980? Tony Scott acertou em cheio em seu filme de estreia quando escolheu a diva Catherine Deneuve e o camaleão David Bowie para viver um casal de vampiros amantes que atravessam os séculos em busca de sangue e parceiros sexuais (não necessariamente nessa ordem). O filme se tornou cult com seu visual estiloso. É clássica a cena em que o personagem de Bowie envelhece  décadas pelas horas em que espera para ser atendido por uma médica (Susan Sarandon) - que será a nova presa de sua parceira de caninos afiados. Não bastasse o olhar tragicamente sedutor sobre o que é viver para sempre, o filme ainda conta com a antológica canção Bela Lugosi is Dead do Bauhaus - que ficou conhecida como o primeiro rock gótico da história.

4 A Sombra do Vampiro (2000) No Oscar de ator coadjuvante em 2001 os cinéfilos se dividiam entre a torcida por Benício Del Toro (que acabou levando o prêmio para casa por Traffic) e Willem Dafoe por esta brincadeira com o clássico do expressionismo alemão Nosferatu (1922) de F.W. Murnau (interpretado no filme por John Malkovich). Dafoe interpreta o enigmático ator daquele clássico do cinema, Max Schreck, que marcou época com sua assustadora caracterização. Como não se sabia muita coisa sobre o ator, A Sombra do Vampiro defende a tese de que o próprio Max era um vampiro e foi responsável pelos estranhos acontecimentos ocorridos na época das filmagens. Dafoe faz um trabalho magnífico debaixo da maquiagem e merecia todos os prêmios daquele ano. Vale lembrar que o verdadeiro Max fez sólida carreira no teatro depois do filme de Murnau, até falecer de infarto em 1936. 

3 Deixe Me Entrar (2010) Na medalha de bronze temos uma novata, Chloë Grace  Moretz interpretou a pequena vampira Abby, condenada a viver eternamente no corpo de uma pré-adolescente a menina chama a atenção de um menino (Kodi Smith-McPhee) quando se muda para a vizinhança com seu protetor (Richard Jenkins). Aparecendo somente a noite e cheia de mistérios, a menina começa a atacar os  vizinhos e precisará de ajuda se quiser continuar viva. As dores da adolescência (hormônios, solidão, amizade, auto-estima...) aparecem como ingredientes deste drama de horror. Apesar de extremamente bem cuidado, o filme do diretor Matt Reeves foi penalizado por ter sido considerado uma refilmagem do sucesso sueco Deixe Ela Entrar (2008) - também baseado no livro de John Lindqvist. Eu considero o filme muito bom, especialmente pela atuação de Moretz que dá um banho na jovem atriz amadora do filme original. 

3 Entrevista com o Vampiro (1994) Brad Pitt começava a sentir o gostinho do sucesso, Tom Cruise buscava um papel totalmente diferente dos que fazia e Kirsten Dunst estreava no cinema... qual o resultado disso? O maior sucesso de bilheteria do diretor Neil Jordan! Baseado no livro de Anne Rice nem a peruca horrenda de Antonio Banderas estragou o andamento da trama sobre a história do bonzinho Louis (Pitt) que tem a vida transformada ao conhecer o vampiro Lestat (Cruise) que precisa de companhia para atravessar a vida na eternidade. Logo a pequena Claudia (Dunst)  irá se juntar a eles e formar uma família muito estranha. Jordan faz um filme de visual irretocável, atmosfera sombria e bastante melancolia. Poucas vezes os vampiros foram retratados com tanto estilo e dramaticidade no cinema. O mais engraçado é que no elenco, cheio de astros populares da década de 1990, é Dunst que rouba a cena convencendo como uma mulher ardilosa presa ao corpo de uma menina de rosto angelical. 

1 Drácula de Bram Stoker (1992) Conheço todos os motivos que podem não fazer do filme de Francis Ford Coppola o seu favorito sobre vampiros, mas existe um motivo que se tornou unânime sobre sobre ele: Gary Oldman. Na pele do famoso conde da Transilvânia, o ator tem a atuação de sua vida! Oldman está magnético como o nobre que vai lutar nas cruzadas e ao retornar descobre que sua amada noiva (Winona Rider) está morta.  Desesperado ele blasfema contra Deus e é amaldiçoado a viver eternamente sugando sangue humano. Eis que séculos depois ele parece reencontrar sua amada e fará de tudo para ficar com ela!  Completam o elenco Anthony Hopkins, Keanu Reeves e Tom Waits! Coppola pode até exagerar no tom operístico em vários momentos, mas não se pode negar que nunca o maior de todos os vampiros recebeu tratamento tão romanticamente solene e uma atuação tão virtuosa de seu intérprete. 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

DVD: Vampire

Zeggers: vampiro do século XXI. 

Filmes de vampiro costumam ser bastante parecidos, geralmente são filmes de época com seres sedutores de caninos afiados ou são filmes metidos a moderninhos com rapazes sedutores de caninos afiados. Talvez por isso o longa Vampire do cineasta japonês Iwai Shunji tenha me deixado tão impressionado. Seu vampiro não tem caninos grandes, não tem medo da luz do sol, não demonstra aversão a alho ou água benta, pelo contrário, parece um rapaz comum e bem educado que ganha a vida como professor de biologia e ainda precisa cuidar da mãe que lida com o mal de Alzheimer. Onde está a vampirice dessa história? Em sua essência: o famigerado apetite por sangue humano. O mais estranho é que através da figura terna de Simon (Kevin Zeggers, em mais uma boa atuação) não ficamos assustados com seu estranho apetite, mas nos sensibilizamos com suas necessidades e carências. Simon não sai à caça de donzelas indefesas para sugar sangue, ele possui seu próprio método alimentar: encontra garotas suicidas na internet, as auxilia a atingir o mórbido objetivo e em troca retira o sangue delas. Seus métodos acabam fazendo com que a polícia  o interprete como um serial killer de métodos pouco convencionais, mas Simon é uma figura mais complexa do que isso. O roteiro cria todo um universo onde as relações humanas parecem um  grande desafio. Dos suicidas que encontra pelo caminho, passando pela mãe (Amanda Plummer em momento irreconhecível) ou a garota chata que nutre uma paixão incontrolável pelo protagonista, todos parecem não se encaixar no mundo por motivos diversos. Todas as relações aparecem sob um peso que Shunji consegue projetar muito bem em suas cenas (talvez para realçar isso, soe extremamente poético a estratégia de Simon aliviar as dores de sua mãe durante a locomoção através do uso de uma dezena de balões de gás). Mais interessante do que a jornada de Simon pela busca de sua bebida favorita são os contrastes entre os momentos mais ternos do filme com outros que prometem desagradar os mais sensíveis. Cenas como a participação de Keisha Castle-Hughes (a menina indicada ao Oscar por Encantadora de Baleias/2002 já está crescida) dando o sangue por Simon, ou do grupo de "vampiros urbanos"  - onde um membro deseja Simon de todas as formas possíveis (e mostra seu grotesco método ao escolher uma vítima nas ruas da cidade) - e a cena do suicídio coletivo na van prometem ser um teste de resistência aos mais fracos.  O filme consegue equilibrar tons graves e agudos sem perder o ritmo. É excepcional a cena em que Simon e Ladybird (Adelaide Clemens) parecem uma metáfora para todos os casais apaixonados do mundo, assim como o único momento em que a mãe de Simon fala durante o filme.  Enfim, o estranhamente reflexivo Vampire é um dos raros filmes que conseguem atualizar a figura do vampiro no cinema contemporâneo. 

Vampire (EUA-2011) de Iwai Shunji com Kevin Zeggers, Amanda Plummer, Keisha  Castle-Hughes e Adelaide Clemens. ☻☻☻

DVD: As Vantagens de Ser Invisível


O quadriculado Charlie (Logan Lerman) e seus amigos: quase invisível.

As Vantagens de Ser Invisível é um caso raro de adaptação para o cinema, que conta com a assinatura do seu escritor na direção. Vale lembrar que nem sempre a pessoa que concebeu a trama de maneira escrita consegue traduzir as emoções através de imagens, afinal são mídias completamente diferentes. Sorte que Stephen Chbosky demonstra boa desenvoltura ao transpor as angústias de seus personagens para as telas, o cara pode não ser brilhante, mas leva a sério o trabalho atrás das câmeras. Na trama em si não existe grandes novidades, tirando um segredo ou outro, os dilemas de Charlie (Logan Lerman, bem melhor do que seus trabalhos anteriores), Sam (Emma Watson, distanciando-se de vez da Hermione de Harry Potter) e Patrick (Ezra Miller, que mais uma vez prova que merece atenção) são bastante comuns aos adolescentes, assim, deixam o desafio ao diretor de causar a identificação da plateia ou a indiferença por já ter visto esse tipo de filme centenas de vezes. Posso dizer que o sucesso do filme pelo mundo foi garantido pelo público alvo: jovens que gostam de ser retratados com seriedade nas telas e os nostálgicos. Eu me enquadro no segundo grupo. O filme me lembrou muito da minha adolescência (acho que pela primeira vez eu senti saudade dessa época ao ver um filme), talvez seja pela ambientação onde os adolescentes faziam coletâneas em fitas cassetes para os amigos, ouviam The Smiths nas festas (a sempre mencionada Asleep está no meu Ipod desde sempre) e ficavam curiosos com a sonoridade de David Bowie. Além disso, quem nunca se sentiu completamente deslocado quando muda de escola e precisa fazer amigos? Some a isso a massacrante cadeia alimentar das escolas americanas e você terá uma ideia do que o filme aborda. Charlie é um garoto que passa desapercebido com facilidade. Na escola o seu primeiro amigo  é o professor de literatura (Paul Rudd) e na família parece crescer uma abismo entre ele, o irmão (que está na faculdade) e a irmã (que está prestes a se formar), além de existir um certo sofrimento pela ausência permanente do melhor amigo falecido e da que parece ser a parente mais próxima dele, a tia (Melanie Lynskey). Charlie é um calouro e conta os dias para que deixe de ser, já que as brincadeirinhas desagradáveis dos veteranos são constantes, as coisas só começam a melhorar quando conhece Sam e Patrick, um casal que se torna irmão pelas armações do destino e que introduzem o tímido Charlie na ciranda restrita de amigos que possuem. Não é difícil imaginar que Charlie irá se apaixonar por Sam e que Patrick está prestes a sair do armário, mas Chbosky trata essas situações com tanta sensibilidade que fica difícil não se envolver com as desventuras do trio. Apesar dos namoros fadados ao fracasso, as paixões platônicas e o estresse com a admissão numa boa Universidade, os adolescentes do filme são tratados como pessoas de carne e osso com suas qualidades e defeito. A impressão é que a vantagem de ser invisível é você não se meter em confusões entre amores e amigos, não magoar pessoas que se importam com você (afinal, você nem é notado se for invisível), mas ao mesmo tempo, a vida mostra-se bastante sem graça se você não tem vivências boas ou ruins pelo caminho. No fim das contas, assim como no livro, Chbosky exibe os caminhos do crescimento de um pequeno grupo de personagens que precisa lidar com o presente, pensar no futuro e encarar o passado (que deixa marcas que muitas vezes nem queremos lembrar). Com Além desses aspectos capazes de criar identificação na maioria dos mortais, o filme ainda faz um agrado aqueles mais deslocados que se tornaram fãs de obras subversivas como The Rocky Horror Show (que eu assisti quando deveria ter uns 16 anos, mais ou menos a idade dos personagens), que recebe uma divertida paródia durante o filme. O filme ganhou o prêmio do People's Choice Awards de Melhor Filme Dramático e foi indicado ao Prêmio do Sindicato de Roteiristas dos EUA de Melhor Roteiro Adaptado. Por isso, ainda que possa ser acusado de carregar nos clichês, As Vantagens de Ser Invisível tem o mérito de contar sua história de peito aberto e provar em suas situações que um adolescente é  um ser infinito em suas possibilidades. 

As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower/EUA-2012) de Stephen Chbosky com Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller, Johny Simmons, Paul Rudd, Dylan McDermott e Kate Walsh.
☻☻☻

terça-feira, 25 de junho de 2013

CATÁLOGO: Aura

Darín: bom em empalhar, péssimo para caçar.

Aura é o tipo de filme que costumo dizer ter como protagonista um sujeito invisível, quase um fantasma. Assim como em O Profeta (2009), o personagem principal passa desapercebido pelas situações mais improváveis menos por sua vontade e mais pela forma como o mundo lida com ele. Quando vemos o taxidermista Esteban (o famoso Ricardo Darín) especulando sobre o assalto perfeito na fila de um banco, temos uma pequena amostra do que a mente daquele sujeito pacato é capaz. Ainda assim, ironicamente, ele sofre de epilepsia e, como todos que sofrem da doença, vive momentos de plena inconsciência. Eis que Esteban é convidado para uma temporada de caça junto a um amigo. Ele ruma para um bosque e fica hospedado em uma hospedaria modesta em meio às árvores e nunca conhece o proprietário. Mas, para sua frustração, mesmo depois de anos empalhando animais, Esteban não consegue atirar neles. Mesmo assim, Esteban irá cometer um acidente que não só irá comprometer sua temporada naquele lugar, como também irá envolvê-lo na orquestração de um crime. O diretor/roteirista argentino Fabián Belinsky não tem pressa de apresentar a trama para o espectador, montando-a aos poucos, revelando os acontecimentos para a plateia ao mesmo tempo que o taxidermista os conhece. Os fatos o farão descobrir que o dono do local em que está hospedado possui alguns segredos que esconde da própria esposa (Dolores Fonzi), mas que são conhecidos pelo jovem cunhado. Conforme o roteiro apresenta os passos para um grande assalto na região, Belinsky investe num clima noir envolvente, onde a relação sutil de Esteban com a esposa do proprietário, contrasta com a violência crescente que irá culminar em um momento de grande tensão. Mais interessante é a forma como o texto apresenta a astúcia do personagem em costurar as informações que chegam até ele. Devido à engenhosidade da história, o filme depende de uma espécie de cumplicidade entre a plateia e o protagonista  (e isso consegue construir muito bem) até o momento em que o plano é posto em ação - mas o fracasso parece anunciado desde o primeiro ato. O mais curioso é como, aos poucos, o filme foi construído de forma que Esteban saia daquelas situações com a mesma desenvoltura com que entrou. Apesar de nada sair conforme o esperado, sua vida (como de todo bom fantasma) continua (quase) a mesma coisa. Bem construído e cheio de suspense, o filme tem tudo para agradar os fãs do gênero. 

Aura (El Aura/França-Argentina/2005) de Fabián Belinsky com Ricardo Darín, Dolores Fonzi, Pablo Cedrón e Walter Reyno. ☻☻☻

domingo, 23 de junho de 2013

DVD: Django Livre

Waltz e Foxx: personagens no liquidificador cinéfilo de de Tarantino. 

Não há novidade alguma em dizer que se Quentin Tarantino fosse um eletrodoméstico, ele seria um liquidificador. Ainda está para nascer um cineasta que saiba misturar tantas referências cinematográficas com tanto apelo perante o público quanto ele. Para alguns o que ele faz em Django Livre passa dos limites para outros é um espetáculo sensacional! Com duas horas e quarenta e cinco de duração (e a quantidade de atuações de pessoas como Sacha Baron Coen e Joseph Gordon Levitt que ficaram de fora da edição final deixa claro que havia ainda mais exagero na trama) parece que o diretor quase repetiu a edição em volumes que usara em Kill Bill (2003 e 2004) depois que não conseguiu editar as quatro horas de filme que tinha em mãos. A mistura inusitada de escravidão com faroeste pode até tentar enganar, mas se trata de mais uma história de vingança com a assinatura do diretor. Quando encontramos o personagem do título pela primeira vez ele está acorrentado a outros escravos, ele acaba conhecendo ali o seu parceiro Dr. Schultz (Christopher Waltz, Oscar de coadjuvante pelo papel), um ex-dentista que trocou o tratamento dentário para ser caçador de recompensas (mas deixou ainda um suvenir dentário em sua carroça). É a busca por meliantes procurados pela justiça que faz com que Django seja comprado por Schultz e se torne o seu comparsa. Os dois passam a perseguir os procurados, de forma que Django quer mesmo é a ajuda do amigo para libertar sua esposa Brunhilda (Kerry Washington) - cujo o paradeiro ele ainda não conhece. Em sua extensão o filme pode ser dividido em três partes. Na primeira conhecemos a eloquência invejável de Schultz que esconde um homem de pontaria certeira e o treino de Django para a tarefa. Na segunda, eles descobrem que Brunhilda está na fazenda de Calvin Candie (um marcante Leonardo DiCaprio), um sujeito que investe em lutas sanguinolentas de negros. É nessa parte que conhecemos o plano mirabolante de Django para resgatar a esposa e entra em cena mais um personagem inesquecível do filme: Stephen (Samuel L. Jackson) como uma espécie de mentor do escravocrata Calvin. Waltz, DiCaprio e Jackson são os personagens mais interessantes do filme, perto dele o Django de Jamie Foxx soa um tanto inconsistente perante as armações do roteiro. Enquanto Waltz constrói duas faces de um tipo tão polido que outro sujeito não daria conta de suas características. DiCaprio cria um sujeito tão podre quanto os dentes que ostenta e Jackson está excepcional como um  negro que se comporta como um traidor dos escravos. Somente na parte final, Django ganha o espaço de protagonista na trama, mas aí Foxx acaba mudando o tom do personagem (de forma que parece menos convincente do que deveria). Obviamente que os fãs de Tarantino não ligam para isso, eles estão lá pela violência exagerada, os jorros de sangue, a trilha saborosamente anacrônica (que nem sempre funciona como o esperado), os personagens marcantes, os diálogos elaborados e aquela avalanche de referências que o tornaram um dos cineastas americanos mais cultuados do nosso tempo. Apesar da história ser mais harmônica que a presente em Bastardos Inglórios (2009), ela possui certas fragilidades nos elos de entre os atos da trama. O curioso é que a energia da direção de Tarantino permanece inabalável durante toda a produção e impede que o público se desconecte - especialmente pelas cenas de ação mais elaboradas que o diretor já executou (o que é aquela cena do tiroteio na mansão Candieland?). A mistureba pode até soar original, mas se em Bastardos vimos judeus aniquilando nazistas, ver um negro aniquilando escravocratas pode ser uma espécie de repetição temática na cinematografia do diretor. Mas vejo em Django menos relação com os Inglórios e mais com a jornada da Noiva à caça de Bill. Misturas cinematográficas e históricas à parte, a forma como QT conduz o espetáculo visual de sua orgia sanguinolenta é fundamental para que o filme tenha saído do Oscar com o prêmio de roteiro original - mas nas mãos de um cineasta comum o triunfo do filme não iria tão longe.

Django Livre (Django Unchained/EUA-2012) de Quentin Tarantino com Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCpario, Kerry Washington, Samuel L. Jackson, Franco Nero e Bruce Dern. ☻☻☻

FILMED+: Os Matadores

Padilha: muito mais do que uma dondoca televisiva. 

Nascido em Jundiaí em 1964, o paulista Beto Brant chamou a atenção com seu curta-metragem experimental (1993). O curta fez sucesso em festivais internacionais onde deixou claro que era um diretor criativo e com atenção especial para a construção das cenas. Sua estreia como diretor em longa-metragem aconteceu em 1997 com este celebrado Os Matadores. Lembro até hoje quando o filme foi exibido no Festival de Cannes e a imprensa mundial ficou bastante instigada com a estreia de Brant. O Brasil ainda vivia a sua retomada cinematográfica e a maioria das produções investia em adaptações literárias, filmes de época e algumas comédias inofensivas. Brant apareceu nesse cenário com um thriller de ação, repleto de suspense ditado por personagens fortes. Sua trama é simples, mas tão bem conduzida  que é impossível não perceber os méritos da produção. A trama gira em torno de Múcio (Chico Diaz, excelente), um matador que vive na fronteira do Brasil com o Paraguai. Antes de ser considerado morto, Múcio realizava trabalhos para os fazendeiros locais. A vida deste lendário matador é contada por seu velho comparsa, Alfredão (Alfredão),  a um ambicioso jovem matador que ainda se prepara para o ofício.  Ele é Toninho (Murilo Benício), que antes de se tornar um matador precisa lidar com suas inseguranças perante os perigos do ofício. O filme tem ainda outra figura importante para o desenrolar dos fatos, Helena (Maria Padilha), esposa de um figurão local e amante de Múcio nas horas vagas. O roteiro que marcou a estreia da parceria de Brant com Marçal Aquino (autor do livro em que o filme se inspira) se nutre de contar duas histórias ao mesmo tempo, sem que a plateia perceba isso. Existe claramente uma trama ambientada no passado, mas que permite que o espectador pense o que está motivando o encontro dos personagens na história. Uma das ideias mais bem sacadas é não mostrar a violência de forma explícita (com exceção do encontro de Helena e Múcio, que gera uma das cenas tórridas mais interessantes do cinema). Assim, o espectador constrói as cenas em sua própria mente, ampliando ainda mais o universo do filme. As mortes são o que menos importa na trama, o que instiga a plateia são as relações que se desenham aos poucos durante a sessão.  Assim, são revelados traços daqueles personagens duros que podem ser mais vulneráveis do que imaginam. Não há dúvidas de que há um serviço a ser feito, mas não sabemos exatamente qual é. Na época os filmes sobre matadores de aluguel não estavam na moda, mas depois de tantos do gênero, Os Matadores ainda não é superado na forma como Brant conduz a trama de forma bastante elegância e pulso firme -  isso sem falar nas atuações vigorosas do elenco. Benício ainda estava começando a ser reconhecido pelos seus papéis na televisão (e o filme ressaltou sua versatilidade), Padilha teve um papel bem mais interessante do que as dondocas que costuma viver na televisão (chegando a ser convidada para filmar em Hollywood, o que ela acabou recusando - com especulações até de ser uma bondgirl) e Chico Diaz se consagrou de vez como o lendário matador Múcio. De corte ágil, trilha sonora que amplia a tensão e fotografia realista, o filme é um grande acerto. É justo dizer que o que mantém o filme na memória do espectador é sua arrebatadora cena final, onde mostra-se o que era esperado desde o início, mas de uma forma tão bem construída que parece até surpreendente. Os Matadores é considerado por muitos um clássico do cinema. Atual e sem frescuras, o filme provou que as ideias são mais importantes do que um orçamento inchado quando se tem um filme a ser feito. Esse estilo realista urgente de Brant permaneceu em dois de seus filmes seguintes: Ação Entre Amigos (1998) e O Invasor (2001), que também merecem ser vistos.

Os Matadores (Brasil/1997) de Beto Brant com Chico Diaz, Murilo Benício, Maria Padilha e Wolney Assis. ☻☻☻☻☻

DVD: Eu Receberia As Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios

Cauby e Lavínia: sexo, suor e surtos. 

Faço parte do grupo de fãs antigos de Beto Brant. Aquele grupo que fez campanha boca a boca para que Matadores (1997) tivesse mais admiradores do que sua minguada publicidade permitia, grupo que exaltou as qualidades de Ação Entre Amigos (1998) e que transformou O Invasor (2001) num sucesso nos cinemas. Devo admitir que ainda estou me acostumando com o novo estilo do diretor. Desde Crime Delicado (2005), o diretor busca explorar o que literatos chamariam de geografia interior de personagens, geralmente são casais que repensam seus posicionamentos em relacionamentos repletos de conflitos. A aposta por uma violência mais sutil nas relações humanas permaneceu em Cão Sem Dono (2006) e resultou o híbrido de ambos em O Amor Segundo B. Schianberg (2009), onde a psicologia dos personagens era ainda mais elaborada. No entanto, o recente Eu Receberia As Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios se tornou o mais elogiado dessa fase Brantiana, porém, o filme não me convenceu. Acho que o filme simboliza a total falta daquele punch que fez Beto Brant um diretor único no Brasil. Vendo Eu Receberia As Piores... tenho a impressão que qualquer diretor, de qualquer lugar poderia ter feito o filme do mesmo jeito (arrastado, quebrado e tedioso). Obviamente que a atuação de Camila Pitanga nas várias fases de sua personagem chama atenção, mas o tratamento que a história recebe já me parece um clichê sem tamanho. É Camila que faz o filme parecer melhor do que realmente é. No início não sabemos muito bem como ocorre a relação de sua personagem com o fotógrafo Cauby (Gustavo Machado). Logo se percebe que os dois são amantes e que Lavínia (Camnila) é casada com o pastor Ernani (Zé Carlos Machado). Esse triângulo amoroso é localizado no Pará, onde a população ribeirinha se mobiliza contra o desmatamento da floresta. Essa primeira parte se concentra bastante no romance tórrido entre Lavínia e Cauby. Sexo e suor ditam o tom do primeiro ato da relação entre o fotógrafo e sua musa. Com mais elementos, o segundo ato me soa mais interessante, já que mostra o passado de Lavínia como prostituta a ser resgatada das ruas por Ernani. A transformação da personagem realizada por Camila impressiona - sendo seguida de perto pelo veterano Zé Carlos. Quando o filme volta para o seu terceiro ato, quando o romance de Lavínia e Carlos pede um desfecho, o filme volta à morosidade de antes, talvez, para obter um contraste com a violência que está por vir. Na cena do surto de Lavínia e da chegada surpresa de Ernani, Brant alcança as notas mais altas de sua narrativa. Trata-se de uma cena intensa, rápida e mais eficiente do que qualquer outra do filme e aí o filme se transforma no que deveria ser sua essência: uma história de amor simples e eficaz. Pena que Brant encheu a história de penduricalhos desnecessários (inclusive Gero Camilo num papel que parece ter aparecido em dezenas de outros filmes do gênero). Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios não chega a ser um filme ruim, mas me parece decepcionante ao ver que um dos meus diretores brasileiros favoritos está ficando cada vez mais parecido com tantos outros (e sendo elogiado por isso). 

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios (Brasil/2010) de Beto Brant com Camila Pitanga, Gustavo Machado, Zé Carlos Machado e Gero Camilo.

sábado, 22 de junho de 2013

DVD: A Hora Mais Escura

Chastain: é duro ser mulher na CIA.

Já ouvi muita gente falando que Kathryn Bigelow dirige feito um homem. Discordo dessa frase não somente pelo fato de soar extremamente machista, mas porque muito homem não dirige feito ela. Desde que se tornou a primeira mulher a ganhar o Oscar de direção, Bigelow se tornou ainda ainda mais seca e crua em sua narrativa. Vale ressaltar, que não vejo problema algum nisso. Muita gente torceu o nariz para o tom de seu Guerra ao Terror (2008), reclamaram de sua imparcialidade  (?!) de não acusar a guerra como algo ruim. Essa crítica poderia ser até pertinente se o foco da moça não fosse outro: mostrar como o belicismo corre nas veias dos americanos (ou não foi isso que ficou claro quando o personagem de Jeremy Renner fica entediado com a comodidade do lar - e a companhia da esposa - e volta para o campo de batalha?). A ideia nem era uma novidade, já que Sam Mendes já havia tratado o assunto em Soldado Anônimo (2005), só que com a diferença de possuir toneladas de ironias e piadinhas sobre a necessidade dos rapazes dar alguns tiros por aí. Em Guerra ao Terror a coisa era diferente: uma ambição realista que beirava o documental. A Hora Mais Escura é o claro passo seguinte ao filme anterior. Sai a vida na linha de frente e chega-se aos bastidores, ou seja, as ações dos estrategistas da CIA para encontrar o paradeiro de Osama Bin Laden. Já ficou famosa a história que depois que o líder terrorista foi encontrado, o roteirista Mark Boal teve que transformar seu roteiro em algo mais coerente com a realidade atual. Além disso, o filme gerou muita polêmica. Uma delas ficou por conta de Boal afirmar que se baseou em depoimentos de agentes  da CIA metidos na operação (alegando que não citaria nomes por ter que preservar suas fontes), a outra é que se a história é tão comprometida com a verdade como diz, então os americanos torturaram em nome do paradeiro de Bin Laden (algo que negam veementemente). Sinceramente, eu prefiro acreditar em Papai Noel! Guantánamo e Jack Bauer já deixaram claro que a tortura não é tão rara quanto gostariam que imaginássemos. Obviamente que a tortura é uma violência, como todas as outras, injustificável - além de uma tática questionável de obter informações. O que mais deve ter chocado é o fato da protagonista, Maya (Jessica Chastain) presenciar a tortura com visível desconforto mas sem muito remorso (durante o filme vários personagens aparecem reclamando quando Obama proíbe os "interrogatórios"). Mas quem disse que a tortura deve ser aceita pela plateia só porque os personagens não a questionam? Afinal, trata-se de uma obra para adultos e espera-se que esses tenham discernimento para interpretar um filme! Penso que Boal e Bigelow fizeram uma reconstituição notável dos acontecimentos em torno da operação em busca de Bin Laden. A coisa é tão minuciosa que me senti tão exausto quanto os personagens. Os fatos estão ali, resta-nos interpretá-los diante da linha do bem e do mal que aparece meio borrada entre os mocinhos e bandidos do filme. Talvez os méritos do trabalho da diretora esteja justamente em deixar que os atos de seus personagens falem por si, sem necessidade de mastigar e regurgitar para o espectador o que já é visto. Pelas descobertas de Maya e sua dificuldade de se impor na fronteira entre universos repletos de testosterona, a atuação de Chastain foi muito elogiada. No início sua personagem parece apenas de corpo presente, mas conforme compreende aquele universo ela ganha força para se impor diante dos outros personagens e situações que atravessam seu caminho (passando pelo convencimento dos superiores aos atentados que sua equipe sofre). Entre perdas, suspeitas e estratégias, o filme torna-se um recorte diferente de uma história bem conhecida dos jornais, mas que aqui é tratada com a frieza  distante da esfera burocrática em confronto com a protagonista (que tomou à caça ao terrorista mais famoso do mundo como algo pessoal). O filme concorreu a cinco Oscars (Filme, atriz, edição, roteiro original e ganhou o de edição de som) e tantas polêmicas acabaram colocando o filme em comparações com Argo (2012) que ganhou o Oscar deste ano. 

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty/EUA-2012) de Kathryn Bigelow com Jessica Chastain, Jason Clarke, Jennifer Ehle, Mark Strong, James Gandolfini, Stephen Dillane e Joel Edgerton. ☻☻☻☻

DVD: O Impossível

Naomi e Holland: laços afetivos para superar a tragédia. 

Os filme catástrofe está entre os gêneros mais ingratos do cinema. O motivo é que não importa o quanto você se esforce para fazer um filme sério, sempre haverá aqueles que acusam o filme de ser melodramático, manipulador e igual a todos os outros do estilo. O diretor espanhol Juan Antonio Bayona assumiu o desafio de tentar convencer com uma das tragédias mais recentes de nosso tempo, o tsunami que devastou a Tailândia em 26 de dezembro de 2004. Para isso escalou dois atores de talento reconhecido em Hollywood e um garoto que já faz sucesso no teatro londrino e que não deve decepcionar no cinema. Baseado numa história real, o filme rendeu à Naomi Watts sua segunda indicação ao Oscar de atriz (a primeira foi por 21 Gramas/ dirigido por outro diretor de origem latina). Ela interpreta Maria, uma médica que passou os últimos anos cuidando dos três filhos enquanto o esposo,  Henry (Ewan McGregor) ganhava o sustento. Eles vão passar férias na Tailândia quando o hotel litorâneo em que estavam hospedados com os meninos é vitimado pela famosa onda gigantesca. O local fica devastado, assim como os personagens diante da dor física e emocional diante da tragédia. Parece até um milagre que Maria e seu primogênito, Lucas (o ótimo Tom Holland que ganhou alguns prêmios de revelação do ano pelo papel) se encontram e precisam cruzar vários desafios para sobreviver. No entanto, ambos sabem que os graves ferimentos de Maria irão dificultar a tarefa. Há de se reconhecer que Bayona é um diretor destemido, não teve medo de mostrar que filmes de terror podem ser belamente trágicos em O Orfanato (2007) e agora mostra que um filme catástrofe pode render uma trama de respeito. Obviamente que o tsunami faz com que a trama transborde dramaticidade, a cada pessoa que a família encontra em seu caminho é difícil para o espectador não se envolver com as situações de solidariedade ou individualismo que aparecem na tela. Mas ao invés de conquistar a audiência com draminhas, Bayona esgarça tudo que o tsunami teve de avassalador na vida daquelas pessoas. Dos rasgos na pele de Maria, aos personagens sem noção de que outra onda pode surgir ou se algum parente sobreviveu à catástrofe, consegue-se atingir uma emoção tão autêntica quanto o realismo com que o diretor trata a onda gigantesca nos momentos iniciais.   Esse impacto visual é primordial para que o filme funcione, por isso Bayona preferiu filmar num tanque gigante a usar apenas efeitos especiais. Além de seus méritos na construção do cenário devastado, ele ainda consegue atuações poderosas de seu elenco. McGregor consegue um de suas melhores trabalhos como o pai em busca de reunir a família, Naomi está excepcional num papel de poucos diálogos mas que lhe exige muito fisicamente, especialmente na expressão do olhar assustado diante da tragédia que se abateu. Já Tom Holland mostra-se um ator bastante promissor, vale lembrar que seu carisma não lembra o de Jamie Bell por acaso, foi Holland que viveu a adaptação de Billy Elliot (2000) para os palcos londrinos. Os mais xiitas ficaram reclamando da forma como o filme manipula toda a situação para que a plateia se preocupe com os protagonistas ricos e esqueçamos a dor dos pobres diante da situação. Esses devem ter visto outro filme, já que Bayona deixa bem claro que a situação econômica não gerou distinção na hora da catástrofe. Todos foram submetidos aos mesmos atendimentos precários movidos mais pela solidariedade do que pelas condições de salubridade. Além disso, somente um sujeito de pensamento pequeno acharia que a dor de um conta mais do que a do outro numa situação daquelas! Seja como for, a cena final onde essa distinção de condições aparece, o filme deixa claro que aquilo não diminui a tragédia, pelo contrário, parece ampliá-la sob o olhar lacrimejante de uma personagem. O Impossível é um bom filme, ainda que incompreendido - para se ter ideia, concorreu somente a um prêmio da Academia, quando merecia pelo menos outras quatro indicações nas categorias de maquiagem, edição, som e efeitos especiais. 

O Impossível (The Impossible/EUA-2012) de J.A. Bayona com Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland e Geraldine Chaplin. ☻☻☻☻

sexta-feira, 21 de junho de 2013

DVD: Hitchcock

Hopkins e Scarlett: as pedras no caminho para fazer um clássico. 

Ano passado Alfred Hitchcock tornou-se personagem de cinema. Esteve na pele de Toby Jones atazanando Tippi Hedren (Sienna Miller) na produção televisiva "A Garota" - sobre os bastidores de Os Pássaros (1963) e também neste filme para a telona estrelado por Anthony Hopkins personificando Hitch enquanto ele tentava dar vida ao arriscado Psicose (1960). Em comum, os dois filmes deixam claro a obsessão do diretor com suas belas estrelas. Hitchcock é baseado no livro de Stephen Rebello sobre os bastidores de Psicose e, segundo o diretor estreante Sacha Gervasi o cineasta era, na maior parte do tempo, um verdadeiro cavalheiro com Jennifer Leigh (Scarlett Johansson) - talvez por ela ser casada com Tony Curtis e ter duas filhas (e mesmo quando ele dá seus xiliques, ela o considera muito mais agradável de lidar do que Orson Welles, com quem trabalhara em A Marca da Maldade/1958). Quem aparece como testemunho das manias do diretor com suas divas é Vera Miles (Jessica Biehl),  atriz que o deixara na mão antes de filmar Um Corpo Que Cai (1958), mas o assunto é abordado apenas superficialmente com breves comentários no roteiro. Parece que o Hitchcock não conseguia entender como as atrizes poderiam escolher casar e ter filhos a viver o estrelato de seus filmes. O filme sugere que a maior mágoa do diretor é mesmo com Grace Kelly, que depois de trabalhar em três filmes com ele, largou o estrelato para casar-se com o príncipe de Mônaco. O filme de Gervasi se concentra mais é na relação de Alfred com a esposa, Alma (Helen Mirren, indicada ao Globo de Ouro pelo papel), principalmente na forma como ela o ajudava a dar forma aos filmes dele. É interessante como Alma é mostrada como figura fundamental para dar vida ao filme Psicose. O projeto era considerado muito arriscado pelo estúdio, ao ponto de Hitch produzí-lo com dinheiro do próprio bolso (hipotecando a casa) num esquema independente, deixando para o estúdio apenas a distribuição do longa - se considerasse que seria rentável. Os problemas com o filme já começam por conta da obra de Robert Bloch ter sido considerada apenas um livro de terror qualquer, uma trama bastante abaixo das habilidades do diretor.  Hitch enxergava em Psicose uma forma de expressar seu olhar sobre a mente de um psicótico e ainda brincar com algumas convenções do cinema (como matar a protagonista no meio do filme). Ciente de que a surpresa final era fundamental para que funcionasse a história, Alfred pediu para que comprassem todos os exemplares do livro antes que os leitores pudessem desvendar o mistério do Hotel Bates. Essa visão dos bastidores fascina qualquer cinéfilo, mas o diretor coloca coisa demais em sua história sem ter habilidade para lidar com todas elas. É até interessante explorar a crise na relação de Alfred e Alma, ao ponto dele suspeitar que ela tem um caso com um escritor (Danny Huston) e prejudicar a realização do filme (um dos momentos mais aguardados é a cena do chuveiro como um retrato desta crise no relacionamento). Alma costumava ajudar o diretor na produção, no roteiro, na edição, mas a irritação perante à vida na sombra das obsessões do esposo, a aborreciam o suficiente para que a parceria sofresse uma fissura. Sem saber muito bem a direção que deve tomar, Gervasi deixa o seu elenco a vontade para explorar os seus personagens. Hopkins, apesar da maquiagem, consegue injetar bastante humor em meio a estranheza do personagem. Scarlett consegue construir uma Jennifer Leigh adorável. Helen Mirren consegue dar carne e osso para Alma e até Toni Collette tem uma participação pequena mas marcante como a assessora de longa data de Hitchcock. Quem aparece pouco, mas chama a atenção, é James D'Arcy na pele de um Anthony Perkins que tem muito da postura física de Norman Bates! Apesar das boas tiradas (como o diretor rejeitando a clássica trilha sonora, a elaborada estratégia de marketing para vender o filme ou o pássaro pousando no ombro de Hitch quando ele pré-anuncia seu novo projeto à plateia), Gervasi não consegue conjugar os bons elementos que tem em mãos com a harmonia necessária para transformar o longa num filme à altura de seu biografado. Talvez pelo seu fascínio pelo mestre do suspense, o diretor tenha se acovardado,  deixado a sensação de que suas pretensões ficaram pelo meio do caminho. 

Hitchcock (EUA/2012) de Sacha Gervasi com Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlet Johansson, Jessica Biel, Toni Collette, James D'Arcy e Danny Huston. ☻☻☻

quarta-feira, 19 de junho de 2013

4EVER: James Gandolfini

(18 de setembro de 1961 / 19 de junho de 2013)

Nascido em Nova Jersey, James Gandolfini foi o mafioso que todos aprendemos a gostar. Responsável pela antológica interpretação de Tony Soprano no seriado revolucionário Família Soprano (1999-2007), o ator saiu do anonimato de uma carreira que começou na década de 1980. Na pele de Tony, Gandolfini recebeu 16 prêmios (Emmy e Globo de Ouro incluídos) e recebeu uma segunda chance no cinema em boas atuações, seja em filmes questionáveis como A Mexicana (2001) e Corações Perdidos (2010) ou elogiados como In The Loop (2009), O Homem da Máfia (2012) e A Hora Mais Escura (2012). Esse ano ele chegou a ser cotado para o Oscar de coadjuvante na pele do pai de rockstar em Not Fade Away (2012). Dia 19 de junho, James foi encontrado ainda vivo pelo filho no banheiro de um hotel durante um ataque cardíaco, mas faleceu no hospital. O funeral do ator será realizado na Itália. 

LADIES & GENTLEMEN: Sam Rockwell

O californiano Sam Rockwell nasceu no dia 5 de novembro de 1968 e aos dois anos mudou-se com a família para Nova York. Seus pais também eram atores e aos cinco anos o  menino teve que atravessar o divórcio do casal. Ele acabou indo morar com o pai em São Francisco e passando os verões com a mãe em Manhattan. Sua estreia como ator aconteceu ao lado da mãe quando tinha apenas dez anos. Quem conheceu o ator durante a adolescência garante que os tipos inconsequentes que costuma viver nas telas são inspirados nele mesmo, já que ele vivia chapado e correndo atrás das garotas em festas. Sua estreia no cinema aconteceu numa produção de Francis Ford Coppola de 1989, o obscuro Palhaço Assassino (Clownhouse), onde interpretava um dos três fugitivos de um manicômio que, disfarçados de palhaços, aterrorizam três crianças. A produção marcou a despedida de Rockwell de São Francisco. Decidido a tornar-se ator, mudou-se para Nova York e foi aprimorar o seu talento. Lentamente ele conseguiu participações em produções para a TV e pequenas aparições em filmes conhecidos como Noites Violentas no Brooklyn (1989), As Tartarugas Ninja (1990) e O Dono da Noite (1992). Com mais de uma dezena de títulos desconhecidos no currículo, as coisas pareciam começar a mudar quando o ator foi convidado por Woody Allen para participar de Celebridades (1998). Apesar de sua eficiência em cena, a carreira ainda não decolou. O ponto de mudança foi mesmo em 1999. Naquele ano, o ator participou do shakesperiano Sonhos de Uma Noite de Verão, fez uma participação no divertido Heróis Fora de Órbita e chamou a atenção do público como o prisioneiro mais desagradável de À Espera de Um Milagre (1999). Sua personificação como o vilão Wild Bill caiu no gosto da crítica - era como se o ator percebesse que a personificação de um sujeito tão deplorável fosse a grande chance de sua carreira. Apesar de todos os olhos estarem voltados para o gigante Michael Clarke Duncan (que foi indicado ao Oscar de coadjuvante), Rockwell recebeu uma cota generosa de elogios e não parou mais de ganhar papéis de destaque. No ano seguinte foi o vilão bobo de As Panteras (2000) e no ano seguinte participou de cinco produções - a de maior prestígio foi O Assalto  (2001) de David Mamet, onde atuou ao lado de Gene Hackman e Morgan Freeman. Sua chance como protagonista só veio em 2002, quando George Clooney o escalou para sua estreia na direção. Confissões de Uma Mente Perigosa contava com mais uma atuação inspirada de Rockwell. O roteiro de Charlie Kauffman retratava os delírios da biografia de  Chuck Barris que dizia ter trabalhado como agente da CIA (e vivido histórias tão mirabolantes que nem a CIA admite suas sandices). Rockwell ganhou o prêmio de ator no Festival de Berlim pelo papel e vivia ali a criação de um tipo que lhe persegue até hoje: o "doidinho". Mas sua versatilidade ainda lhe rendeu papéis como o amigo traidor em Os Vigaristas (2003) de Ridley Scott e uma participação especial no descolado O Guia do Mochileiro das Galáxias (2005). Talvez pelo tom cômico que tempera suas atuações, o ator surpreenda mesmo em personagens sérios como o de Charley Ford em O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2007) e Frost/Nixon (2008). Apesar de curtir muito sua atuação como o viciado em sexo de No Sufoco (2008), minha atuação favorita de Rockwell está na estreia de Duncan Jones no cinema. Lunar (2008) é uma pérola pouco famosa da ficção científica recente de Hollywood, mas traz um trabalho memorável do ator como um astronauta que entra em crise de identidade sozinho na Lua. Solitário em cena, Rockwell tem uma performance memorável submerso nos conflitos do personagem - mas o grande público deve lembrar mesmo é dele como o o rival de Tony Stark em Homem de Ferro 2, lançado no mesmo ano. Ainda sem indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro, imaginaram que sua atuação em A Condenação lhe rendesse alguma coisa. Engano. Restou fazer menos do que devia em filmes como Cowboys & Aliens (2011) e O Babá(ca)  (2011). Sorte que de vez em quando aparecem roteiros como de Sete Psicopatas e um Shih Tzu (2012) para lhe render prêmios no cinema independente e associações de críticos. Com cinco filmes agendados para estrear em 2013 - entre eles o elogiado no Festival de Berlim, A Single Shot e o novo longa de Clark Gregg, Trust Me. Você ainda vai esbarrar com ele em alguma telona neste ano.

Com o diretor Clooney (esq.) em  Confissões de Uma Mente Perigosa: melhor ator em Berlim. 

DVD: A Condenação

Swank e Rockwell: frutos de uma família disfuncional. 

Hillary Swank é o tipo de atriz que Hollywood não sabe muito bem o que fazer com ela. Com dois Oscars de atriz na estante (Meninos não Choram/1999 e Menina de Ouro/2004), esta norte americana nascida em Nebraska não se enquadra no tipo de papel que os estúdios costuma encaixar suas mulheres. Ela não é muito convincente bancando a heroína romântica (P.S. Eu Te Amo/2007), não fica bem de garota assustada (A Colheita do Mal/2007 ou A Inquilina/2010) ou sofredora (O Dom da Premonição/2000) e seu físico esguio de dentes enormes também não cai bem como heroína de filmes de ação (O Núcleo/2003) ou mulheres sedutoras (Dália Negra/2006), sendo assim os papéis que lhe caem bem são específicos e escassos: mulheres fortes e determinadas (como os que lhe renderam os prêmios da Academia e o papel da policial em Insonia/2002 de Christopher Nolan). Swank sabe disso, tanto que quando soube que havia uma história real inacreditável só esperando para ser contada na telona ela a agarrou com unhas e (grandes) dentes. O problema é que histórias inacreditáveis costumam ser bastante polêmicas e ela não contava que a repercussão de sua assinatura na produção de A Condenação poderia comprometer o sucesso do filme.  A Condenação conta a história real de Betty Anne Waters (Swank), uma mulher casada e com dois filhos que tem a vida transformada depois que o irmão, Kenny (Sam Rosckwell) é acusado e preso por assassinar uma moradora das redondezas. Acreditando na inocência do irmão, Betty irá se formar em direito para que possa reabrir o caso e provar que o irmão é inocente. A direção de Tony Goldwin (mais conhecido como o amigo traidor de Patrick Swayze em Ghost/1990) mostra-se bastante eficiente, mas convencional. Goldwin demonstra ter plena consciência de que o roteiro é amparado pela obstinação da personagem e do seu vínculo com o irmão (que é ainda mais reforçado pelas desnecessárias cenas de infância da dupla, onde chegam a invadir domicílios para saber como é viver numa casa normal). Betty e Kenny são aquilo que os americanos costumam chamar de White Trash: as famílias são complicadas, moram em trailers e os pais não conseguem cuidar nem de si mesmos. Embora Hillary na pele de Betty garanta o tom edificante do filme, a produção tem alguns problemas. Um deles é que fala-se tão pouco da assassinada que não fazemos a mínima ideia de quem seja. Não aparece durante todo o filme nenhum parente da vítima, apenas a família Waters e algumas testemunhas de acusação (a esposa de Kenny vivida por Clea Duvall e uma namorada esquisita do moço encarnada pela sempre competente Juliette Lewis), estas são amparadas pela policial responsável pelo caso, a suspeita Nancy Taylor (Melissa Leo). Essa parcialidade do roteiro foi bastante criticada, já que os parentes da vítima acusaram o filme de tendencioso e que mostram Kenny como um sujeito apenas esquentadinho. Outro problema da narrativa é a forma como são retratadas as perdas da própria Betty Anne durante a jornada pela inocência de Kenny (seu divórcio nem é trabalhado pelo roteiro e a relação com os filhos é pouco explorada), o que interessa mesmo é a busca por provas que inocentem o irmão. Problemas a parte, temos que admitir que Swank está convincente, mas não tão excepcional ao ponto de gerar as especulações que quase a colocaram na mira do terceiro Oscar, afinal, sua atuação não é melhor do que a do resto do elenco. Se alguém merece destaque é Sam Rockwell que consegue fazer de um tipo suspeito ser bastante simpático e humano, mas se ele não conseguiu pairar nas premiações com o astronauta de Lunar (2009), beirava o impossível ele concorrer a estatuetas por conta de um controverso suspeito de assassinato. 

A Condenação (Conviction/EUA-2010) de Tony Goldwin com Hillary Swank, Sam Rockwell, Clea Duvall, Juliette Lewis, Melissa Leo e Ele Bardha. ☻☻☻

terça-feira, 18 de junho de 2013

DVD: Os Miseráveis

Jackman: Cosette no colo de Wolverine?

Continuando minha peregrinação pelos indicados ao Oscar de Melhor Filme deste ano, que acabam de chegar em DVD, assisti a Os Miseráveis de Tom Hooper. Para introduzí-los a todos os meus receios sobre o filme vou ser bem direto antes de falar sobre o material em si. Lembro quando estava na Universidade Federal Fluminense fazendo aula de Cinema e Literatura quando a professora exibiu a versão de 1998 da obra de Victor Hugo para o cinema. Os Miseráveis (1998) tinha direção de Bille August e atuações inspiradas de Liam Neeson (na pele de Jean Valjean), Geoffrey Rush (Javert), Uma Thurman (Fantine) e Claire Danes (Cosette). Apesar de toda dedicação o filme tinha produção modesta e não empolgou nas bilheterias. Na ocasião a professora levou até a trilha sonora do musical inspirado na obra. Na hora eu achei esquisito, afinal, um musical com um protagonista  condenado para o resto da vida por roubar um pedaço de pão não é propriamente a matéria prima para agudos inspirados. Depois do Oscar por O Discurso do Rei/2010 (que apesar de toda a produção de poucos recursos ganhou quatro prêmios da Academia, incluindo melhor filme), Tom Hooper alardeou que faria uma adaptação do musical Les Misérables. Eu fiquei preocupado. Conforme as estrelas aderiam à produção (Hugh Jackman - que há tempos queria um musical na telona -, Russell Crowe e Anne Hathaway) meu interesse foi crescendo. Durante toda a campanha de marketing ficou bem claro que esta sexta adaptação da obra de Victor Hugo para a telona tinha a produção mais caprichada. Dos cenários aos figurinos, ele parece ter custado muito mais do que os alardeados 61 milhões de dólares. No entanto, eu sabia que a minha relação com o filme seria complicada. Quero deixar claro que não há do que reclamar do filme enquanto produção cinematográfica.  Tudo nele é de encher os olhos, as atuações, o som, as imagens, no entanto eu precisei de alguns minutos para me acostumar ao vilão Javert (Crowe) cantando sempre em terceira pessoa enquanto persegue Jean Valjean (Hugh Jackman)! Acho que até em Dançando no Escuro (2000) de Lars Von Trier as mazelas cantadas faziam mais sentido. Depois que eu me acostumei com a narrativa cantada eu achava que estava tudo resolvido, mas achei a duração longa demais (duas horas e quarenta minutos) para ouvir as canções quase sempre parecidas. Talvez por isso, os momentos que mais me empolgaram foram os monólogos de Eponine (a revelação Samantha Barks) e Fantine (Hathaway, que levou o Oscar de coadjuvante pela cena), ambos me soaram mais intimistas e reais do que a maioria dos números apresentados. Quem conhece a história clássica irá identificar que a essência da obra de Victor Hugo está presente. Seu discurso panfletário contra a miséria da França no século XIX e a necessidade de uma Revolução para mudar o sistema opressor existente. Os personagens são retratos dessas mazelas. Jean Valjean (Jackman) é um homem condenado eternamente por roubar um pão, ele foge de sua condicional e clandestinamente se torna um homem de respeito. Sua vida seria melhor se o obstinado inspetor Javert não o reencontrasse, justo quando Jean se sensibiliza com a história de Fantine, que precisa trabalhar para que uma dupla de picaretas (Sacha Baron Cohen e Helena Bonhan Carter) cuide de sua pequena filha pequena Cosette. Valjean acaba fugindo com Cosette (quando crescida será Amanda Seyfried) que irá se apaixonar pelo revolucionário Marius (Eddie Redmayne). Mais do que homem da lei, Javert é um sujeito que persegue sua classe de origem como se isso o afastasse de suas origens, enquanto Jean é seu completo oposto (sendo movido por ações notadamente humanistas). É dessa relação dicotômica que a história se nutre. Hooper consegue manter a intensidade dos personagens, mas tanta pompa pode ficar cansativa para quem não tem o gênero musical entre os seus favoritos ou para fãs ferrenhos da obra de  Victor Hugo. Ainda tenho minhas ressalvas de que tudo pode se tornar um musical (já imaginou um com o Quarteto Fantástico?), mas pode ser pura rabugice minha! Vale conferir os méritos de Les Misérables nem que seja para constatar que Hugh Jackman não pode ser condenado a ser Wolverine para sempre. 

Os Miseráveis (Les Misérables / EUA/Reino Unido-2012) de Tom Hooper com Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Sacha Baron Cohen, Helena Bonhan Carter, Eddie Redmayne, Samantha Barks e Aaron Tveit. ☻☻☻

DVD: Indomável Sonhadora

Wallis: a mais jovem indicada ao Oscar de Atriz. 

O estreante Behn Zeitlin nunca deve ter pensado que seu primeiro filme iria parar no Oscar. Acho que nem as críticas positivas conquistadas no Festival de Cannes o havia convencido de que Indomável Sonhadora tinha chances de fazer bonito na temporada de ouro. É verdade que boa parte do impacto do filme se deve à atuação da precoce Quvenzhané Wallis (merecidamente indicada ao Oscar de Melhor Atriz, tornando-se a mais nova atriz a concorrer ao prêmio) tinha pouco mais de sete anos quando filmava na pele da protagonista Hushpuppy. Sua intensidade é de fazer corar muitas atrizes celebradas! Mas a surpresa de Zeitlin deve ter brotado do fato de que seu filme é completamente fora dos padrões  Hollywoodianos. Para começo de conversa seus personagens são de um grupo que o cinema americano prefere ignorar: os americanos muito pobres. Não estou me referindo aqueles que precisam trabalhar para pagar as contas, mas aqueles que, na grande maioria das vezes, não tem nem trabalho. Sim, existem pessoas muito pobres na terra do Tio Sam. Os do filme moram numa ilha (chamada carinhosamente de "a banheira") localizada numa barragem que devido a uma tempestade fica submersa. Além da pobreza, que não lembro ter sido mostrada de forma tão despudorada na produção americana recente, existe alguns toques de fantasia para que a plateia possa acompanhar a dura vida de Hushpuppy e a comunidade em que vive. Zeitlin mostra suas cenas de forma quase documental e fotografia realista (o ruim são as malditas câmeras trêmulas) para emoldura os moradores daquela localidade e seu cotidiano. O que enriquece o filme é a narrativa da garota que corta cada cena como se fosse uma navalha poética. Diante da dura realidade que presencia, ela especula sobre o que diz o coração dos animais enquanto bate, sobre o paradeiro da mãe, sobre o mundo, as geleiras e sente-se culpada pela doença do pai. Talvez por conta das reflexões da menina, os distribuidores brasileiros acharam bonitinho chamá-la de "sonhadora", mas ela está longe de fugir da realidade que a cerca. Pelo contrário, ela tem ambições bastante concretas que é sobreviver à enchente local (que irá gerar uma manifestação de moradores), reencontrar a mãe e ficar parte do pai até a inevitável despedida. O ideal deveria ser uma tradução fiel do título em inglês, Bestas (ou feras) do Sul Selvagem soa tão cru quanto o roteiro pretende ser.  A ideia de Zeitlin juntar uma narrativa realista com toques de fábula (acho que é isso que significa aqueles javalis gigantes que caminham até a comunidade do filme) funciona sempre que a narradora explora as possibilidades das cenas, mas em alguns momentos o filme é bastante desengonçado na passagem dos acontecimentos que aparecem na tela. Não chega a prejudicar o filme, mas em alguns momentos o filme parece perder o fôlego. Indomável Sonhadora é um filme de baixo orçamento, repleto de ideias e de alguns vícios estéticos que merecem os quatro prêmios recebidos no Festival de Cannes no ano passado, as quatro indicações ao Oscar (filme, diretor, roteiro adaptado e atriz) e entrar para a história por revelar uma atriz que tem o nome complicado proporcional ao seu talento. 

Indomável Sonhadora (Beasts of Southern Wild/EUA-2012) de Behn Zeitlin com Quvenzhané Wallis, Dwight Henry e Levy Easterly. ☻☻☻

domingo, 16 de junho de 2013

COMBO: Mockumentary

O Mockumentário é o tipo de filme que passa ao espectador a sensação de retratar algo que aconteceu de verdade. Para criar a sensação de que estamos diante de um fato real - ou de registros de câmeras escondidas diante da realidade - vale qualquer coisa: atores falando para a câmera, enquadramentos distantes, cenas toscas, diálogos desarticulados, cortes bruscos e, principalmente, câmeras trêmulas o tempo inteiro (que eu odeio). No entanto, essas características não precisam aparecer todas juntas, depende da intenção da obra. Separei neste Combo, cinco filmes realizados pelos dogmas do gênero que merecem ser lembrados:

5 A Bruxa de Blair (1999) Me arrisco a dizer que se Daniel Myrick e Eduardo Sanchez. não houvessem lançado este filme baratíssimo e de enorme repercussão jamais teria existido Rec (2007), Atividade Paranormal (2007), Cloverfield (2008), O Último Exorcismo (2010), Apollo 18 (2011) e tantos outros filmes de terror que investem numa atmosfera real para contar suas histórias. A ideia dos três estudantes que se perdem numa floresta assombrada por uma bruxa (e deixam uma câmera para contar história) levou milhões de pessoas ao cinema -  a maioria iludida de que o que viam era real. Não era, mas a narrativa simplista que investe pesado no pavor do desconhecido até que funciona muito bem. Além de marcar as histórias de horror, o filme consolidou a internet como meio primordial de campanhas publicitárias para o cinema. 

4 Poder sem Limites (2012) A necessidade de justificar as câmeras escondidas nas cenas mais mirabolantes às vezes atrapalha esse filme de ação para adolescentes. Porém, a plateia nem se incomoda diante das cenas de ação mais do que convincentes sobre três amigos que descobrem um estranho meteorito que lhes atribui super-poderes. No início eles só querem curtir (e encher a linguiça do roteiro), nessa parte que é feito os desenhos dos personagens e mostra que um vilão é feito com um bocado de tristeza e ressentimentos! Esse vilão é o que destaca Dane DeHaan (o aprendiz de Leonardo DiCaprio) que não faria feio na tropa de Magneto. A ideia deu tão certo que pode virar uma franquia, mas antes o diretor Josh Trank irá repaginar as aventuras do Quarteto Fantástico no cinema. 

3 Borat - O Segundo Melhor Repórter do Cazaquistão Viaja à América (2007) Desde que tinha seu programa de televisão sabia-se que o humorista Sacha Baron Cohen não tinha medo de incomodar os politicamente corretos. Isso ganhou carne e osso quando vimos o documentário realizado por Borat na exploração dos preconceitos da terra do Tio Sam. Como não era um personagem famoso, o filme traz momentos bastante reveladores dos entrevistados sobre uma sociedade que se diz paladina da democracia e da liberdade. Cenas como o judeu botando ovo ou a luta de Borat e seu assistente peladões só não causaram mais polêmica do que a pilha de processos dos entrevistados nessa genial provocação. O filme acabou indicado ao Oscar de roteiro adaptado e Sacha ganhou o Globo de Ouro de ator de comédia. Pena que em Brüno (2009) a forma mostrou-se gasta.

2 Zelig (1983) De vez em quando Woody Allen inventa um filme sobre um sujeito que nunca existiu, mas nenhum deles teve a vida tão bem retratada quanto Leonard Zelig, um homem que sofria de um distúrbio raro: a síndrome do camaleão. Zelig era capaz de absorver características físicas e psicológicas de quem estivesse por perto. Ambientado nas décadas de 1920 e 1930 o filme tem uma reconstituição de época tão impressionante quanto os efeitos que inserem o personagem em momentos importantes da história. Cenas como a dança do lagarto ou seu embate com a psicóloga são hilariantes e provam porque Woody Allen é considerado gênio mesmo quando você não gosta dos filmes dele. Zelig é uma alegoria sobre a necessidade humana de aceitação. 

1 Por trás das Câmeras (2006) Esse primeiro lugar é um verdadeiro conjunto da obra, afinal precisamos celebrar Christopher Guest que tornou o mockumentary o seu estilo de vida! Parece que desde que participou da equipe do antológico This Is Spinal Tap (1986), o diretor mergulhou em criar documentários de mentira sobre o estilo de vida dos americanos. Filmes como O Melhor do Show (2000), Esperando por Guffman (1996) e Os Grandes Músicos (2003) tem sua legião de fãs e merecem ser vistos. O estilo do diretor e sua patota de atores (que inclui Catherine O'Hara, Parker Posey e o parceiro em roteiros Eugene Levy) são tão conhecidos que até participaram de uma vinheta no Oscar desse ano. A premiação da Academia é o alvo desse filme hilariante sobre os envolvidos num filme independente que sofre as especulações de ser indicado ao prêmio. Egos inflados, competitividade e um final surpresa garantem a diversão!

sábado, 15 de junho de 2013

DVD: J C Comme Jésus Christ

O prodígio JC: A fama como uma tigela de cereal! 

JC ganhou a Palma de Ouro em Cannes (ele já recebera um prêmio no Festival pelo seu curta de estreia Cereja Crocante quando tinha apenas 13 anos). Aos 16 ganhou o seu primeiro Cesar (o Oscar francês). Preparando seu próximo longa-metragem (um musical baseado na história do pedófilo mais famoso de todos os tempos), o jovem tem dez dias de sua vida filmados para um documentário. Ficou impressionado com o currículo do rapaz? Então se prepare para saber que JC é uma bela piada com o mundo do cinema. O público e a crítica não ligou muito para esse documentário de mentirinha que rende risadas, mesmo que seja por algumas piadas bastante esquisitas. JC (o gaiato Vincent Lacoste com visual de Bob Dylan juvenil) mantém o olhar blasée ainda que more com os pais, engane a namorada romântica, saia com estrelas e prostitutas, esnoba Lars Von Trier e sonha em ter Vincent Cassel ao lado de Diane Kruger e Mélanie Laurent em seu novo filme, além de (obviamente) posar de gênio incompreendido quando precisa convencer seus produtores que que sua nova ideia é totalmente viável. O filme de estreia do diretor Jonathan Zaccaï apoia-se numa piada só, mas faz isso com tanto gosto que a plateia nem vai se importar. Além de brincar com o mundo dos prodígios do cinema, ainda brinca com a "privacidade pública" que tornou-se cada vez mais comum na era dos reality shows. JC aparece na maioria do tempo como um sujeito egocêntrico e mimado (não dispensa que a mãe lhe entregue uma tigela de cereais no café da manhã). Se essas características já é presente num adolescente comum, imagine o efeito da fama num sujeito desses? Parece que JC não se dá conta do quanto sua rotina atrapalha quem está ao seu redor (ou então, percebe e não está nem aí). Considerei que as melhores piadas são aquelas onde os personagens querem trair o documentário que está sendo filmado (como a amante estrela de cinema vivida por Elsa Zylberstein fingindo que entre eles o relacionamento é apenas "artístico" quando se encontram num quarto vestidos em cima de uma cama de casal, ou quando os pais pedem que desliguem a câmera para que possam dar um sermão no mocinho), além das impagáveis cenas de atores apontando suas semelhanças com o personagem do novo filme de JC (um pedófilo, lembra?). As desventuras do jovem diretor irão levá-lo até a casa de um produtor (que pode até financiar o polêmico musical se sua esposa tiver um papel no filme) e a conhecer um jovem diretor (vindo das artes plásticas) que pode até tomar o seu lugar no mainstream. Ao fim dos dez dias de filmagem (que inclui até uma invasão ao quarto dos pais de JC) o documentarista chega a conclusão que JC é genial - enquanto o câmera considera o rapaz completamente biruta. No fim das contas essa despretensiosa comédia francesa consegue ser bastante divertida sem mostrar a redenção de sua celebridade inventada (sem perder a chance de alfinetar por dentro a pompa que ainda enxergam no cinema francês). Obviamente que com tanta genialidade, o filme não poderia deixar Jean Luc Godard de fora (no caso ele "aparece" enquanto sobe os créditos comentando suas impressões sobre tudo, inclusive Shrek 2!! A brincadeira rendeu o nome do filme no mercado internacional: Play it  Like Godard. 

JC Comme Jésus Christ (França/Bélgica - 2011) de Jonathan Zaccaï com Vincent Lacoste, Elsa Zylbertein, Kad Merad,  e Aure Atika. ☻☻☻

DVD: Roman Polanski - Uma Vida em Filmes

Adrien Brody e Polanski em O Pianista: o filme favorito do diretor.

Não resta dúvidas de que Roman Polanski é um dos maiores cineastas do século XX. Também não resta dúvida de que é um dos que possui a vida mais marcada por tragédias e polêmicas. Ainda menino, sobreviveu ao holocausto no gueto de Cracóvia, presenciando a morte de amigos e da própria mãe. Com a vida reconstruída e a carreira consolidada em Hollywood, a esposa grávida Sharon Tate foi assassinada pelo lunático Charles Manson e seu bando em 1969. Não bastasse essas tristezas, ele foi acusado de seduzir uma garota de quinze anos numa festa, sendo preso em 1977 num processo que até hoje lhe persegue. Esses são alguns dos assuntos abordados neste documentário idealizado pelo amigo Andrew Braunsberg, filmado na casa do cineasta em Gstaad, na Suíça. Desde o início fica claro que Andrew é amigo de longa data de Roman, é essa intimidade que diferencia o documentário, em formato de entrevista, de um talk show televisivo. Diante da câmera, Polanski relembra as dificuldades vividas durante a Segunda Guerra Mundial, as dores das perdas e momento marcantes como o reencontro com o pai. Andrew explora bastante esse passado doloroso do diretor (talvez até demais), mas consegue estabelecer relações interessantíssimas entre esse período com o filme que muitos consideram a obra-prima do cineasta: O Pianista (2002), filme pelo qual o cineasta recebeu o Oscar de direção em 2003. Cenas como a que o pai do personagem é agredido ou o momento em que Adrien Brody tenta abrir uma lata de picles são inspiradas em vivências do próprio diretor. O filme ressalta ainda mais toda a dor que o diretor sentiu durante aquele período sobreposta na história do pianista Wladyslaw Spilszman. O diretor ainda comenta o início de sua carreira, quando sua estreia com A Faca na Água (1962) foi perseguido pelos sensores e quando filmado só encontrou prestígio quando lançado no mercado internacional (sendo até indicado ao Oscar de filme estrangeiro). É curioso ainda as lembranças de suas participações como ator em alguns filmes (desde a adolescência), sua rejeição ao sucesso Repulsa ao Sexo (1965) estrelado por Catherine Deneuve. Os fãs ainda vão gostar de vê-lo ao lado das equipes de seus filmes (inclusive de O Deus de Carnificina/2010, filme em que trabalhava quando o documentário foi realizado). Apesar de retratar sua felicidade atual ao lado de Emmanuelle Seigner,  o filme se rende mesmo aos acontecimentos obscuros na vida do diretor. Sobre a morte de Sharon Tate fica claro que o diretor ainda não digeriu a perda tão traumática. Sobre a acusação de pedofilia (que rende a prisão do cineasta na Suíça quando ele viajava para receber um prêmio), o filme mostra um trecho da entrevista com a garota-já-crescida que conta por que considera que a mídia e a justiça prejudicaram mais sua vida do que a noite que esteve ao lado do cineasta. Sem firulas, mas com cenas de arquivo dos longas mais relevantes da carreira do cineasta, o filme consegue ser eficaz em sua simplicidade e nos fazer admirar ainda mais o talento que surgiu de uma trajetória tão conturbada. 

Roman Polanski: Uma Vida em Filmes (Roman Polanski: A Film Memoir/Reino Unido; Itália; Alemanha -2011) de Laurent Bouzereau com Andrew Braunsberg e Roman Polanski. ☻☻☻

DVD: Martha Marcy May Marlene

Elizabeth e Hawkes: a melhor Olsen de toda a história. 

Não lembro de ter visto este filme ganhar espaço nos cinemas. Depois de assistí-lo em DVD acho que, devido a sua estranheza, acabou indo direto para as locadoras. Desde a exibição em Cannes o filme do novato Sean Durkin foi saudado com elogios, principalmente por exibir os genes mais famosos da família Olsen, que foram todos para Elizabeth. Ela é a irmã caçula daquelas gêmeas (chatinhas) Mary-Kate e Ashley Olsen, curioso é que bastou apenas um filme para que ela fosse considerada a melhor atriz da família e quase fosse indicada ao Oscar! Pode parecer truque de marketing, mas a garota, que tinha vinte anos quando o filme foi realizado é realmente bastante competente. O resultado é fruto das aulas de teatro que obteve na infância e os estudos na Escola de Artes de Nova York. A indicação ao Oscar de Lizzie acabou não aparecendo, mas ela colecionou alguns prêmios da crítica e em festivais de cinema independente. Desde o início vemos que Martha Marcy May Marlene não é o tipo de filme realizado para ser um campeão de bilheteria, mas é extremamente eficaz em sua proposta de gerar tensão ao explorar um tema que parece estar voltando à moda. O filme mistura o passado e o presente de Martha (Elizabeth Olsen), uma adolescente que parece ter atravessado problemas familiares e cujo o único parentesco é com uma irmã recém casada (Sarah Paulson). Martha passa a morar com a irmã depois de algum tempo em meio a uma comunidade que parece hippie, mas que mantinha traços de culto abusivo. Liderados por Patrick (John Hawkes), um grupo de jovens viviam em comunidade, com prática de sexo livre e... treino de tiro e prática de alguns assaltos pela redondezas. Isolados do mundo, os rapazes atendem o telefone sob o nome de Mathew Lewis e as garotas com o nome de Marlene Lewis, o que só indica que o grupo tem coisas sérias a esconder. Esse passado obscuro só conhecemos através dos flashbacks que assombram a jovem enquanto a irmã e o cunhado (Hugh Dancy) tentam descobrir o que se passa na cabeça atormentada da garota. Ao que parece, as coisas vão demorar para entrar nos eixos na mente de Martha, principalmente por que as marcas são mais profundas do que ela mesma imagina. Além das atuações, existem vários outros méritos no filme de Sean Durkin. A maior delas é a tensão que o diretor consegue construir vagarosamente conforme a narrativa mescla os fatos do passado ao presente da personagem. A mistura exala um perigo iminente que culmina no final paranoicamente aberto. A trilha sonora também colabora muito ao criar os tons estranhos da história e a edição Zac Stuart-Pontier merecia um Oscar pela precisão com que corta e costura as percepções da plateia pelos olhos da protagonista. Muita gente compara o culto do filme aquele fatídico de Charles Manson (que vitimou Sharon Tate, esposa de Roman Polanski em 1969) e comparam Martha à personagem de Catherine Deneuve em Repulsa ao Sexo (1965) do próprio Polanski. Essas sinistrices só colaboram para deixar o filme ainda mais estranho. Há quem considere que a abordagem psicológica do filme enfraquece um pouco a força da história, eu penso totalmente o oposto. A abordagem sutilmente perturbadora de MMMM é suficiente para deixar a plateia à beira do ataque de nervos por um bom tempo, especialmente pelo que os lobos em pele de cordeiro andam fazendo com uma juventude cada vez mais sem referencias. Depois de ver o filme, vale buscar na internet o curta-metragem Mary Last Seen  feito pelo mesmo diretor em 2010 que conta uma espécie de prévia deste aqui.

Martha Marcy May Marlene (EUA-2011) de Sean Durkin com Elizabeth Olsen, Sarah Poulson, John Hawkes, Hugh Dancy e Brady Corbett. ☻☻☻☻

terça-feira, 11 de junho de 2013

DVD: We'll take Manhattan

Jean e Bailey: ditando tendências na marra. 

Penso que se We'll Take Manhattan fosse lançado nos cinemas seria um desses cults que podem até fazer bonito em algumas premiações (nem que seja pelo figurino). Produzido para a TV pela BBC, o filme é saboroso de se assistir, graças a linguagem deliciosamente pop impressa pelo  diretor John McCay. Soma-se a isso a química irresistível entre os atores principais, que vivem o fotógrafo David Bailey (Aneurin Barnard) e sua musa Jean Shrimpton (Karen Gillian) e o nascimento do estilo Swinging London. Ambientado no inverno de 1962, o filme retrata a feitura de um dos ensaios que causaram uma revolução na conceituada revista Vogue. Apesar de ambientar sua trama no mundo da moda, o filme está longe de ser deslumbrado sobre esse universo, revelando uma visão bastante crítica sobre um mundo que estava prestes a ser transformado. Conforme indica a introdução do filme, não havia uma cultura jovem fixada até então. Os Beatles e o rock ainda não haviam estourado e a moda era consumida por senhoras endinheiradas e elegantes. Desde a primeira cena vemos que Bailey é uma espécie de rebelde. Cansado das poses gélidas de modelos diante da câmera, ele  se demite de um grande estúdio para trabalhar por conta própria, imprimindo o seu olhar sobre um mundo que era mais pulsante do que o que aparecia nas capas de revista. É até engraçado quando um editor da Vogue o convida para fotografar e antes de aceitar ele pergunta ao jornaleiro se aquela publicação vende. O jornaleiro reponde: "É, rende um dinheirinho". Insatisfeito com o salário e relegado a uma salinha pequena da publicação Bailey parecia esperar  o momento certo de colaborar para uma mudança radical no mundo editorial. Como aliada ele escolhe uma jovem interiorana, de movimentos rudes e rosto sisudo, mas que diante das câmeras é capaz de retratar a energia jovem que estava prestes a explodir naquela geração. Nem ele entende muito bem como consegue convencer a posuda Vogue inglesa revista a levar aquela jovem desconhecida para um ensaio nas ruas de Manhattan. Apesar de David ser casado (o que aparece retratado somente com uma aliança, já que sua esposa nem aparece no filme) é quase inevitável que ele e Jean se tornem amantes. Talvez para não ressaltar os aspectos cinderelianos da história, o romance é mostrado de forma bastante natural e sem maiores polêmicas. O maior problema do casal é ter que lidar com a editora Lady Diana Vreeland (a divertidamente esnobe Frances Barber), enviada para coordenar o ensaio pelos pontos turísticos de Manhattan. Desde o primeiro dia podemos perceber o espírito jovial de Bailey constrastando com a pompa da editora - que ofende o casal várias vezes seguidas. A ideia de Bailey retratar a juventude real e não a ideal (pautada pelo que está posto pelos mais velhos) incomoda Lady Vreeland ao ponto dela beirar o surto. Ainda assim é muito divertido quando Lady dispara falas como "uma mulher de respeito não usa óculos escuros" ou quando Bailey fotografa sua musa através de uma tela de arame, ou emoldurada por faixas de protesto e até avisos sobre a sujeira dos cachorros. O mais interessante é como a história nos faz perceber a formatação do embrião da Vogue como a  que conhecemos hoje, provocativa, moderna e ditando tendências. We'll take Manhattan capricha nos figurinos e na reprodução do histórico ensaio de Bailey e Jean (que se tornaram ícones do mundo fashion) pelas ruas da Big Apple. Retratando o mundo a moda, o filme é uma atraente crônica de como o mundo dá voltas. 

We'll Take Manhattan (Inglaterra/2012) de John McCay com Aneurin Barnard, Karen Gillan, Frances Barber, Allan Corduner e Joseph May. ☻☻☻☻