terça-feira, 22 de janeiro de 2013

DVD: Turnê


Joachin e Mimi (ao centro): performances inusitadas.

Acho interessante como o francês Mathieu Amalric ficou mundialmente famoso ao interpretar um personagem que, durante quase todo filme,  só mexia um olho enquanto ditava a biografia de sua vida. Pelo papel do editor de moda Jean Dominic Balby em O Escafandro e a Borboleta (2007) ele quase foi premiado em Cannes - além de ter gerado convites para produções hollywoodianas. Pouca gente sabe, mas o ator já tem doze filmes em que assina a direção e o último deles foi cultuado quando estreou em Cannes em 2010. Turnê é um filme interessante, mas está longe de ser uma obra-prima. No entanto, é fácil de assistí-lo se você conseguir entrar no clima do espetáculo burlesco que Amalric quer nos apresentar. Mathieu vive o produtor Joachim Zand, que depois de enfrentar problemas como produtor de televisão na França, foi tentar a sorte nos Estados Unidos. Agora ele retorna à terra natal com um grupo de mulheres que ganham a vida com shows de neo-burlesque. Para quem não conhece, trata-se de números de striptease cômicos que costumam fazer sucesso em casas de show de públicos variados. O burlesco surgiu no século XIX e ainda hoje tem público cativo para as recriações que o estilo sofreu através das décadas. O filme tem até um fiapo de trama sobre os conflitos que existem entre Joachim e sua trupe de mulheres de formas generosas - especialmente quando elas descobrem que a turnê enfrenta alguns problemas para chegar à Paris e que Joachim saiu dos EUA para encontrar com seus dois filhos na França. Esta parte poderia dar um peso dramático aos personagens, mas a intenção de Amalric é outra. O diretor prefere conduzir o filme como se fosse uma espécie de documentário sobre essa turnê idealizada por Joachim. Assim, a câmera está sempre de olho nos bastidores ou nos detalhes das apresentações de palco, nas irritações de Joachim com suas estrelas em contraponto à visível a admiração que o diretor tem por suas atrizes despudoradas em números criativos para sua câmera - e para a plateia que os assiste. O filme foi sensação em Cannes por não ter nenhuma Dita Von Teese no elenco, mas um grupo de mulheres aparentemente comuns e de formas fartas que dificilmente teriam espaço num filme desses se fosse feito no cinema americano. No entanto, elas demonstram sensualidade, charme e apelo cômico muito superior à várias magrelas que aparecem em filmes toda semana. O destaque fica por conta de Miranda Colclasure, que interpreta  a desinibida Mimi Le Meaux que tem alma de diva - mas se contenta em seduzir todo homem que cruzar seu caminho (inclusive Joachim). Talvez eu gostasse mais do filme se não estivesse cansado dessa estética documental de narrativa (propositalmente) dispersa adotada por Amalric.  Investir em cenas em que o protagonista declara seus delírios de grandeza (será por isso que sempre veste a mesma roupa formal?) ou na cena em que a caixa de supermercado surta quando sente-se rejeitada, poderia ter feito o olhar do filme ainda mais rico perante os sentimentos que sua trupe desperta nos espectadores.

Turnê (Tournée/França-2010) de Mathieu Amalric com Mathieu Amalric, Miranda Colclasure, Suzanne Ramsey, Dirty Martini, Angela de Lorenzo, Julie Atlaz Muzz e Damien Odoul. ☻☻☻

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